9 de abril de 2010

IMAGENS DE ITATIAIA: Operação tapa-buracos não contempla ruas centrais de Penedo





A Prefeitura Municipal de Itatiaia anunciou esta da semana, o início de uma “operação tapa-buracos” no município, que começou no bairro Jardim Itatiaia, e vai recuperar algumas vias públicas também no Centro, Campo Alegre, a Estrada de Funil, as ruas Country Clube e Clube do Cavalo na Vila Pinheiro, e a estrada da Fazenda da Serra. Para Penedo estão previstas obras apenas na Africa 1 e a construção de uma ciclovia na Rodovia Rubens Tramujas Mader. Está prevista também a drenagem e pavimentação da Estrada Velha da Usina. As ruas centrais de Penedo, cujos buracos vêm afetando negativamente o turismo, continuarão esburacadas, sem previsão para as tão necessárias obras.
Segundo nota divulgada pela Assessoria de Imprensa, essa operação é a primeira de seis projetos a serem desenvolvidos com recursos do PADEM – Programa de Apoio ao Desenvolvimento dos Municípios – e custará R$ 4 milhões, a serem repassados em dez parcelas. A empresa responsável pelas obras terá dez meses para concluí-las. A nota esclarece que o convênio só foi concluído por o município não estar mais inadimplente com o Estado e a União, após ter pago e parcelado dividas, que teriam sido herdadas dos governos anteriores.
Apesar do esforço ser bem vindo, já que as ruas, avenidas e estradas de Itatiaia encontram-se em estado deplorável, o próprio nome da operação já assusta, porque estamos cansados de ver buracos tapados de qualquer maneira, e que se tornam piores na próxima chuva. Tapar buracos não é, realmente, a necessidade, mas sim uma recuperação asfáltica eficiente e duradoura.
Também não dá para entender o critério de prioridades. É claro que todos os bairros estão necessitados de obras, mas parece que só a prefeitura não vê que os buracos se multiplicam nas ruas centrais de Penedo, e que isso afasta os turistas, trazendo prejuízos aos próprios, devido às avarias em seus veículos, mas principalmente aos comerciantes e moradores, que além dos carros quebrados e dos riscos diários de quem trafega evitando buracos, também sofrem com a redução da sua principal atividade econômica.
A situação das ruas de Penedo já virou motivo de piada, devido à uma enorme poça que permaneceu durante quase dois meses em frente á residência do falecido Rubens Mader, e que ganhou o nome de Lago Malu Mader, com direito à um boneco pescando em suas águas. O local foi finalmente drenado, mas em seu lugar ficaram enormes crateras, que agora pelo menos os motoristas podem ver, o que não acontecia quando o local estava alagado.
As operações tapa-buraco municipais, que Penedo recebeu desde o início do atual governo, consistiram em jogar escória, o que além de não resolver o problema, ainda aumenta o risco de derrapagem, principalmente naqueles situados perto de curvas. E com novas chuvas, esses buracos reaparecem ainda maiores. É lamentável constatar que a prefeitura não tem recursos próprios para as obras do município, dependendo de recursos de convênios. Nessas condições, e nesse ritmo, Itatiaia vai precisar de mais dois governos para recuperar suas vias públicas.
Só nos resta esperar que não sejam necessários também convênios, para a pintura dos quebra-molas de Penedo, outra necessidade premente. E para a regularização do recolhimento do lixo verde, que continua condenando um importante centro turístico como Penedo, a uma aparência de desleixo e abandono. Imagem que se repete na maioria dos bairros e demais regiões turísticas do município.
Célia Borges

1 de abril de 2010

VIAGEM PITORESCA PELO RIO PARAÍBA DO SUL: livro será lançado no dia 9 de abril



O Instituto de Estudos Valeparaibanos, a Academia de Letras de Lorena, o Museu Frei Galvão e a Casa da Cultura de Lorena estão convidando os apaixonados pela história da região, para o lançamento do livro “Viagem Pitoresca pelo Rio Paraíba do Sul”, que será no próximo dia 9 de abril, às 20 horas, na Casa da Cultura de Lorena, em noite cultural Tributo ao Rio Paraíba do Sul.
A obra tem as seguintes participações: Otoniel Fernandes Neto (projeto e pinturas), João Teodoro (fotografias), Francisco Sodero Toledo (introdução e textos), Teresa e Tom Maia (prefácio e desenhos), Nelson Pesciotta (apresentação) e Rita Maria de Abreu Maia (seleção de poemas).
Os interessados poderão obter maiores informações na Casa da Cultura de Lorena, rua Viscondessa de Castro Lima, 10, Centro, Lorena – tel: (012) 3153-1518. O livro estará à disposição para venda no portal www.valedoparaiba.com.
Célia Borges

PAISAGISMO E JARDINAGEM – Ervas e plantas de horta, úteis e belas, ganham espaço na decoração



A tendência é internacional: há alguns anos, revistas de decoração, paisagismo e jardinagem vêm mostrando que, cada vez mais, o cultivo de ervas medicinais e temperos vêm ganhando espaço nos ambientes decorativos, como jardins, varandas, terraços e locais internos. Além da óbvia utilidade, elas contribuem com seus perfumes, folhagens, e até algumas belíssimas flores, para valorizar os recantos de uma casa ou apartamento.
Há espécies para todos os gostos, adaptáveis às mais variadas possibilidades. Para quem dispõe de amplos espaços para grandes jardins, uma das famílias mais indicadas é a da Sálvia, que oferece considerável variedade de herbáceas e arbustos de flores coloridas, desde azuis, lilases, rosas e vermelhos. No Brasil, as mais comuns, porque nativas, são a Sálvia Azul (Salvia Guaranitica) de porte de 1m20cm e folhas pilosas e aromáticas, e a Salvia Splendens, com flores de vermelho intenso, e porte até 80cm. Ambas apreciam sol pleno, mas preferem os climas mais frios, do sudeste e do sul do país.
Outras da família, lindas e decorativas são a Salvia Coccinea – vermelha, 60 cm – , a Salvia Involucrata – cor de rosa e até 1,50m – e a Salvia leucantha – flores lisases com branco, 90 cm - originárias do México e da América Central, sendo que a primeira também é comum nos Estados Unidos, de onde também vem a Salvia Farinacea – com flores de azul arroxeado, e também até 90 cm de altura.
Outros tipos coloridos e decorativos para jardins são os gengibres: entre eles destacam-se o gengibre-concha, Alpinia zerumbet, com seus belos cachos pendentes e cheio de flores que, quando fechadas são cor de rosa com as pontas vermelhas, e quando abertas, têm o interior amarelo e vermelho, num desenho que lembra uma orquídea; e o gengibre-vermelho, Alpinia purpurata, de folhagem densa e pendões eretos de flores vermelhas.
Outras duas espécies são conhecidas como gengibre-vermelho: a Hedychium coccineum, com menos folhas, mas com pendão de densa floração, em tons de salmão; e o Nicolaia elatior, ou gengibre-tocha, mais conhecido como Bastão do Imperador, com folhagem cumprida, acompanhado o pendão de uma única flor de vermelho intenso. Existe ainda o gengibre-de-kahili, Hedychium gardnerianum, semelhante ao primeiro, mas com flores amarelas.
Além dessas, mais exóticas, as demais ervas e plantas de hortas também podem ser bem utilizadas em espaços decorativos. Os tomateiros, e principalmente o tomate-cereja, prestam-se a graciosos arranjos, como trepadeiras que são. Também coloridas, em variados tons de vermelhos, amarelos e verdes, são as pimenteiras, que existem de diversos portes de formatos de frutos; assim como os pimentões...
Algumas ervas, como as várias hortelãs, servem como bordaduras ou preenchendo espaços entre outras espécies. Nos espaços pequenos, plantadas em vasos ou jardineiras, as ervas oferecem infinitas possibilidades, inclusive em interiores, desde que recebam bastante claridade, e pelo menos duas horas de sol por dia. Nesse caso podemos citar a salsinha e a cebolinha, o coentro, manjerona, manjericão, orégano, sálvia e tomilho.
Em canteiros pequenos, que comportem plantas de até um metro de altura, também são indicadas as culturas de estragão, endro, carqueja, capim limão, alfavaca, arnica, alfazema e alecrim, sendo que essas três últimas produzem flores, além de contribuírem para intensos perfumes no ambiente.
O assunto é amplo, impossível de ser esgotado numa só matéria. Por isso, me comprometo a voltar a ele em breve, com sugestões de soluções para o cultivo dessas e outras espécies.
Célia Borges

31 de março de 2010

SARAU SOBRE CLARICE LISPECTOR FOI UM SUCESSO: conheça um pouco sobre a vida dessa genial escritora



O Sarau de Poesia sobre Clarice Lispector, que encerrou a programação dedicada ao Dia Internacional da Mulher, no projeto Câmara Cultural, foi um verdadeiro sucesso. O plenário da Câmara Municipal de Resende esteve lotado nesta quarta-feira, dia 31 de março, reunindo um grande número de estudantes e professores, interessados em literatura.
Os textos da escritora – contos e poemas – foram apresentados pelas atrizes, jornalistas, escritoras e animadores culturais Dayse Marques, Fátima Porto, Jenifer Faulstich, Paula Mirela, e Kátia Quirino, esta através de um vídeo. Estiveram presentes o diretor do projeto Câmara Cultural José Leon, o “mestre” Claudionor Rosa, os artistas Wendell Amorim e Laurens, Daniel, da Oka Timburibá, e admiradores de Clarice Lispector.
Segue abaixo a palestra, na forma de um resumo biográfico, que tive a oportunidade de apresentar no evento, para quem quiser conhecer melhor a vida dessa brilhante escritora:
Escrever, e falar sobre Clarice Lispector, é um desafio. Além de ser autora de uma obra que passa por todos os gêneros literários - poesia, contos, crônicas e romances, e também artigos e reportagens jornalísticas – a sua própria vida é rica em situações inesperadas, resultando numa história cheia de aventuras e mistérios, desde seu nascimento, até as circunstâncias de sua vida, e da sua morte.
A paixão, e uma grande sensibilidade poética, caracterizam a maioria dos seus textos,que são densos, intensos, hipnóticos. São traços que se revelaram desde as primeiras publicações dessa escritora precoce, que publicou seu primeiro conto, Triunfo, aos 20 anos, mesma idade em que começou sua carreira jornalística como repórter e redatora da Agência Nacional. E que recebeu seu registro de jornalista profissional aos 22, quando era redatora do jornal A Noite.
Essa extraordinária escritora brasileira, nasceu entretanto na Ucrânia, antiga União Soviética, na cidade de Tchetchelnik, no dia 10 de dezembro de 1920. Foi a terceira filha do casal Pinkouss e Mania Lispector, batizada Haia Lispector, nascida justamente num momento em que a família se encontrava em processo de emigração rumo à América. Em 1922, depois de passarem pela Romênia e pela Alemanha, em março daquele ano desembarcam em Maceió, recebidos pela irmã de Mania, Zaina Rabin e seu marido José. É nessa época que mudam de nome, passando Pinkouss a se chamar Pedro, Mania a ser Marieta, a irmã Leia a Elisa, e Haia em Clarice. Só Tânia, a filha do meio, manteve o mesmo nome.
As viagens, e as constantes necessidades de adaptações, que começam ainda na primeira infância, vão marcar a história de Clarice por quase toda a sua vida. Em 1925 a família mudou-se para Recife, mas os projetos de prosperar naquela cidade esbarraram na doença da mãe, Marieta, que ficou paralítica e veio a falecer em 1930, enquanto Elisa, a irmã mais velha, cuidava de todos e da casa. Nos cinco anos seguintes, ela se dedica a estudar e a ler muito, principalmente livros emprestados.
A situação financeira da família começou a melhorar em 1933, e em 1935 eles se mudam para o Rio de Janeiro, residindo primeiro perto do Campo de São Cristovão, e em seguida na Tijuca. Clarice continua seus estudos, e em 1938, para concluir o curso complementar no Colégio Andrews, dá aulas particulares de português e matemática. No ano seguinte ingressa na Faculdade Nacional de Direito, enquanto faz traduções científicas para um laboratório, e trabalha como secretária num escritório de advocacia.
Em 1940 Clarice estréia na literatura, publicando o conto Triunfo no semanário Pan, e Eu e Jimmy, na revista Vamos Ler. Em agosto desse ano ela perde o pai, Pedro, vai morar com irmã Tânia, já casada, no bairro do Catete, e começa a trabalhar na imprensa. Leitora incansável, devora os principais autores, principalmente os poetas, da literatura brasileira. Nos anos seguintes escreve em vários jornais, tanto reportagens como textos literários. Em 42 faz cursos livres de antropologia e psicologia na Casa do Estudante do Brasil, e escreve seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem.
Em 1943 ela conclui o curso de direito e casa-se com seu colega de faculdade, Maury Gurgel Valente, que por concurso, ingressa na carreira diplomática. Desde então, e por muitos anos, sua vida passaria a ser uma coleção de mudanças e aventuras, alternando fases de grande realização e produtividade, com momentos dolorosos e situações dramáticas. Em 44 muda-se para Belém acompanhando o marido, mas em seis meses está de volta do Rio de Janeiro, para em seguida seguir para Nápoles, na Itália, em plena Segunda Guerra Mundial, acompanhando o marido em missão diplomática.
Enquanto no Brasil seu primeiro romance recebe críticas elogiosas, e o prêmio Graça Aranha, sendo considerado o melhor romance do ano, ela conclui o segundo, O Ilustre. Em 1945, vamos encontrar Clarice dando assistência a brasileiros feridos na guerra, trabalhando em um hospital norte-americano. O pintor italiano Giorgio De Chirico pinta-lhe um retrato. Faz amizade com poetas e artistas europeus. E o segundo romance, O lustre é publicado no Brasil pela Livraria Agir Editora.
Em 1946 ela vem ao país como correio diplomático do Ministério das Relações Exteriores, voltando em seguida à Europa, para morar em Berna, Suiça, acompanhando o marido, designado segundo-secretário daquela Embaixada. Nos anos seguintes ela iria residir ainda na Inglaterra e nos Estados Unidos, com idas e vindas regulares ao Brasil, ao mesmo tempo em que produzia alguns livros memoráveis, como A Maçã no Escuro e Laços de Família. Escrevia também para jornais e revistas, enquanto mantinha correspondência e relacionamentos com jornalistas e escritores, como Érico Veríssimo e sua mulher Mafalda, que viriam a ser padrinhos dos seus filhos, Pedro e Paulo.
A “fase diplomática” termina em 1959, quando depois de muitos conflitos, ela separa-se do marido e volta ao Brasil, indo residir no Leme. Escrevendo sempre e muito, recebe prêmios e produz outros livros, como o de contos A Legião Estrangeira e o romance A Paixão Segundo G.H. Mas sua natureza inquieta, e seus questionamentos filosóficos e literários, somam-se aos problemas familiares, como o quadro de esquizofrenia apresentado por um dos seus filhos, e que exige cuidados especiais, criando em torno dela a fama de uma personalidade dramática e fascinante. E é na literatura que essa personalidade sensível prossegue, em busca de uma espécie de redenção, escrevendo cada vez mais e melhor.
Um momento traumático marca sua trajetória, trazendo para sua vida pessoal uma parcela do conteúdo dramático que permeia seus escritos: em setembro de 1966, dormindo uma noite com cigarro aceso – e possivelmente em conseqüência do uso do medicamentos – ela é vítima de um incêndio em seu quarto, que provoca sérias queimaduras por todo o seu corpo, chegando ao risco de amputação da mão direita. Esse acidente mudaria radicalmente a sua vida.
O rosto, belíssimo, ficou definitivamente marcado por uma extensa cicatriz na face direita. Deprimida, ainda mais do que antes, passou a fechar-se em grandes períodos de reclusão. Mas não parou de escrever. Isso, nunca. Voltou ao jornalismo, escrevendo crônicas no Jornal do Brasil, e entrevistas com personalidades, para a revista Manchete. Escreveu ainda romances, contos, e até livros infantis.
Desafiando a vaidade feminina, continuou participando de eventos culturais e dando palestras, na Bahia, em Minas e São Paulo. Em 67 passou a integrar o Conselho Consultivo do Instituto Nacional do Livro. Em 68 participou da Passeata dos 100 mil, contra a ditadura militar. Trabalhou como revisora e tradutora de livros, para garantir os recursos necessários à sua sobrevivência. Entre eventos e encontros literários, participa em 1975 do Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá, Colômbia. Nesse ano também começa a enveredar pela pintura, como uma nova e inexplorada forma de expressão.
Até 77 sua produção se intensifica, com livros escritos, publicados e premiados. Seu sucesso e reconhecimento no panorama literário brasileiro é maior do que nunca. Em 9 de dezembro de 1977, apenas um dia antes de completar 57 anos, Clarice morre inesperadamente, vítima de uma obstrução intestinal. Partiu de súbito, sem ter conhecimento de sua grave doença – um adenonocarcinoma só detectado depois – e poupada de um ainda maior sofrimento.
Na abertura de uma biografia da escritora, Clarice, do norte-americano Benjamim Moser, o autor cita uma visita dela ao Egito – numa das suas andanças diplomáticas – e sobre a qual ela escreveu anos mais tarde, com relação à Esfinge: “Eu não a decifrei... mas ela também não me decifrou”.
Clarice é assim: uma esfinge indecifrável para quem quer escrever sobre ela. “Que mistérios tem Clarice?” Ao mesmo tempo felina e ferina. Ao mesmo tempo frágil e corajosa. O leitor curioso, e interessado, tem certamente muito a descobrir, através dos textos maravilhosos dessa autora.
Célia Borges

26 de março de 2010

NÚCLEO COLONIAL DO ITATIAYA VIVE CRISE DE IDENTIDADE: MUNICIPAL OU FEDERAL?



(Publicado no jornal Ponte Velha)
Os moradores do Núcleo Colonial do Itatiaya vivem uma situação, para dizer o mínimo, inusitada. Embora paguem IPTU há décadas, o que os caracteriza como propriedades urbanas, por se encontrarem além do portão de entrada do Parque Nacional do Itatiaia, vêm sendo submetidos nos últimos anos, a critérios impostos à áreas de conservação ambiental. Nessa condição, estão tendo acesso dificultado aos serviços municipais, como o recolhimento do lixo, e a outros igualmente básicos, como a manutenção da rede elétrica pela concessionária local.
O compromisso de preservar o meio ambiente é aceito, e até defendido, pelos moradores do Núcleo. Afinal, quando os proprietários originais – imigrantes europeus incentivados pelo governo brasileiro a vir para o país em projeto de colonização – compraram seus lotes na região, a área encontrava-se completamente devastada de sua cobertura vegetal. Nas décadas seguintes, por uma vocação natural e também por motivação empresarial, esses colonos dedicaram-se à restaurar a vegetação, criando uma admirável mata secundária, ao mesmo tempo em que desenvolviam a hotelaria e o turismo como opção econômica.
O Núcleo Colonial do Itatiaya foi criado em 1908, depois que a União adquiriu dos herdeiros do Visconde de Mauá, suas sete fazendas na Serra da Mantiqueira, num total de 48 mil hectares. Duas pequenas áreas foram demarcadas e dividas em lotes para venda aos imigrantes - em Itatiaya e Visconde de Mauá – que começaram a chegar ao país em dezembro do mesmo ano. Grande parte dos lotes foi adquirida até 1916, quando o governo federal emancipou os núcleos, retirando o apoio oficial e deixando os proprietários, com suas respectivas escrituras de posse, por conta própria.
Em 1924 foi criada uma Estação Biológica na região, subordinada ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, nos limites com o Núcleo. Além do apoio mútuo, dessa vizinhança surgiram memoráveis experiências, como a história de amor entre Josef Simon – depois proprietário do famoso Hotel Simon – e dona Lira, filha do administrador da Estação Biológica, cujos descendentes ainda fazem parte da comunidade. O Parque Nacional do Itatiaia só foi criado em 1937, por decreto do então presidente Getúlio Vargas, sendo a primeira reserva florestal do país, e motivo de orgulho para os moradores do Núcleo. Em suas definições técnicas, o decreto deixava de fora as propriedades particulares vizinhas, e englobava os cerca de 12 mil hectares da Estação Biológica.
O início do mal entendido, que criou uma pretensa “questão fundiária” entre o Núcleo e o Parque surgiu na década de 50, quando a então direção do Parque propôs a construção de uma cancela para controlar o acesso, e evitar o transito de caçadores que ameaçavam a fauna, e palmiteiros, entre outros predadores. Os moradores do Núcleo aprovaram a medida, já que eles mesmos vinham combatendo essas ações por seus próprios meios. Mas a direção do Parque decidiu melhorar a cancela e construir um pórtico, que acabou, por força do hábito, a ser confundido como o Portão do Parque.
O portão, segundo a legislação vigente, dá acesso ao Parque, mas não é o portão do parque, porque a estrada até a unidade de conservação atravessa, por quilômetros, as terras do Núcleo Colonial. Essa pode ser uma circunstância que induziu a erro o governo federal, quando em 1982, num decreto de ampliação do Parque para 30 mil hectares, incluiu as propriedades particulares do Núcleo Colonial. Não houve qualquer justificativa técnica para essa inclusão, e os termos do decreto não foram aplicados, por mais de 25 anos.
Os moradores do Núcleo Colonial do Itatiaya, nos seus cem anos, completos em 2008, já deram inquestionável demonstração do seu compromisso com a preservação do meio ambiente, de tal forma que suas propriedades hoje se confundem com a mata do Parque Nacional. Eles foram ponto de apoio às centenas de cientistas, estrangeiros e brasileiros, que estudaram a fauna, a flora e a geologia do Maciço do Itatiaia, com importantes trabalhos publicados em todo o mundo. E deram contribuições decisivas no combate aos incêndios que, ano após ano, vem consumindo grandes áreas de mata nativa do Parque.
Em 2007, na comemoração do 70º aniversário do Parque, o Ministério do Meio Ambiente apresentou um programa de monitoria, “ressuscitando” o decreto de 1982, e entre outras medidas, desmontando o Museu da Fauna e da Flora, para grande descontentamento da comunidade do município de Itatiaia, e anunciando a desapropriação das terras do Núcleo. E desde então, a direção do Parque tomou posse da área, como se já fosse sua propriedade, impondo restrições, intimidando os moradores do Núcleo, dificultando o acesso, inclusive dos hospedes dos hotéis, dos serviços básicos e dos meios de manutenção.
Em janeiro a questão foi parar na Justiça Federal, através de uma Ação Civil Coletiva da Associação dos Amigos do Itatiaia, que reúne os moradores do Núcleo. A Ação pede a anulação do decreto de 1982, por decurso de prazo, e questiona os propósitos ambientalistas do programa de monitoria, que quer instalar no local um ambicioso projeto de lazer, substituindo os donos dos hotéis por novos administradores, e instalando uma universidade de Biodiversidade e Gastronomia, com fluxo previsto de 1.500 alunos, além de professores e funcionários. Um dos aspectos do curso de gastronomia é estudar o uso culinário de espécies selvagens, sendo que as do Parque, muitas, senão a maioria, estão em extinção.
Enquanto aguardam a decisão da Justiça, o advogado da AAI, Dr. Antonio Lima, vem orientando os moradores do Núcleo a assumirem a jurisdição municipal, que lhes é garantida não só pelo pagamento do IPTU, mas pelo fato do Núcleo ter sido emancipado em 1916, e assim, ter sido desvinculado da jurisdição federal. Segundo ele, por isso mesmo, não estão sujeitos à tutela da direção do Parque. E conclui: “Interesses e direitos ligados ao meio ambiente, aos serviços e obras públicas e particulares, como conservação de via pública, corte de árvores, limpeza, remoção de lixo e entulho, construção, reforma e pintura das casas, entrada e saída de materiais, estão sujeitos ao licenciamento da Prefeitura Municipal de Itatiaia, na forma da Constituição e das Leis”.
Sem saber bem a que instância governamental pertencem, os moradores do Núcleo ainda não voltaram a recuperar o sono tranqüilo, que a paz do lugar costuma inspirar. Além de suas propriedades, a preservação do Parque também está em jogo, dependendo de decisão judicial.
(Na foto de Leila Heizer, o Bicho Preguiça parece encantado com as Marias Sem Vergonha, exemplo de integração entre o selvagem e o trazido pelo homem)
Célia Borges