3 de março de 2008

NARCISA AMÁLIA (1852-1924)

Narcisa Amália é uma poeta resendense por definição, até porque sua produção literária ficou bastante restrita ao período em que viveu aqui. Sua importância para a literatura brasileira, entretanto, vai muito além dessa definição, porque ela foi pioneira não apenas pelo fato de ter sido uma das primeiras jornalistas brasileiras, e a primeira a se profissionalizar como tal, mas também por ter sido uma das primeiras mulheres do Brasil a romper com o preconceito do que era considerado masculino e feminino, abordando temas e explorando assuntos que até então eram considerados exclusivamente de homens. Poeta brilhante, alvo dos comentários dos mais respeitados críticos da época, que entretanto, na maioria, estranhavam o fato dela não se limitar ao romantismo amoroso que se esperava de uma literatura feminina.
Antes dos dezoito anos já editava o jornal A Gazetilha e colaborava no Garatuja, publicando suas poesias também no Resendense, e divulgando suas idéias vanguardistas, contra a escravidão e a favor do regime republicano, enfatizando a condição submissa, imposta à mulher pela sociedade conservadora da época. Admiradora de Castro Alves e Victor Hugo, sua principal inspiração era a liberdade, e seu sonho era de que, num futuro não muito distante, pudesse ver os povos, homens e mulheres, livres da violência, da opressão e da injustiça.
Essa bela transgressora, admirada e invejada com igual fervor, não conhecia então, limites para perseguir seus sonhos. E assim, aos 21 anos, partiu para o Rio de Janeiro, sozinha, com o objetivo de conseguir os recursos para publicar seu primeiro livro. Essa atitude foi um escândalo para a época, gerando comentários maldosos. Mas sua resposta ultrapassou a malícia dos censores, pois em 1873, a Garnier, uma das editoras mais respeitadas da época, lançou Nebulosas. É desse livro o poema “À Resende”, que publicamos em seguida.
Nos anos seguintes, e enquanto continuou a escrever, Narcisa Amália sempre manteve a marca da rebeldia, desafiando limites e chegando ao limiar dos extremos. Em 1874, publica seu segundo livro, dessa vez de contos, Nelúmbia. Suas atitudes corajosas e talento literário indiscutíveis mereceram a consideração e o respeito dos seus contemporâneos.
.
À RESENDE
._______________________________________________
.
(respeitada a forma de escrever da época)

Enfim te vejo, estrella da alvorada,
Perdida nas cellagens do horizonte!
Enfim te vejo, vapososa fada,
Dolente preza de um sonhar insonte!
Enfim, do meu peregrinar cansada,
Pouzo em teu collo a suarenta fronte,
E, contemplando as pétreas cordilheiras,
Ouço o rugir de tuas cachoeiras!

Mal sabes que profundos dissabores
Passei longe de ti, éden de encantos!
Quanto acerbo soffrer, quantos agrôres
Humedeci co’as bagas de meus prantos!
Sem um raio se quer de teus fulgores
Sem ter a quem votar meus pobres cantos...
Ai! O Simun cruel de atroz saudade
Matou-me a rubra flor da mocidade!...

Vivi bem triste! O coração enfermo
Buscava embriagar-se de harmonias,
Porem via do céo no azul sem termo
Um presságio de novas agonias!...
O bolício do mundo era-me ermo
Onde as lavas do amor chegavam frias...
Só uma melancholica miragem
Doirava-me a solidão – a tua imagem!

Caminhei, caminhei sem ter descanço
Ao som das epopéias das florestas;
Caminhei, caminhei e no remanso
Da tarde, ouvi do mar as vozes mestas;
Nas ribas descansei de um lago manso
P’ra gozar do talento as nobres festas,
E adormeci na esmeraldina alfombra
Da palmeira real a grata sombra!

Caminhei inda mais: com nobre empenho
Penetrei no sagrado sanctuario
Onde o gênio – em delírio – arrasta o lenho
Do trabalho, em demanda de um Calvário!
Vi surgir sobre a tella, à luz do engenho,
E povoar o templo solitário,
Da carioca a lânguida figura,
De Nhagassú o feito de bravura!...
Inclinada nas longas penedias
Acompanhei o vôo das gaivotas;
Meu nome arremessei às ventanias
Sem que sentisse sensações ignotas!
Da musa do piano as melodias
De uma flauta canóra as doces notas,
O gello que sorvi n’um mago enleio,
Tudo gellado achou meu débil seio!...

Mas apoz negridão de noite lenta,
Na curva do horizonte o sol resplande:
Apoz o horror da tétrica tormenta,
Gazil santelmo ló no céo se acende:
Apoz o latejar da dor cruenta
Vejo-te enfim, ó plácida Resende,
Debruçada no cimo da colinna,
Sorrindo meiga à exhausta peregrina!

Abre-me os braços, filha do occidente,
Quero beber teus máditos luares!
Quero escutar o solluçar plangente
Do vento pelas franças dos palmares!
Não vês no no meu lábio há sede ardente?
Que calcinou-me a tez o sol dos mares!...
Ah! Mostra-me ao passo meu tardio, incerto,
A sombra d’arequeira do deserto!

Que saudades que eu tinha das campinas,
D’estes prados e veigas odorantes!
De teu tyrso de cândidas neblinas
Recamado de auroras cambiantes!
D’estas brandas aragens matutinas
Que doudejam com as ondas murmurantes,
De tudo, tudo quanto em ti resumes,
Formosa noiva dos estivos lumes!...

Na corolla da flor da minha vida
Se aninha agora inspiração mais pura;
Do meu rio natal a voz sentida
Desperta em mim um mundo de ternura!
Em minha triste fronte empallidecida
Mais uma estrophe límpida fulgura,
E no berço de tuas matas densas
Libo sedenta o orvalho de mil crenças!...

Ó filha de Tupan, que um véo de brumas
Estendes sobre o mísero precito;
Ó ave linda, as mimosas plumas
Aqueces nos ardores do infinito;
Garça gentil, que surges das espumas
Como da mente do poeta o mytho,
Enquanto a lua ondula pelo espaço
Abre a meu somno eterno o teu regaço!

29 de fevereiro de 2008

ALDEIA GLOBAL XVII - Herbert de Souza (Betinho) e o preconceito contra a maturidade

A profissão de jornalista traz privilégios, alguns dos quais aprecio muito, como o de criar oportunidades para que se possa conhecer pessoas a quem admiramos. Quase sempre meus trabalhos permitiram que eu criasse as minhas próprias pautas, e assim consegui privar, mesmo que pelo curto tempo de uma entrevista, com alguns ídolos (enorme concessão, porque não sou pessoa de cultivar idolatrias). É o caso de Herbert de Souza, o Betinho, sociólogo e cidadão que, por tudo o que fez pelo Brasil, merece um reconhecimento muito maior do que atualmente recebe.

Estou certa de que o amigo leitor sabe sobre quem escrevo, mas para quem desconhece, lá vai uma síntese: superando a condição de aidético, tendo contraído a doença em conseqüência da hemofilia, criou e dirigiu o IBASE – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, através do qual lançou o primeiro grande movimento social em favor dos menos favorecidos, que foi a Campanha da Cidadania. Campanha essa que mobilizou a sociedade brasileira num movimento solidário de doações que atravessou todo o país, e que teve desdobramentos tais como o Natal sem Fome.

Conheci Betinho no primeiro sábado de novembro de 95, em sua casa em Itatiaia, justamente no dia em que completava 60 anos. Ele era um sobrevivente à freqüentes crises e internações, mas persistia no trabalho, até além do que a saúde permitia: extremamente franzino, pesava então 47 quilos para os seus 1,70 de altura. Mas perto dele não nos ocorria falar de doenças... ele emanava pura energia, e tinha assuntos muito mais importantes (segundo ele mesmo) para tratar e sobre os quais falar.

Posso transcrever com fidelidade suas palavras, porque a entrevista foi publicada na edição 5 da Revista Regional, daquele mesmo mês. Sobre ele mesmo, comentou que “se houvesse um Guiness, o livro dos recordes, sobre hemofílicos, já estaria nele. São poucos os aidéticos que chegam aos 60 anos”. E sobre seus sonhos: “Gostaria de ver a passagem do século, de chegar ao ano 2000. Basta eu viver mis cinco anos, até os 65”. (sonho esse que, infelizmente, não concretizou).

Ele só olhava para a frente, só pensava no futuro: “Este ano nosso trabalho (na Campanha da Cidadania) se concentrou prioritariamente nos jovens, pela urgência de se encontrar soluções nessa área, mas precisamos pensar que o Brasil é um país que está envelhecendo, e o idoso também está exigindo uma atenção especial”. Mas ele se preocupava muito também com a faixa intermediária, da sua própria faixa etária: “Entre os 50 e os 60, 65 anos, o cidadão está em plena capacidade profissional. Não é justo que seja colocado de lado. E um momento de reconhecer seu próprio valor e lugar pelo seu espaço”, disse ele, destacando o indiscutível preconceito que ronda a maturidade.

Para efeitos legais, o cidadão só é idoso à partir dos 65 anos. Mas vá alguém concorrer a qualquer tipo de emprego, depois dos 48, por exemplo... e assim descobrir que toda a sua experiência, toda a sua capacitação profissional, toda a sua perfeita saúde física e mental podem não servir de muita coisa. Mesmo considerando o aumento da expectativa de vida, no Brasil e no mundo, e a melhora na qualidade de sobrevida, o cidadão maduro acaba classificado, arbitrariamente, como um idoso.

Não pretendo escrever um tratado sobre assunto (não só porque não o domino tanto, quanto porque não cabe nesse espaço), mas ele me mobiliza porque estou em minha plena maturidade, assim como a maioria dos meus amigos. Somos incentivados a voltar a estudar, a reciclar nossos conhecimentos, a adotar novas profissões, mas para onde quer que nos viremos na hora de encontrar trabalho, estaremos na maioria dos casos, em situação de inferioridade.

É difícil enfrentar o mercado de trabalho competindo com os mais jovens... e afinal, eles precisam muito de seus empregos. E não existem fórmulas mágicas para encarar essa situação. Vivemos numa época do “cada um por si”, e já não existe nem ao menos o consolo do “Deus por todos”. Pouco nos resta senão transformar, como o Betinho, nossa força em energia, e apelar para a criatividade.

Célia Borges

25 de fevereiro de 2008

O MISTÉRIO E A LENDA DO TIMBURIBÁ

O Timburibá é uma importante referência para quem lê e estuda a história de Resende, porque essa árvore é considerada o símbolo da cidade. Entretanto, dela só temos notícia através da Lenda do Timburibá, página marcante do folclore regional. Do ponto de vista botânico e paisagístico, o Timburibá converteu-se num grande mistério. Depois de quase dois anos de persistente pesquisa, tudo o que me resta é uma pergunta: será que alguém, além da lenda, pode me dar notícias de onde encontro um Timburibá?

O Timburibá ou Timburi: Enterolobium Contortisiliquum

A lenda é de amplo conhecimento. A minha curiosidade sobre o assunto foi despertada por Kátia Quirino, que numa conversa sobre botânica e paisagismo, pediu minha ajuda a respeito. Saí em campo, porque gosto desse tipo de desafio... mas estaria perdida até hoje se não fosse uma dica de outra amiga, e colega do curso de paisagismo, Patrícia Paraguassu, que localizou uma pista através da Fundação Plantarum, que reúne interessantes estudos e publicações sobre o assunto.
Seguindo essa pista, o Timburibá é a mesma árvore classificada sob o ponto de vista botânico como Tiburi. A descrição da planta, que acabei encontrando num volume da enciclopédia 2200 Plantas e Flores (volume 1, pág. 34) sob o nome científico de Enterolobium contortisiliquum, corresponde às características folclóricas, como uma árvore de copa ampla e frondosa, que proporciona ótima sombra e, segundo eles, costuma ser cultivada em parques, atingindo até 35 metros de altura.
.
_____________________
.
Será que alguém, além da lenda, pode me dar
notícia de onde encontro um Timburibá?
_____________________
.
Do ponto de vista histórico, fui consultar primeiro a professora Alda Bernardes de Faria e Silva, presidente da Academia Itatiaiense de História, e que é a minha fonte prioritária quando se trata de história da região. Segundo ela, haveria ainda um exemplar no Alto dos Passos, nas proximidades do cemitério. Mas meus conhecimentos de botânica são insuficientes para reconhecer à olho nu, uma espécie aparentemente tão rara. Bem que eu pedi ajuda aos meus guias históricos da cidade, como o mestre Claudionor Rosa, para empreender uma espécie de caça ao Timburibá tido como remanescente, mas sem sucesso...
Em seqüência dessa pesquisa, acabei localizando um texto do Cel. Cláudio Moreira Bento, outro incansável pesquisador da nossa história, segundo quem Timburibá era o nome que os índios Puris davam à região onde se encontra Resende, por avistarem à longa distância a árvore desse nome, situada (novamente) no Alto dos Passos. Mas segundo ele, “a árvore serviu por longos anos como atração turística local, e reuniu em torno dela resendenses em festas familiares domingueiras, até tombar com o peso dos anos, para grande tristeza das primeiras gerações de resendenses”.
Lido assim, parece que o Timburibá se extinguiu? E é mesmo uma figura rara nos estudos botânicos, o que parece confirmar essa tese. Mas é difícil crer que não existissem outros timburibás na região... ou que a árvore não tenha existido em outros lugares. Em São Paulo, capital, existe uma rua Timburibá. No Paraná existe um município chamado Timburi. Encontrei referências botânicas contraditórias, pois parecem se referir à outra planta.
O caso é que eu não sou de desistir fácil, e esse trabalho de detetive botânica é, sem dúvida, desafiante. Será que não existe mais nem um Timburibá que se possa localizar? Vou continuar procurando. Conto com a ajuda dos amigos, leitores e demais apaixonados pela natureza como eu... porque não acho justo se perder um símbolo histórico como esse, apenas por falta de interesse.
.
Quem tiver notícias de um Timburibá, mande pra mim, por favor (clique em "comentários" aí em baixo)... Quem não conhece a lenda e ficar curioso, é fácil encontrá-la pela internet, assim como em diversos livros históricos da região. Em último caso, mande recado com endereço, que terei o maior prazer em enviar.
.
Saudações histórico-botânicas

Célia Borges

23 de fevereiro de 2008

XVI - O governo virou um Robin Hood às avessas...

A notícia de que o Brasil já dispõe de reservas suficientes para o pagamento de toda a dívida externa não chegou a ser surpresa para quem acompanha o noticiário e vê a atuação do Banco Central no mercado de câmbio, intervindo frequentemente nos últimos anos, através de uma exagerada compra de dólares. O fato chega alardeado como se fosse uma grande façanha do nosso governo. Não sei se os amigos leitores tem alguma dúvida, mas eu, por exemplo, estou certa de que sei quem está pagando essa conta: nós mesmos.

A festa em torno desse fato só vem confirmar que vivemos no “paraíso do marketing”. Estamos sendo sistematicamente torpedeados por notícias positivas e otimistas tais como de que foi descoberto poço gigante de petróleo em Santos, de que o governo tem maioria da aceitação pública, que aumentou o emprego com carteira assinada, que o desemprego diminuiu, de que onze milhões de brasileiros saíram da linha de pobreza...a produção de bens aumentou, assim como o consumo.

Enfim, do ponto de vista do governo, vivemos no melhor dos mundos. Diante de tudo isso, às vezes fico me perguntando se estou vivendo na dimensão errada. Ou então, de que, por algum motivo, só eu vivo à margem desse país maravilhoso. Perdi o bonde da história. Entrei na nave espacial errada...sei lá! Todo esse otimismo está tão na contramão do que vejo e do que vivo, que fico perguntando se não é melhor eu arrumar a minha malinha (porque odeio mochilas) e me mudar pra Quatis (pra quem não conhece a região, é onde funciona o Pinel daqui).

Onze milhões de pessoas acima da linha de pobreza seria um feito considerável, se realmente pudéssemos comprovar isso. Mas cada vez que eu tenho que ir à capital – cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro – fico arranjando desculpas para adiar, porque não agüento ver tanta miséria, tanto perigo, tanta violência. São ambulantes em abundancia por todos os lados, inclusive dentro dos ônibus; camelôs tomando as ruas principais – e atualmente até as secundárias. São os malabaristas (isso com sorte, porque também podem ser os assaltantes) nos sinais de trânsito. São os mendigos, pedintes e menores abandonados pelas calçadas. Balas perdidas, sustos e corre-corre. Não dá nem pra pensar em ir matar saudades das praias, das quais eu gostava tanto...tenho medo!!!

Ir à uma favela visitar um amigo (eu sou o tipo de pessoa que pode ter amigos em qualquer lugar, inclusive numa favela) nem pensar...pode ser suicídio. No máximo me arrisco a ir visitar familiares na zona sul, e ainda sim não me sinto livre de riscos. Minha sobrinha foi assaltada ao meio dia, em plena Rua Jardim Botânico. Os familiares da zona norte, agora, só sabem de mim por telefone. Não pensem que sou uma pessoa covarde, eu me considero até bastante corajosa. Só que sobreviver à uma ida ao Rio, hoje em dia, não é questão de coragem, mas de sorte.

Bolsa-família e outros programas podem até estar funcionando em alguns lugares do país, como o nordeste, com seu povo tão necessitado. Mas é surpreendente que não tenha chegado nenhum recurso ao Rio de Janeiro, capital turística e cultural do país, cartão de visitas do Brasil. E eu, humildemente, só posso avaliar o que sinto e o que vejo. Inclusive aqui na minha cidade, de médio porte. Não vemos muitos pedintes na rua (há os de sempre) mas basta ir aos bairros mais afastados e às diversas áreas de invasão – e aliás, existem muitas – para se ver o que é a miséria ao lado da nossa porta.

Ter recursos para pagar toda a dívida externa pode ser um grande feito para fins de manchetes de jornal, mas é um dado assustador na medida em que nos dá a dimensão de quanto estamos sendo espoliados. Desde meus tempos de faculdade, lá pelo início dos anos 70, eu estudo, pesquiso, analiso, e tento entender e interpretar o meu país. Sou contemporânea das primeiras imagens do planeta via satélite, e naquela época aprendi que sob o solo do nordeste está situado o maior lençol d’água do mundo.

Se a Petrobrás faz prospecção de petróleo em águas tão profundas, nunca entendi porque toda essa tecnologia não foi usada ainda em busca de água para quem precisa. Porque se privilegiam projetos megalomaníacos, como a transposição das águas do Rio São Francisco, ou então essa última, do Mangabeira Unger, querendo levar água da região norte para o nordeste... Sempre tive noção e consciência de que somos um país rico, sempre tive certeza de que, com seriedade e boa administração, poderíamos chegar à ser uma grande potencia, e minha ambição não é do ponto de vista econômico, mas em termos de educação, saúde e aceitável qualidade de vida até para o mais pobre dos seus cidadãos. Uma Suíça tropical, digamos assim...

O sucesso anunciado agora, com tanto estardalhaço, desvenda o preço que estamos pagando, no mínimo, por um desvio de prioridades. Enquanto temos recursos para arcar com a dívida externa, a nossa dívida interna chega a 65% do PIB. O trabalhador, que dá nome ao partido que sustenta esse governo, é quem está pagando a dívida externa. Estamos arcando com o ônus de uma carga tributária monumental, de taxas de juros praticados pelos bancos que fariam vergonha ao pior dos agiotas, de péssimos serviços públicos, educação e saúde em plena decadência. Segurança zero em todos os sentidos. Eu gostaria que alguém me desse apenas um único motivo que fosse para comemorar esse “sucesso econômico”.

Bolsa-família e outros projetos populistas – e é bom atentar também para as medidas que dividem a população por raça, orientação sexual e etc..., para facilitar a manipulação – não vão resolver nossos verdadeiros problemas econômicos e sociais. O pouco caso com que vem sendo tratado o pagamento da dívida interna mostra que o governo está tirando do trabalhador para satisfazer ao famigerado “mercado”. Tirando do pobre para atender às exigências do rico. Um custo que não incorre apenas em moeda corrente, mas em vidas perdidas, em sonhos desfeitos, nas esperanças e nas oportunidades de toda uma população.

No melhor dos mundos em que vivemos, acaba de faltar luz na minha casa. Começou a chover, e como sempre...adeus energia!!! Chove lá fora, e aqui dentro está tudo escuro... acho que vou tomar um banho de chuva para esfriar a cabeça...

Célia Borges

22 de fevereiro de 2008

XV - Estudar pra quê? Trabalhar pra quê?

Quem tem filhos em idade escolar, atualmente, além das preocupações com a violência que atinge a juventude e a adolescência, deve ter lá suas dificuldades para convence-los de que ainda vale à pena estudar, e pensar em ter uma profissão no futuro. Já foi comum, quando nós, os pais e avós de agora eramos crianças, que tivéssemos na ponta da língua uma resposta para a tradicional pergunta: “o que você quer ser quando crescer?” Queríamos ser professores, médicos, engenheiros, sonhávamos com um futuro que nos daria emprego garantido, prestígio e segurança.

As gerações dos que nasceram à partir da década de 70, já encontraram o mundo muito diferente, e com suas motivações peculiares. O sucesso deixou de significar o magistério, a medicina ou outra formação de nível superior, na medida em que os ídolos de maior prestigio passaram a ser os jogadores de futebol, automobilistas, atores e atrizes, as modelos. E afinal, é um traço inerente à natureza humana o querermos refletir aquilo que admiramos. Ou que somos levados à admirar, por força da comunicação.

Mesmo assim, ainda sobreviveu por muito tempo a motivação para o estudo, e pudemos ver, acompanhando o crescimento da população, o aumento do número de escolas e universidades, a diversificação de cursos e áreas de interesse, especialmente em conseqüência do desenvolvimento tecnológico. E a escolha de uma profissão pode até ter ganho em qualidade, na medida em que o estudante passou a ser livre das pressões familiares, tendo mais espaço para realizar as suas vocações.

Os exemplos de sucesso, entretanto, continuam a ser um elemento de forte influência do ponto de vista da motivação dos jovens com relação ao futuro, e isso se acentua entre a população mais pobre, e com pouco acesso à informações sobre outras possibilidades que não as mais óbvias. Por isso é que, entre esses jovens, é maior o número daqueles que querem ser jogadores de futebol, na perspectiva de um sucesso rápido e fácil, e que não exige estudo. É maior o número daquelas que querem ser modelos, atrizes, dançarinas, pelo mesmo motivo. Ou queriam...porque a maior atração para aqueles que não querem estudar, atualmente, mas sonham em “se dar bem” sem grande esforço, é entrar para a política.

Já vai longe o tempo em que a maioria das nossas autoridades do legislativo e do executivo tinham boa educação e alguma escolaridade, inclusive como pré-condição para o pleno exercício de seus mandatos. Hoje, o que se vê, especialmente entre os vereadores, primeiro passo na carreira política, é um predomínio de analfabetos, semi-analfabetos, analfabetos funcionais, ou então gente que parece que simplesmente fugiu da escola no meio do caminho. Eles são os preferidos do eleitor, que parece também querer se ver refletido no poder.

A eleição de um semi-analfabeto para a presidência da República, está longe de ser o auge dessa tendência, mas é um decisivo elemento motivador para justificar uma classe política com cada vez menos escolaridade – já que educação, quer dizer, a boa educação, parece ser um valor em extinção em todas as classes e camadas da população.

A política, hoje não é produto de idealismos, mas de ambições pessoais, uma garantia de sucesso, prestígio e prosperidade, sem ser preciso dispender grandes esforços. O cidadão com mais escolaridade e educação, com fama de honesto, com propostas sérias, dificilmente consegue bons resultados nas eleições municipais. E quando se elege, e não se rende aos hábitos da maioria, provavelmente não será reeleito. O que o político típico de hoje quer é prestígio, pouco trabalho e muito dinheiro (mesmo quando o salário é pequeno, há sempre muito o que se explorar no cargo).

Assim como os estudos, o trabalho também não vem sendo muito privilegiado nos nossos dias. As faixas de população que mais trabalham, mais produzem, mais pagam impostos, são exatamente aquelas que vêm sendo cada vez mais penalizadas pela política, seja econômica, seja social. Paga-se cada vez mais por tudo, e ainda se leva a fama de ter as culpas por todos os problemas do país.

Razão tem aqueles que não trabalham...não só porque não conseguem emprego, mas porque podem viver de “bolsa-família”, “bolsa-escola”, bolsa isso, bolsa aquilo. Na nossa distribuição de riquezas, o trabalhador vem pagando pra sustentar quem não faz nada (não por culpa sua, mas por culpa de uma política que privilegia a ociosidade, não investe em frentes de trabalho e na criação de empregos, o que aliás, era a grande proposta desse governo).

Nem mesmo a aposentadoria, que era o prêmio para quem trabalhou toda uma vida, é hoje garantia de nada. Com a desculpa de evitar colapso na Previdência, deu-se o calote no aposentado, que hoje, para manter uma condição de sobrevivência razoável, está tendo que voltar a trabalhar. E os rombos, os desvios, a má administração continuam iguais, não tendo melhorado em nada essa Conta Previdência. Enquanto isso os vereadores podem se aposentar depois de dois mandatos (oito anos), o cidadão comum tem que chegar à idade avançada, ainda que tenha começado a trabalhar na adolescência. Sem falar em certas autoridades, que acumulam diversas aposentadorias.

Se tivesse filhos nessa faixa de idade, é claro que eu ainda iria insistir para que estudassem o máximo, para que se educassem. Mas provavelmente se algum deles preferisse a ociosidade, a informalidade ou a política, eu não teria muito o que argumentar. Porque estudar ou trabalhar nos dão cada vez menores garantias para o futuro.

Célia Borges