
6 de dezembro de 2007
IV - Eu também quero que paguem a minha conta!
Bem que eu queria mudar de assunto!!! Não pensem que me divirto falando de problemas. Ao contrário, gostaria de ter pra comentar coisas maravilhosas e edificantes, que melhorassem o nosso astral. Mas, depois de ser humana, dos signos de Libra e do Gato, a coisa que eu mais sou na vida é jornalista, e então não é à toa que a minha antena já nasceu ligada, e que com o tempo, está cada vez melhor (ou pior, depende do ponto de vista). Assim é que, quando comecei a falar mal das mordomias, quando temos tantos outros assuntos melhores e piores, foi porque senti que essa questão está chegando aos limites suportáveis, e que se não houver qualquer reação urgente, vamos chegar ao limiar das mais assustadoras previsões da ficção, como “1984” e “A Fazenda dos Animais”, de George Orwell, ou o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. A leitura regular de jornais e revistas, tanto me assusta como me consola. Enquanto estou perdida nas notícias sobre escândalos, corrupção, autoritarismo, falta de vergonha na cara pura e simples, enfim...esse coquetel depressivo diário, volta e meia também me deparo com opiniões de gente inteligente, corajosa e sincera. Como aqueles escritores incríveis, homens e mulheres, que citei na crônica passada. E às vezes também, com páginas de jornalismo investigativo, que literalmente, nos lavam a alma. É o caso da série de reportagens iniciada no dia 18 de novembro, pelo jornal O Globo, sob o título “Sem controle, mordomias se alastram pelos 3 poderes”. Então é isso aí, amigos, enquanto eu escrevo essa crônica, bilhões de reais estão escoando no ralo da irresponsabilidade nacional, o suorzinho nosso de cada dia escorrendo gota a gota para finalidades absolutamente espúrias. Pagar por bolsa-família, bolsa-escola, bolsa-vagabundo, nada disso é do meu agrado, mas pelo menos posso pensar que estou ajudando a alimentar a pessoas que precisam. Mas saber que estou pagando pelo caviar e pelo champagne das digníssimas autoridades, desculpem, isso fere os meus brios. Já “rodou” pela internet, e eu já reenviei para muitos amigos, a lista de despesas “domésticas” do Palácio do Planalto. Também podemos nos informar razoàvelmente sobre o quanto, e porque, ganham tão bem as nossas autoridades. O problema principal é aquilo que não nos deixam ver, e que só descobrimos quando um jornalista “f.d.p”, esse profissional da destruição, sai catando pelas lixeiras do poder, cooptando descontentes, interpretando relatórios, e porque é profissional e não é de ferro, catando um “furo” de reportagem, que melhore o seu currículo e o seu salário. Então, é graças á diversas e miraculosas circunstâncias, que de vez em quando podemos descobrir para onde é que vão os impostos que pagamos, e que correspondem aproximadamente a um terço da nossa renda anual, independentemente de quanto ganhamos. Por que em muitas coisas, o pobre e o assalariado pagam muito mais imposto, inclusive, e relativamente, que banqueiros (donos de banco, por favor) por exemplo... Não vou copiar aqui a matéria de O Globo, porque não é o caso, mas apenas reproduzir a manchete e a chamada: As regalias dos poderes – Elite de 74 mil servidores tem diversas mordomias e ganha cinco vezes mais que a dos EUA. Pronto, amigos...é mole, ou querem mais? É claro que sempre tivemos mania de grandeza, mas já é mais do que hora de analisarmos que temos uma mania de grandeza ao contrário. Acho que disputamos o campeonato de quem paga mais. De quem cobra e exige menos. De quem se conforma com qualquer coisa, e se acomoda pra não se aborrecer. Enquanto isso, a legião de parasitas vai crescendo, nossos esforços encolhendo em resultados positivos pra nossa própria vida. Quem se importa se a grana não dá pra ir ao teatro ou comprar um livro? Quem se importa se não sobrou pra pagar o curso que você tanto queria fazer, e que poderia melhorar tanto a sua vida profissional quanto a sua auto-estima? Quem se importa se você está deprimido, e não tem dinheiro pra fazer a terapia de que você tanto precisa? Sei lá quantas oportunidades são perdidas, quantas carências não são correspondidas, tanta coisa que você queria fazer pelos seus filhos mas não pode. Enquanto isso, você segue pagando o caviar e o champanhe de gente que ganha dez, vinte vezes mais do que você. Se eles podem, eu também gostaria que você pagasse as minhas contas!!! Pelo amor de Deus, não pensem que quero promover uma luta armada, longe disso. Só queria ver as pessoas encararem suas vidas com mais consciência, com mais responsabilidade. Só gostaria de ter companhia para discutir o fato de que a realidade pode ser uma m...., mas pode ser mudada. Porque hoje temos uma arma poderosa nas mãos, através da comunicação. Podemos mandar cartas pra jornais, escrevermos para autoridades, divulgarmos nossas opiniões na internet. Podemos valorizar as ações coletivas através da nossa solidariedade virtual. Acho que não é admissível que nos dias de hoje continuemos a concordar em ser tutelados como escravos. Que “autoridades” pensem que podem fazer o que quiserem, e que depois de tanta evolução tecnológica, econômica e cultural, ainda continuemos nos comportando como gado. Bem, amigos, sigo falando sozinha. Há horas que tenho impressão de nem ser desse planeta, de ter descido, sei lá quando, de uma nave espacial...
Célia Borges
Célia Borges
III - Foi você quem delegou tantos poderes?
Me perguntaram por quê, e o que é a Aldeia Global a que me refiro, então vou esclarecer: a aldeia global foi um conceito criado por Marshal MacLuhan, lá pelos anos 70, para expressar a revolução que a comunicação gerou nas relações entre pessoas, paises e o mundo em geral, à partir de tecnologias como o satélite. A chegada do homem à lua transmitida ao mesmo tempo para o mundo inteiro foi uma espécie de ponto de partida dessa “globalização”...enfim...quem quiser saber mais, por favor, pesquise, que é o que faço quando fico curiosa. Esse preâmbulo não quer dizer que eu tenha desistido daquele minha campanha, eu diria mesmo da minha “guerrinha particular” contra as mordomias das nossas autoridades. Como sou jornalista – embora meio bandeada pro paisagismo – minha fonte, meu universo, minha linguagem é das notícias. E às vezes o noticiário nos revela gratas surpresas, como essa semana a crônica da Lia Luft na Veja, sobre o Dia do Mestre, e a entrevista da escritora Ligia Fagundes Telles para um Espaço Aberto Literatura, na Globonews. Isso, além é claro, da fantástica contribuição da internet, que vem materializando quase além do possível, o conceito de globalização. Enfim, misturando veículos e assuntos, lá vai: a entrevista da Ligia, que eu recomendo pra quem tem Sky ou cabo, é comovente. Ela sempre foi uma mulher linda, e hoje é uma velha linda. Ela, que foi uma “subversiva” da Ordem Arbitrária em vários episódios, é uma verdadeira inspiração, quando diz: “Nosso país não está bem, não. Está péssimo. Continuamos reféns da pobreza e da ignorância que vem pautando a nossa história” disse, classificando a educação e a cultura do país em situação “vergonhosa”. A Lia Luft também é escritora e cronista do primeiro time, e na crônica dessa semana, O que deixar para nossas crianças, em que se refere ao Dia do Professor, escreve o seguinte: “Oficio tão desprestigiado, por mal pago, por pouco respeitado e mal amado, que milhares de jovens escolhem outra carreira. E não me falem em sacerdócio: o professor, ou a professora, precisa comer e dar de comer, morar e pagar moradia, transportar-se e pagar transporte, comprar remédio, respirar, viver. Além disso, deveria poder estudar, ler, comprar livros...” Ler e ver essa postura em pessoas tão maravilhosas faz a gente ganhar um novo ânimo, e como eu já estou mesmo cheia de gás, quero aproveitar o incentivo para ir além da questão das mordomias. Só quero passar antes, e pra completar o raciocínio, pela mensagem que mandei pra quase todos os meus amigos, Troque um político por 344 professores. A mensagem não é nova, já tinha recebido e repassado, mas foi tão oportuna, que, por garantia, preferi coloca-la pra circular um pouco mais. Tanto a Ligia, quanto a Lia, e quanto esse pessoal da internet que cria esses “protestos” reclamam da mesma coisa, que é a que eu reclamo agora: Por que essa inércia? Por que essa abdicação, essa negligência que parecemos ter com relação à nossa cidadania. Não é por falta de esclarecimento, pelo menos pra nós, a tal da “elite” que é quem ainda lê alguma coisa, que deixamos de nos envergonhar de como somos – e cada vez mais – descaradamente abusados. Recentemente circulou outra mensagem sobre o custo de um político brasileiro, e não humor da internet não...é a reprodução de um noticiário de TV. Mas esse custo calculado sobre salários e mordomias, está muito longe da realidade do que realmente pagamos, em vidas perdidas, em saúde e em sonhos, entre outros valores. Há algumas dezenas de anos que a classe política perdeu completamente a compostura, passou a legislar e administrar prioritáriamente em causa própria, deixando os verdadeiros interesses do cidadão e do país em plano secundário. E o judiciário aproveitou a bagunça pra instalar o clima de “também quero o meu”... Isso tudo só é possível porque falta educação à maioria, porque é justamente com o apoio dessa população ignorante e carente que os abutres podem se perpetuar no poder. Então, por que prover uma boa educação? Por que investir em saúde, em prevenção? Mas como tudo isso está chegando às raias do exagero, que o acumulo de privilégios nos remete à França dos Luises, e que a corrupção desenfreada já mostrou que, ganhar bem e ter esses privilégios não torna ninguém imune a querer ganhar mais um pouco “por fora”, acho que já é hora de nos sentirmos feridos nos brios e botar a boca no mundo. Continuo sem saber como fazer isso objetivamente (ainda), e sigo esperando por sugestões dos meus amigos e leitores. Mas eu realmente NÃO QUERO MAIS CONTINUAR PAGANDO PELAS MORDOMIAS DOS POLÍTICOS E ETC...E agora dei de implicar com outra coisa: essa história de emendas ao orçamento é uma vergonha. Precisamos acabar com isso também. É uma forma de incentivar a perpetuação no poder, porque o cidadão acredita que foi o político Sr. Fulano de Tal que pagou a obra ou benefício à sua comunidade, quando na verdade que está pagando é quem paga impostos, inclusive ele mesmo. O tal do político só tem um poder absolutamente arbitrário e inexplicável, de usar o “nosso”dinheiro em benefício das ambições políticas, suas e de seus familiares, porque a moda agora é político também ter dinastia...além de agüentar os próprios ainda familiares ou parentes (que sejam razoávelmente alfabetizados, né...) Enfim, CHEGA DE EMENDAS AO ORÇAMENTO!!!! O orçamento deveria ser elaborado por técnicos, e para atender às necessidades reais da população, e não pra obras de interesse pessoal, ou então aquelas que acabam abandonadas, só consumindo o dinheiro público. Quer dizer, o meu, o seu, o nosso dinheirinho. Eu só gostaria de saber quem foi que delegou tanto poder pra esse pessoal. Como é que eles tomaram conta do poder dessa forma, nos deixando inertes, perplexos, sem reação. Desculpem, amigos, mas comigo não. Vou continuar reclamando, como a Lia, como a Ligia, e espero que cada vez mais gente, usando a poderosa arma que a Aldeia Global nos conferiu, que é a internet. Uma grande amiga minha mandou a crônica anterior pra todos os senadores. Eu estou catando todos os endereços eletrônicos de governos e poderosos pra mandar também. Políticos, juizes, esse povo todo, tem que ser de cidadãos como nós...se não, como é que acham que vão estar nos representando? Célia Borges Post scriptum: além das minhas autoras preferidas e citadas, recomenda essa semana também a leitura do Luis Fernando Veríssimo no Globo de domingo, e do Millor na Veja dessa semana também. Lava a alma ler o que escrevem esses gênios do nosso idioma...
Célia Borges
Célia Borges
II - E se nos recusarmos a pagar a conta?
Entre os vícios que cultivo, acho que o pior de todos é a leitura de jornais. Beber, fumar, amar...nada disso pode ser tão nocivo pra saúde de uma pessoa quanto a leitura de um jornal, principalmente se essa leitura é matinal. É claro que, de um vício desses, ou não pode sair boa coisa, ou pode sair alguma coisa (desculpem a falta de modéstia) genial... Enfim, o caso é que, de tanto “matutar” (sou daquelas pessoas que ainda faz isso!!!) sobre as barbaridades que leio todos os dias, somando, dividindo, sutraindo, e até multiplicando, certas opiniões que leio aqui e ali, só posso concluir que esse estado de coisas já superou todos os adjetivos (estarrecedor, por exemplo, virou muito pouco!!! Quem mais fica “estarrecido” como se isso fosse uma coisa original?)...que a culpa é nossa mesmo, e que na falta do que falar, só nos resta, finalmente, passar a ação... “Ora, direis, ação como, cara pálida?” (desculpem a licença poética) Então eu vos digo que, de agora em diante, de forma pessoal e intransferível, eu lanço uma campanha pra me recusar a pagar todas e quaisquer mordomias que estão imoralmente garantidas por quaisquer tipos de leis, a deputados, senadores, juizes e que tais da justiça, presidentes, governadores, prefeitos, secretários, funcionários públicos, cargos em comissão, apaniguados, esposas, ex-esposas, amantes, filhos, ex-filhos, e assim por diante... Ora, bolas (aí sem qualquer poesia!!!), nós não somos obrigados a viver dos nossos salários? Por que é que uma reles “autoridade”, que é, por definição, representante do cidadão e da cidadania, deve ou pode ter o direito de acumular privilégios, como auxílios pra morar, pra gasolina, pra ter empregados pessoais, passagens aéreas, correio gratuito...isso porque não quero perder muito tempo de vocês e espaço, pra enumerar a extensa lista de mordomias, que pagamos com o nosso suor de cada dia... Tentando estabelecer uma certa cronologia para todo esse descalabro, eu pergunto como é que qualquer pessoa razoàvelmente informada (não me incluo aí, porque é covardia...sou literalmente intoxicada de tanta informação...) pode imaginar que vamos ingressar no primeiro mundo, enquanto nossos valores políticos nos remetem, no mínimo, ao desastre da chegada da Coroa em 1808. Porque nós, que deveríamos ser cidadãos de uma república, continuamos reféns de uma aristocracia – aliás, caricatura de aristocracia – com a nobreza sendo substituída por presidentes e governadores, deputados e senadores, juizes e procuradores... Chega a parecer piada que um pobre operário que ganha salário mínimo, tenha que dar sua contribuição pra garantir o champagne francês do Sr. Juiz, do Sr. Presidente, dos Srs. Deputados e senadores, que já recebem seus honorários e salários de vários dígitos...E eu quero ter o direito de me recusar a pagar essa conta. Sou contra a qualquer tipo de privilégio, acho que cada um deve viver do “seu” salário...e nada mais... Temos que nos mobilizar pra acabar com as MORDOMIAS...(Sarava pro fantasma daquele horripilante Fernando Collor)...isso não pode ser balela de político, tem que ser produto de mobilizações públicas e pessoais de cada um de nós...EU, DEFINITIVAMENTE, NÃO QUERO CONTINUAR PAGANDO ESSA CONTA!!!! É claro que, pessoalmente, sou uma articuladora complicada pra essa campanha, porque, pra início de conversa, sou anarquista...o que quer que seja o que isso quer dizer!!!!...Espero que, por puro preconceito, essa confissão não se vire contra mim...o que quero dizer é que não vou me propor a fazer a parte de ninguém, cada um que faça a sua, da sua maneira...Apenas digo que começo a estudar sériamente todas as possibilidades de “desobediência civil” que, sem ferir leis ou prejudicar pessoas, posso mostrar o meu ponto de vista: NÃO QUERO MAIS PAGAR AS CONTAS DAS MORDOMIAS!!!! Acho que professores, operários, médicos, agricultores, empresários, militares, donas de casa, engenheiros, atores, poetas, todos têm o direito de ganhar o suficiente para as suas sobrevivências...mas cada um desses, até onde eu saiba, vivem do seu trabalho. Então porque privilégios para aqueles que justamente deveriam ser os nossos “sensores” (não confundam com censores, estou falando não de limites mas de sensibilidade), que deveriam perceber os movimentos sociais e se antecipar a eles para apresentar soluções (e não criar problemas, para cobrar pelas soluções!!!). Somos um país muito rico, não apenas do ponto de vista das riquezas naturais, mas principalmente devido ao potencial humano, que sempre apresenta respostas além das expectativas (lembram da crise energética e de quanto economizamos?). Já tivemos muitas oportunidades de demonstrar essa força (lembram das Diretas Já?) e isso é que me surpreende hoje em dia, diante de tanto que nos acovardamos (eu, não, diga-se de passagem, que não paro de agitar tudo o que está ao meu alcance!!!) diante dessa situação que me assusta, e que me dá a impressão de que, se não nos mobilizarmos, vai nos engulir... É claro que há muito o que ser feito nesse país...e que não dá pra fazer tudo ao mesmo tempo...mas acabar com as mordomias, eliminar os privilégios, minar as oligarquias políticas, impedir reeleições e destruir, ou pelo menos questionar, essa aristocracia ilegítima que se alimenta do clientelismo e da ignorância...isso me parece uma questão de CIDADANIA. O poder que nos comanda, no Brasil, hoje em dia, é como uma esfinge: DECIFRA-ME OU TE DEVORO...Eu não quero ser devorada, e o que eu decifrei de todas essas leituras que me afligem no dia a dia, é que precisamos reagir de alguma maneira...eu, de agora em diante, só quero pagar, pura e simplesmente, o salário desse pessoal...e eles que se virem no fim do mês, que é como a gente faz... Ainda não sei como vou por isso em prática. Aguardo sugestões...vou ficar muito feliz se encontrar pelo menos companhia nessa caminhada...
Célia Borges
Célia Borges
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