27 de abril de 2008

Em memória de Élio Gouvea

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Ele era um homem pequeno, a pele morena ainda mais acentuada pela vida ao ar livre, dono de um olhar inquisitivo, que parecia estar sempre querendo ver além, através de coisas e pessoas. O biólogo Élio Gouvêa era também extremamente bem educado, o que não quer dizer que fosse sempre simpático: uma pontinha de mau humor, e uma certa impaciência com tudo o que achava “perda de tempo” não impediam, entretanto, que quem o conhecesse melhor, acabasse admirando-o, e descobrindo que por trás da expressão sisuda havia um homem culto, entusiasmado, encantador.
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Élio Gouvea foi um incansável pesquisador e defensor do meio-ambiente
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Durante os mais de cinqüenta anos em que viveu em Itatiaia, a maior parte do tempo como funcionário do Parque Nacional, realizou uma grande quantidade de trabalhos de relevante contribuição científica, foi um ativo professor, orientou e incentivou pesquisas, além de ter sido um incansável líder na luta pela proteção do meio ambiente e em defesa da ecologia.
Élio Gouvêa nasceu em Santa Leopoldina-ES, em 25 de setembro de 1924, e viveu no Rio de Janeiro entre 1940 e 1943, quando concluiu o curso de horticultura na Escola Wenceslau Belo. Voltou por pouco tempo à terra natal, onde trabalhou com o pai, Mário Gouvêa, na fazenda em Sapucaieira. No ano seguinte foi indicado pela direção da Escola Wenceslau Belo para trabalhar no Parque Nacional do Itatiaia, assim como outros colegas de curso, que possuíam formação técnica em assuntos agronômicos, desenhos e projetos de construções rurais, paisagismo e estudos topográficos.
No dia 15 de junho de 1944 ele desembarcou na estação ferroviária de Campo Belo: um jovem cheio de esperanças, e tomado pela surpresa diante do cenário de inesperada beleza. Sua vinda decorria da necessidade do administrador do parque na época, Dr. Wanderbilt Duarte de Barros, de preencher o quadro de pessoal auxiliar, para atender um programa de trabalho, que iniciou a bem sucedida trajetória administrativa desse grande técnico no Parque Nacional. Contratado do mesmo dia, na função de auxiliar de agrônomo, exerceu o cargo até 1960. Nesse período realizou levantamentos topográficos, desenhos e projetos de estradas, abrigos, residências, jardins e etc.
Devido ao seu interesse e dedicação, foi indicado para fazer um curso intensivo de Museologia, no Museu Nacional do Rio de Janeiro, e outro de Ecologia, na Escola de Agronomia, que na época (1946 -1947) funcionava na Urca. O objetivo desse treinamento era a criação de um museu no parque, que mais tarde se materializou no Museu da Fauna e da Flora, importante referência científica e atração turística do parque durante várias décadas.
No regresso, após esses cursos, Élio Gouvêa passou a responder interinamente pela direção do Parque, devido ao afastamento do diretor Wandebilt Duarte de Barros, por motivo de férias. Nesta oportunidade ficou também responsável por acompanhar a naturalista e especialista em anuros, Dra. Berta Lutz, que em companhia de seu irmão, o médico Dr. Gualter Lutz, veio para estudar a região dentro da sua especialidade.
A vinda dessa naturalista para Itatiaia foi muito importante para Élio Gouvêa, pois com ela deu seus primeiros passos na atividade científica. Aos poucos, por sua influência, começou a enxergar e a ouvir os anuros, tendo sido incentivado à percebê-los inspirado no carinho e atenção que a Dra. Berta tinha por eles. Nas quatro viagens que ela fez à região – 1947, 1950, 1951 e 1957 – foram identificadas novas espécies, assim como realizadas coletas de espécies raras de altitude, cujo levantamento reuniu mais de 60 espécies geográficas, sendo consideradas de uma fauna excepcional.
Em dezembro de 1949 foi iniciada a organização do Museu da Fauna e da Flora, com o levantamento da fauna de vertebrados, após convênios assinados com o Serviço Florestal do Ministério da Agricultura e com o Departamento de Zoologia da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, tendo participado ativamente dessa inciativa. Essa época marca o início, também, de uma trajetória profissional de Élio Gouvêa, voltada para a conservação do Meio Ambiente, com sua especialização cada vez mais inclinada para a Ecologia.
A experiência prática exigia cada vez mais conhecimentos teóricos, e assim, com quase cinqüenta anos, empreendeu sua graduação em ciências biológicas, pela Sobeu, tendo se formado em 1976. Fez vários cursos antes e depois, como pós-graduação em Recursos Naturais da OEA, pós-graduação em Metodologia do Ensino Superior pelo Cecope-Sobeu, além de estágios no Instituto Oswaldo Cruz e Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Em seu currículo estão ainda cursos como Biogreografia do Itatiaia, Observação e Anilhamento de Aves, além de uma infinidades de congressos, seminários e simpósios relacionados com o Parque Nacional do Itatiaia.
Participou também de inúmeras atividades de intercâmbio científico entre o Parque Nacional e entidades como o Museu Nacional, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Fundação Oswaldo Cruz, Serviço de Defesa Vegetal do Ministério da Agricultura-RJ, Serviço Florestal-RJ, Instituto de Botânica-SP, Serviço Florestal de Cantareira-SP, Instituto Butantã, Instituto de Ecologia e Experimentação Agrícola-SP, Instituto Biológico-SP, Departamento de Zoologia-SP, Parque da Água Branca-SP, Museu do Café de Ribeirão Preto-SP e Horto Navarro de Andrade, da Água Branca-SP.
Após 20 anos de dedicação, afastou-se do Parque Nacional em 1964, por motivo de saúde, retornando em 1970 por solicitação do presidente do IBDF, para reformular o acervo de exposição do Museu da Fauna e da Flora. Em março de 1976 foi classificado para a função de auxiliar de assuntos culturais do Parque. Participou como instrutor e coordenador da Operação Mauá, no parque; do V Curso de Anilhamento de Aves em 1982; requisitado pelo IBDF, integrou a equipe de levantamento florestal de essências nativas em Minas Gerais; admitido como professor de Zoologia da Sobeu, lecionou de 1980 a 1991, tendo respondido pelo Departamento de Zoologia dessa universidade, onde foi também professor pesquisador.
Como defensor do meio ambiente, criou, em 15 de junho de 1987, no cinqüentenário, e presidiu por muitos anos, a Apropani – Associação Pró-Parque Nacional do Itatiaia, tendo anteriormente dirigido também do Mover – Movimento Ecológico de Resende. No dia 10 de junho de 1996 assumiu a cadeira 14 da Academia Itatiaiense de História, que tem como “patronesse” a Dra. Berta Lutz, vindo a falecer em 19 de julho de 1999. As fontes desse texto foram o discurso de cerimônia de sua posse na Acidhis, por sua filha caçula Edinamara Gouvêa, e a primeira Revista da Acidhis, de 2005.

25 de abril de 2008

ITATIAIA HISTÓRICA – Contribuições científicas e visitantes ilustres na área do Parque Nacional


A pesquisa que se segue não é de minha autoria. Apenas tive a oportunidade de trabalhar nela como revisora e redatora, tendo sido responsável pela síntese e adaptação do texto, além da atualização dos dados. Foi escrita pelo biólogo Élio Gouvêa, falecido em 1996, e só me atrevo a publicá-la nesse espaço em sua homenagem, e para que esse trabalho não corra o risco de ficar esquecido. Rogo aos eventuais pesquisadores do texto que dêem crédito ao seu legítimo autor.

“Antes de fazer qualquer comentário sobre a existência do Parque Nacional do Itatiaia, é necessário reportar-me a fatos históricos e científicos que deram origem à criação da primeira unidade de conservação do Brasil. O movimento de elevado nível científico-cultural dos viajantes naturalistas que passaram por aqui teve início há 186 anos, e levou a região do Itatiaia a ser conhecida mundialmente.

As viagens desses estudiosos ao Brasil se deram graças à abertura dos portos, em 1808. Muito antes da criação do parque, em 1937, especialistas botânicos, zoólogos e geólogos, descobriram no maciço do Itatiaia, mais especificamente no planalto, que havia algo novo e surpreendente para todos: o revestimento florístico era inteiramente desconhecido para a ciência, rico em endemismos; uma fauna também bastante rica, e adaptada ao rigor das condições climáticas do altiplano. E o aspecto topográfico rochoso foi por muitas décadas assunto polêmico sobre suas origens, atribuídas primeiramente ao peri-glacial, depois vulcânica, e finalmente, de magma intrusivo.

Tais informações se propagaram rapidamente, trazendo para esta região não apenas naturalistas pesquisadores, mas sobretudo pessoas ilustres, que puderam avaliar de perto o que lhes fora comentado e descrito pelos viajantes. O aspecto cênico da região foi amplamente apreciado, desde a topografia acidentada até a exuberância da flora, da fauna e das águas límpidas e encaichoeiradas, que justificam sua condição impar como região turística.

Inúmeros naturalistas visitaram Itatiaia em missão científica. Podemos dividi-los em quatro períodos: de 1822 a 1899, com doze cientistas; de 1899 a 1930, com outros 21; de 1930 a 1960, num total de 48; e finalmente, desde 1960 a 1992 quando encerramos esse levantamento, outros 11. Das 92 referências biográficas, apenas 22 eram do Brasil, e os demais, de estrangeiros.

O primeiro visitante a pesquisar Itatiaia foi o botânico Auguste Saint-Hilaire (1822), seguido de outros botânicos como Frederic Sellow (1830), e Auguste François Marie Glaziou (1872), primeiro a escalar as Agulhas Negras em companhia da Princesa Isabel. O quarto naturalista botânico foi H. Wawra Ritter von Fernsee (1879), viajando em companhia dos príncipes de Sachsen-Corburg.

Em meados de 1872 passaram pelo vale do rio Paraíba do Sul, rumo à São Paulo, dois naturalistas importantes, Spix e Von Martius, em missão zôo-botânica, sendo responsáveis pela classificação de centenas de animais e plantas brasileiras. Desta viagem pelo Brasil foi editada uma coleção de 23 volumes da “Flora Brasiliensis”, ilustrada com centenas de gravuras e desenhos, com detalhes das plantas estudadas. Na ocasião de sua passagem pela região foram identificados apenas remanescentes arbóreos da flora atlântica.

As referências mais significativas ocorreram à partir de 1894, com Ernesto Ule, sub-diretor do Museu Nacional, e do botânico sueco Pér Karl Hialmar Dusén (1902/1903) cujos resultados encontram-se arquivados no Museu Nacional e no Arkiv for Botanik (volume 8, n0 7 e volume 9, n0 5) da Real Academia da Suécia, e mais tarde publicado no boletim n0 4 do Parque Nacional do Itatiaia, sob o título “Contribuições para a flora do Itatiaia”.

À partir de 1913 diversos pesquisadores botânicos brasileiros também contribuíram, sendo eles Firmino de Tamandaré Toledo Jr. (1913), Alberto J. de Sampaio (1927), Paulo Campos Porto (1914/1938), G. F. Edmundo Pereira e Eduardo Cunha Melo (1951) e muitos outros. Este último, agrônomo, desenvolveu o “Estudo dendrológico de essências florestais do Parque Nacional do Itatiaia e os caracteres anatômicos de seus lenhos”, publicado no boletim n0 2 do Parque Nacional.

No entanto a obra científica mais importante sobre a flora de região foi escrita por Alexandre Curt Brade (1913/1954) sob o título “A Flora do Parque Nacional do Itatiaia”, boletim n0 5 (1956), descrevendo inúmeras espécies novas, relacionando mais de uma centena de plantas endêmicas e identificando outras tantas consideradas exóticas, procedentes dos Andes peruanos, Austrália e Europa.

As primeiras coleções do herbário registradas no acervo do parque datam de 1913, para as quais, além de Brade, contribuíram também Paulo Ochioni, Graziela Barroso, F. S. Viana e ainda os professores Alberto Castellanos, da Argentina, H.F. Martins e J.P.P. Carauta, resultando de suas colaborações o trabalho publicado no Boletim n0 8 (1956) sobre as pteridófitas da região. À partir de 1943, com a vinda do Dr. Wanderbilt Duarte de Barros para a direção do parque, reiniciaram-se as coletas botânicas, sendo construídos os móveis de exposição e arquivo do antigo Museu da Fauna e da Flora, recentemente desativado pelo governo federal.

Na fauna regional figuram inúmeras referências zoológicas, entre vertebrados e invertebrados, onde os primeiros registros foram da avifauna e anuros, coletados por Carlos Moreira e Ernest Hemmendorff (1901/1903), seguidos pelo zoólogo Alípio de Miranda Ribeiro (1904), relacionando 43 espécies de aves, estudando e classificando anuros, répteis e pequenos mamíferos, além das duas únicas espécies de peixes da região, e cujos trabalhos encontram-se no Arquivo do Museu Nacional (1905).

O Museu Paulista estudou a avifauna dos campos do Itatiaia, enviando vários ornitólogos à partir de 1906. Em 1907 Charles E. Hellmayer publicou considerações sobre algumas novas espécies descobertas. Entre 1921 e 1922 o Museu Nacional volta a estudar a região, trazendo Pedro Pinto Peixoto Velho, cujo relatório de viagem foi publicado no Arquivo do Museu Nacional (1923).

Entre os pesquisadores que estudaram a avifauna do Itatiaia, o ornitólogo norte-americano Ernest G. Holt, que aqui esteve entre 1921 e 1922, foi o cientista de maior significado, elevando a lista de aves para 150 formas geográficas. Deste trabalho tem-se notícia apenas bibliográfica, tendo sido publicado no Boletim do Museu Americano de História Natural, sob o título “Ornitholgical Survey of the Serra do Itatiaia – Brazil”. Suas referências foram citadas por Olivério Pinto, no Boletim n0 3, “Aves do Itatiaia” (1954).

Dando continuidade ao estudo dos vertebrados, visitou Itatiaia a naturalista Berta Lutz, especialista em anuros e pesquisadora do Museu Nacional. Procedeu-se então o estudo dos anfíbios, identificando 64 espécies, e descrevendo novas formas dos gêneros Hyla, Hylodes, Holoaden, Crossodactylus e Megaelosia. Boa parte desse material encontrava-se no acervo cientifico do parque, recentemente desativado e distribuído entre outras instituições, e o Museu Nacional. (Obs: outras espécies de anuros foram descritas por Élio Gouvêa, autor desse texto, sozinho e em parceria com o professor Eugênio Izekson, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro).

Em função da criação do Museu da Fauna e da Flora vieram novos pesquisadores, publicando trabalhos como “Mamíferos do Parque Nacional do Itatiaia”, de Fernando Dias Ávila-Pires e Élio Gouvêa, no Instituto Oswaldo Cruz; o zoólogo Rudolf Barth (1958/1960) produziu dois trabalhos, o primeiro sobre “A Fauna do Parque Nacional do Itatiaia” e o segundo sobre “Órgãos odoríferos dos Lepidópteros”, boletim n0 7 (1960).

A fauna insecta foi minuciosamente estudada por vários especialistas. Entretanto foram José Francisco Zikan e seu filho Walter Zikan (1923/1954) os que mais contribuíram para o levantamento biológico e sistemático da insectofauna regional, produzindo uma das mais famosas coleções do extinto museu. Entre os trabalhos por eles desenvolvidos, o mais importante é o estudo sobre vespas, registrado no Boletim n0 1, “O gênero Mischocytarrus Sassure (Hymenosptera Vespidae), com a descrição de 82 espécies novas (1949).

Sua coleção particular somou mais de 30 mil espécimes, e foi adquirida pelo governo federal, ficando depositada no Instituto Oswaldo Cruz (RJ). O diretor do parque, Dr. Wanderbilt Duarte de Barros, procurou novos pesquisadores, como os entomologistas Person e L. Travassos (1945), com o objetivo de aumentar as coleções, pois não podia mais contar com Zikan, que veio a falecer em São Paulo.

A geologia também foi estudada, sendo feitas as primeiras notas por J.F. da Silva (1876), porém as principais referências geológicas pertencem a A. Von Lasaulx (1885). Outros estudos foram realizados: A.B. Paes Leme (1923) e O. Maull (1930). Porém foi Alberto Lamego quem divulgou um estudo completo do Itatiaia.

Outros geólogos continuaram com as pesquisas: E. de Martonne (1943), M. S. Pinto (1938), J. D. da Silveira (1942), F. Ruellan (1943), R. Ribeiro Filho (1948), Heinz Ebert (1960), D. Teixeira (1961) e finalmente Evaristo Ribeiro Filho e Faustino Penalva (1960 a 1964), que divulgaram excelente trabalho: “Geologia e Petrologia dos Maciços Alcalinos do Itatiaia e Passa-Quatro” e “Geologia e Tectônica da região do Itatiaia” (1967), cuja tese outorgou-lhes os títulos de doutores em geologia”. (Élio Gouvêa)

Célia Borges

Os cem anos dos núcleos coloniais de Itatiaia e Visconde de Mauá

A criação dos Núcleos Coloniais de Itatiaia e de Visconde de Mauá, que promoveu a vinda do maior grupo de imigrantes europeus para a região, está completando cem anos. O primeiro passo foi dado em 30 de abril de 1908, quando o governo do Estado do Rio de Janeiro, representando a União, propôs ao Comendador Henrique Irineu de Souza – filho e herdeiro do Visconde de Mauá – a compra do conjunto de fazendas de sua propriedade no maciço de Itatiaia.
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O negócio foi fechado rapidamente, e no dia 4 de junho do mesmo ano, lavrada a escritura de compra pelo governo federal de 48 mil hectares, englobando sete fazendas e suas benfeitorias, ao preço de 130 contos de réis. E, finalmente, em dezembro de 1908, chegaram os primeiros grupos de colonos, formados principalmente por famílias alemãs. Divididos entre os dois Núcleos, adquirem os lotes vendidos pelo governo federal, que entretanto se compromete a assumir toda a responsabilidade sobre o empreendimento, o que foi mantido apenas até 1916.
O objetivo dos Núcleos Coloniais era a produção de frutas européias, de cereais, tubérculos e a criação de gado de clima temperado, além de pequenos animais. A área dos dois núcleos foi dividida em lotes rurais de 25 hectares, custando de 10 a 20 mil réis o hectare, e lotes urbanos, próximos às sedes, de 3.000m2, a preços de 10 a 40 mil réis por metro quadrado. Quem teve recursos para pagar à vista recebeu seu título de propriedade, mas nas vendas à prazo os colonos recebiam apenas um título provisório. O prazo dado para o início do pagamento das prestações foi até 1911.
Outros grupos de imigrantes europeus foram chegando nos anos seguintes, formados principalmente por alemães, franceses, belgas e italianos, ocupando os lotes ainda disponíveis. Em 1912, por exemplo, chegaram ao Núcleo de Itatiaia doze famílias de colonos holandeses. Nessa época, as despesas da União com a implantação dos núcleos, incluindo a aquisição de terras, construção de casas e estradas, foi avaliada em 307 contos de réis.
O apoio do governo federal cessou em 1916, quando através do decreto 12.083, de 31 de maio, o Núcleo Colonial de Itatiaia foi emancipado, o que já estava previsto, e que significava autonomia para os colonos. Desde então, os lotes que não satisfaziam aos seus proprietários, ou que ainda não tinham sido quitados, puderam ser vendidos. Muitos foram adquiridos por mineiros residentes em áreas vizinhas, para a produção de leite, especialmente na região de Visconde de Mauá. Passaram a ser considerados como “colonos nacionais”.
Essa época marcou também o despertar da vocação turística da região, quando as famílias de origem européia passaram a receber turistas em suas próprias casas. Nos anos seguintes surgiram as primeiras pousadas. Em 1924 Josef Simon comprou o lote 90 do Núcleo de Itatiaia, onde mais tarde construiria o Hotel Simon. Roberto Donati adquire o lote 128, onde em 1931 inauguraria o Hotel Repouso Itatiaia, hoje Hotel Donati. Em Mauá, os Bühler também passaram a se dedicar ao turismo.
A criação do Parque Nacional do Itatiaia, em 14 de junho de 1937, não causou maiores problemas aos colonos, já que o decreto 1.713 dessa data não incorporava os lotes do Núcleo Colonial pertencentes a particulares. Foram incorporados apenas os lotes do Ministério da Agricultura, pertencentes à União e que não tinham sido vendidos aos colonos, além da área da Estação Biológica, num total de 11.943 hectares.
A convivência pacífica entre o núcleo colonial e o Parque, entretanto, começou a ser ameaçada 45 anos mais tarde, em 1982, quando o decreto 87.586, de 20 de setembro, sancionado pelo então presidente João Figueiredo, ampliou os limites da reserva para cerca de 30.000 hectares, incluindo lotes do antigo núcleo pertencentes a particulares, sem definir entretanto que seriam desapropriados, e sem justificativa técnica para incluí-los.
Os descendentes dos colonos do núcleo de Itatiaia, e demais residentes que adquiriram os lotes deles, vêm empreendendo desde então uma incansável batalha judicial em busca de uma solução negociada para o problema. Eles argumentam que, ao contrário de ameaçar a natureza, contribuíram muito para a preservação dessas áreas, que haviam sido anteriormente destinadas à campos e pastagens, e que com a mudança das atividades planejadas, acabaram se transformando em florestas secundárias.
A Associação dos Amigos de Itatiaia – AAI – vem há quase dois anos tentando organizar a festa do centenário do Núcleo Colonial, mas a comemoração foi um tanto comprometida, não apenas pela situação de insegurança em que se encontram atualmente, quanto pelas dificuldades em conciliar projetos e opiniões. Criada em 4 de abril de 1951, a AAI é sociedade civil sem fins lucrativos, que tem como objetivo principal preservar a flora, fauna, águas e belezas naturais da região.
Segundo sua diretoria, a AAI sempre procurou cooperar com a administração do Parque e demais autoridades, contribuindo para promover o turismo, e ao mesmo tempo atuar na prevenção de desmatamentos, depredações, incêndios, caça clandestina, poluição do meio ambiente e perturbação da ordem local. A associação cuida também da divulgação da história e das belezas da região.
Ela promove reuniões culturais, conferências e exposições de arte, assim como planeja a publicação de um livro sobre a história do Núcleo, em fase de pesquisas. As fontes usadas como base para esse texto são o livro de Itamar Bopp, Cem Anos da Cidade, e informações prestadas pela diretora da AAI, Maria Teresa de Mehr. A foto de abertura é o navio Cap Verde, que trouxe os primeiros imigrantes, extraída do livro Nossa História, de Antonio Carlos Costa.

24 de abril de 2008

ALDEIA GLOBAL XXVIII – Crianças e idosos: porque é tão fácil abusar dos mais fracos?

O recente e chocante episódio do assassinato da menina Isabela Nardoni nos coloca cara a cara com a triste constatação da índole violenta do ser humano. Prefiro acreditar que ela não é inerente a todos nós, até porque eu, pessoalmente, tenho horror a qualquer tipo de violência. “Mea culpa” se cometi eventualmente alguma violência escrita ou verbal, porque é difícil atravessar a vida sem nenhum pecado, mas estou certa de não ter passado disso. Pude, entretanto, por essa mesma experiência de vida, observar a violência sob seus mais variados aspectos e requintes.

A profissão de jornalista nos expõe a uma carga intensa e variada de informações, muitas das quais, inclusive, nem são publicadas, num desfile de horrores que frequentemente leva o cidadão a desembocar num cinismo sem remédio, no alcoolismo, na úlcera gástrica ou no psiquiatra. Embora, é claro, muita gente sobreviva à profissão sem maiores traumas...

Um caso como esse, da menina Isabela, que provoca grande comoção popular, além do choque pelo fato em si, também proporciona uma oportunidade para se refletir sobre que mundo é esse, em que procuramos sobreviver, criar filhos, construir uma cidadania. Que mundo é esse, em que uma vida vale tão pouco? Em que a sobrevivência, a integridade, a dignidade de uma pessoa são tratadas como um mero e inoportuno detalhe? Em que direitos garantidos a alguns sejam negados à maioria?

Não tenho, infelizmente, a menor dúvida, de que vivemos num mundo cruel e covarde. Ao contrário do homem primitivo, não se trata entre nós de uma luta pela sobrevivência. Ou pode até se tratar, dependendo da perspectiva de quem comete a violência, mas não do ponto de vista da sociedade. Quem mata uma criança covardemente está lutando para sobreviver a que? E quem maltrata e tortura? E quem abandona e rejeita uma pessoa indefesa, criança ou velho?

A situação de permissividade e omissão em que vivemos é um incentivo à violência, porque quem comete o crime, o abuso ou a fraude, está se sentindo garantido na perspectiva de impunidade. A ação eficiente da Justiça é uma espécie de loteria às avessas, mas o criminoso pode sempre contar com o estado de normalidade, que é aquele baseado na morosidade, na inoperância, e até mesmo na irrelevância de um Judiciário, que está longe de “dar conta do recado”.

Uma educação que valorizasse o conhecimento técnico sem esquecer o peso da cultura e da perspectiva humanista do ensino, poderia contribuir para neutralizar ou minimizar essa índole violenta. Mas são tantos os exemplos de pessoas com boa escolaridade que cometem crimes atrozes e hediondos, que é o caso de que considerar que o temor do castigo ainda é o maior “freio” social para a criminalidade. E, infelizmente, esse freio anda em falta.

Além da impunidade geral, ainda temos que enfrentar o incentivo à violência que se verifica através dos desafios à legalidade, no comportamento das autoridades de todos os poderes, quando burlam, fraudam, mentem descaradamente, e assim justificam para o cidadão comum que façam o mesmo. Se os poderosos podem desrespeitar e afrontar as leis, e descumprir decisões judiciais sem o menor temor de serem por isso responsabilizados, por que qualquer pessoa não pode agir igual?

As leis, e o desempenho do Judiciário, nos garantem muito pouca Justiça. É fácil, principalmente, descarregar a agressividade pelas dificuldades do dia a dia, naqueles que têm pouca ou nenhuma chance de defesa. Nas crianças e nos idosos de preferência. E se assim não fosse, não haveriam tantos casos escabrosos de violência contra eles, como nos mostram aquilo que é divulgado pela imprensa. E o que é pior, naquilo que a imprensa nem divulga, nos inúmeros casos que se perdem do noticiário, diante da “banalidade” da violência.

É tão cruel e covarde esganar uma criança de cinco anos e atira-la de uma janela, encarcerar e torturar um adolescente, quanto atirar em alguém pelas costas por vingança, ou negar os direitos de um cidadão idoso retirando-lhe os meios para a sobrevivência. Esses são apenas alguns tipos de violência que nos subjugam, mesmo quando ainda não somos diretamente vítimas.

Quando a violência anda solta pelo mundo, o caso de ela bater à nossa porta é apenas uma questão de tempo. Pedir Justiça pela morte de Isabela Nardoni, como parte da população tem se esmerado em fazer nos últimos dias, é muito pouco. É preciso lutar por Justiça como um todo. É preciso exigir Justiça para todos. A omissão e o comodismo são, no fundo, uma forma de cumplicidade. E se você espera o crime, a injustiça ou a impunidade baterem à sua porta, para só então reclamar, não se esqueça que aí pode ser tarde demais.

Célia Borges

21 de abril de 2008

ITATIAIA HISTÓRICA – A história do turismo em Itatiaia (segunda parte)


A região turística de Itatiaia é dividida em três centros principais, o Parque Nacional, Penedo e a região de Visconde de Mauá, esta última integrada por Maromba e Maringá. Mas possui outros pontos de concentração hoteleira e atrações turísticas, como a estrada do Parque, a área da Fazenda da Serra e o centro do município, além de hotéis dispersos por outros bairros. No total, o município dispõe de cerca de 140 meios de hospedagem, entre hotéis, pousadas, colônias de férias e áreas de camping, segundo dados da Secretaria Municipal de Turismo, conseguindo oferecer as mais variadas opções de lazer.

Parque Nacional – O Parque Nacional do Itatiaia, onde o visitante pode usufruir do contato direto com a natureza dentro de uma área de preservação ambiental, abriga alguns dos hotéis mais antigos do município. Nos anos 20 alí já funcionava uma hospedaria famosa, a Pensão Walter, ponto de irradiação de inúmeras histórias ligadas à colonização da região. No final da década já funcionava também o Hotel Donati, o mais antigo entre os ainda existentes. E no início dos anos 30 surge o Hotel Simon, inicialmente funcionando como pousada, com o nome de Sítio Mosela, e à partir de 1938, já bastante ampliado, com o nome pelo qual é conhecido até hoje.

Fundador do Hotel Simon, o alemão Josef Simon chegou ao Brasil em 1922, com apenas 19 anos, tendo sido em seguida contratado pelo Mosteiro de São Bento para executar a poda das fruteiras em sua fazenda na região do Penedo. No ano seguinte, aproveitando um período de férias, resolveu subir a montanha, e chegando à sede da Reserva Florestal – criada em 1917 – foi-lhe servido um cafezinho pela filha do administrador, Augusto Miranda Lyra. Tudo indica que foi um caso de amor à primeira vista, pois no mesmo ano, com os recursos que lhe restavam de uma herança recebida em seu país, ele comprou um dos lotes que o governo oferecia, nos limites da reserva, e que conseguiu quitar integralmente em 1924.

Em 1927, com a casa original do Sítio Mosela já construída, ele se casou com Lyra. Tiveram os filhos José Carlos, nascido em 1928; Roberto Nelson em 1929; Norma em 1939, Haroldo em 1931 e Augusto em 1943. Em 1930 o casal já recebia hóspedes em sua casa; em 1932 Simon construiu uma cabana com 4 apartamentos e mais uma pequena casa de quarto e sala, onde passaram a receber os hospedes, muitos recomendados pelo sogro Augusto Miranda, que naquele ano havia sido transferido para a administração do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Outras ampliações foram feitas nos anos seguintes, e em 1938 Simon assumiu a condição de hotel.

Muito empreendedor, Josef Simon promoveu melhorias, como a produção da própria energia elétrica, usinada à partir de 1951 com recursos locais, e que até hoje atende parte da demanda do hotel. Naquela época o Hotel Simon dispunha de 12 unidades de hospedagem, número que foi ampliado até 1976, quando chegou a 60 unidades. Além de trabalhar na propriedade, e de prestar serviços aos vizinhos nos cuidados com as plantações, Josef Simon dedicava boa parte de seu tempo a uma paixão, que o transformou num respeitado botânico amador, as orquídeas. O orquidário do Hotel Simon, hoje bastante limitado, já foi famoso por abrigar mais de 1.200 exemplares, uma das melhores coleções da região, atração para estudiosos e curiosos.

Outros hotéis surgiram posteriormente na área do Parque Nacional, como o Cabanas de Itatiaia, o Hotel do Ypê, Aldeia da Serra, Chalés Terra Nova, Pousada dos Tucanos, Hotel Vista Linda, Pousada Esmeralda, Hotel Alsene e Pousada dos Lobos, e outros além dos seus limites, como o Hotel Conora, e uma infinidade de pousadas. Assim como outros hotéis no centro do município e em outros bairros, alguns sobreviveram, outros fecharam e foram reabertos com novos nomes, motivo pelo qual é sempre importante consultar os guias turísticos atualizados, no caso de se precisar escolher um local para se hospedar.

Penedo – A tradição hoteleira do Penedo foi iniciada com os finlandeses, no início dos anos 30, quando os primeiros colonizadores, enfrentando dificuldades financeiras para quitar a compra das terras da Fazenda Penedo, e ao mesmo tempo manter os investimentos necessários para o desenvolvimento da colônia, resolveram aceitar hóspedes na casa grande da fazenda, empreendimento administrado pelo casal Aura e Erkki Lalla, que já tinham alguma experiência no setor desde a Finlândia. Os hospedes, satisfeitos com a comida e a limpeza, costumavam voltar periódicamente, e com o passar dos anos, outros finlandeses passaram a receber hóspedes, em cômodos extras construidos em suas casas. Até hoje alguns hotéis e pousadas de Penedo são de propriedade de descendentes de finlandeses, assim como restaurantes e lojas de artesanato.

A casa mais antiga construída pelos finlandeses no Penedo, e que pertenceu à família de Toivo Suni – pai da falecida historiadora Eva Hildén – embora não tenha sido usada como hospedaria pela família, é hoje sede de um dos mais pitorescos hotéis do lugar, o Vivenda Penedo. Os Suni receberam hospedes, como outros finlandeses, na segunda casa que construíram, já que a Vila de Verão, como era chamada por eles, teve que ser vendida. Depois de passar por vários proprietários, ela foi vendida para a família Xavier na década de 50, e á partir dos anos 60 passou a ser ocupada pelo casal Maria Cecília e Carlos Otávio Xavier.

Utilizada incialmente apenas como casa de campo, e depois como residência, o local foi acrescido de diversos terrenos à sua volta, o que aumentou consideravelmente a sua área, e passou a abrigar uma colônia de férias na década de 70, recebendo estudantes de colégios do Rio e de São Paulo. O sucesso da iniciativa, e a exigência dos pais dos estudantes, que também queriam se hospedar perto dos filhos, foi levando a sucessivas ampliações nas áreas externas, até que no início dos anos 80, para adaptar-se às exigências dos órgãos de turismo, foi transformada em hotel.

As paredes da casa original, assim como sua fachada, portas, janelas, teto e uma antiga escada feita artesanalmente, foram preservadas nas obras de ampliação feitas pelos novos proprietários, que conservaram também algumas ruínas na parte externa, como uma velha sauna. Preocupados em manter vivo o que consideram “o espírito finlandês” no Penedo, eles mantêm na propriedade 80% de mata, em grande parte reconstituída durante a ocupação, assim como procuraram manter muitas das arvores e traçados dos jardins originais existentes em torno da construção principal e dos chalés posteriormente construídos.

Alguns outros hotéis e pousadas do Penedo funcionam em construções antigas, entre os cerca de 60 que existem atualmente, desde o hotel quatro estrelas até as pousadas mais populares, e que, ao lado do grande número de restaurantes, ateliers de arte e lojas de artesanato, encantam o turista pela variedade de opções. Outras atrações são os tradicionais bailes de fim de semana no Clube Finlândia, e o parque temático e shopping Casa do Papai Noel, que reproduz uma vila finlandesa com suas construções típicas, evocando o Natal, mas com a vantagem de funcionar o ano todo.

Maromba e Maringá – A área turística de Itatiaia na região serrana de Visconde de Mauá é relativamente recente, já que os hotéis mais antigos, remanescentes da colonização européia, especialmente dos alemães, como os Büttner e os Bühler, situam-se na parte pertencente à Resende. Seu crescimento data da década de 60, quando aquela região se notabilizou como ponto de encontro do movimento “hippie”, e que deixou como herança uma estreita identidade com as culturas e terapias alternativas, ficando conhecida como um lugar ideal para quem procura paz e tranqüilidade.

Nem por isso, entretanto, ela é menos densamente povoada, contando com mais de cinqüenta hotéis e pousadas, sem contar os restaurantes, lojinhas de artesanato e outros negócios ligados à atividade turística. Ali também é possível encontrar opções de lazer para todos os gostos e orçamentos, pois vão desde os hotéis de luxo às áreas de camping, que existem em grande quantidade.

Situada nas cercanias do Parque Nacional do Itatiaia, ela se caracteriza por uma natureza exuberante, e pela existência de um grande número de cachoeiras, cascatas e pequenas quedas d’água, que contribuem para oferecer ao visitante uma seqüência aparentemente infinita de paisagens deslumbrantes. Além de Maromba e Maringá, essa área turística inclui também dois locais mais distantes e primitivos, o Vale do Pavão, onde existem seis pousadas, e Santa Clara, conhecida por ter uma das mais belas cachoeiras da região, onde existem outras quatro pousadas.

Célia Borges