18 de abril de 2008

ARTE, ARTISTAS E EXPOSIÇÕES V - Eila: tapeceira finlandesa com inspiração tropical


As tapeçarias de Eila são uma importante referência artística de Penedo. Mesmo sem contar atualmente com o grande público que já teve nas décadas de 60 e 70, e que levaram seus trabalhos a um grande número de prédios públicos, empresas e residências, galerias de arte e museus, ela mantém, com mais de 90 anos, uma legião de admiradores. A exuberância de seus desenhos e a intensidade de suas cores fazem dela quase uma unanimidade: é difícil visitar sua galeria e sair de lá sem se apaixonar por algum dos trabalhos expostos.

Nascida em Tampere, na Finlândia, Eila Ampula veio para o Brasil em 1916, com 13 anos, no grupo pioneiro de Toivo Uuskallio, que fundou a colônia do Penedo. As visões do novo país, cujo intenso colorido contrastava tanto com os tons cinzentos da paisagem escandinava, causaram forte impressão na adolescente, que não sabia, entretanto, como manifesta-la.

O casamento e os anos difíceis que os colonos finlandeses tiveram que enfrentar nos anos 30 e 40 não deram a ela muitas oportunidades de expressar sua sensibilidade artística. Só por volta dos anos 50 é que Eila, evocando a alegria que encontrava nos desenhos da infância, começou a pintar à óleo, incentivada pelos amigos.

Em poucos anos seu trabalho ganhou prestígio, de forma que à partir de 1958 ela passou a dedicar-se integralmente à pintura, realizando algumas exposições individuais. Inquieta, e em busca de materiais diferentes, chegou a usar placas de concreto, sobre as quais aplicava relevos de cimento, concluindo com a aplicação de tinta. Mas sentia que ainda não tinha encontrado o caminho.

Foi nos anos 60 que, buscando novamente inspiração na infância, redescobriu o tear manual usado pelos finlandeses na confecção de agasalhos de inverno. Em 1964 encomendou seu primeiro tear e iniciou suas experiências. Estudando materiais e aperfeiçoando a técnica, a artista foi encontrando ao mesmo tempo uma afinidade cada vez maior com temas brasileiros, embora sua galeria revele trabalhos com motivos os mais variados. Mas são a selva, com seus bichos e plantas, os índios, os pescadores, caboclos e todos os tipos que se enquadrem numa perspectiva de colorido intenso, os preferidos da artista e do publico.

A originalidade e a beleza das tapeçarias de Eila tiveram reconhecimento quase imediato, e já em 65 ela fazia uma exposição dos primeiros trabalhos na Casa da Suíça, no Rio. No ano seguinte foram quatro exposições, duas coletivas – no Ibeu e no Salão de Artes Religiosas de Londrina, Paraná, onde recebeu menção especial – e duas individuais – na Usis, em Salvador, e na Igreja dos Marinheiros Escandinavos, no Rio.

Em 1967 o número de exposições sobre para cinco, sendo quatro individuais – na Embaixada Americana no Rio, na Universidade do Ceará, na Galeria Domus e outra em Vitória – e uma coletiva, no Museu de Arte Moderna de Salvador. Nessas andanças pelo país, ela foi recolhendo novas impressões sobre os tipos e paisagens brasileiras, e assim enriquecendo seu acervo de temas.

E quanto mais mergulhava na exploração dos motivos tropicais, maior o sucesso de suas tapeçarias, testemunhado pela quantidade delas que se encontram em prédios públicos e empresas, nas revistas de decoração e residências famosas, e até nos cenários das novelas de TV. As exposições também continuaram em alta, com mais três em 68, no MAM-Rio (em comemoração aos 50 anos de independência da Finlândia), na Galeria Montmartre Jorge, também no Rio, e na Wenner Gren Center, em Estocolmo, na Suécia, sua primeira internacional.

Em 69 fez apenas uma individual na Galeria Portal, em São Paulo, mas esse relativo descanso foi compensado por nada menos que seis exposições em 1970, das quais cinco individuais, em Resende, Rio (2), São Paulo e Ceará, e uma coletiva no pavilhão do Brasil da Expo-70, em Osaka, no Japão. De tão forte identificação com o Brasil são suas imagens, que em 71 foi convidada a participar da exposição itinerante Brasil Convida, sob o patrocínio do Itamaraty e da Varig por diversos países.

Nos vinte anos seguintes, até o início da década de 90, Eila manteve intensa atividade, com exposições pelo Brasil, principalmente no Rio, São Paulo, Brasília, Bahia, Ceará, Minas e Paraná. No exterior expôs mais três vezes, na Finlândia (em 76 e 82) e no Springsville Museum of Art, em Utah, EUA (1979). Na década de 80, como reflexo de sua inteligência inquieta, passou a idealizar suas novas obras através de um computador. Nos últimos dois anos, depois de completar 90, Eila vem reduzindo sua atividade, e as visitas à sua galeria devem ser agendadas através das agencias turísticas de Penedo.

Célia Borges

ITATIAIA HISTÓRICA – Parque Nacional, a mais antiga unidade de conservação do país


Muita gente se surpreende até hoje, ao ver tão grande área da Mata Atlântica preservada, no meio de tanta terra devastada pela monocultura cafeeira. Afinal, como é que a mata de Itatiaia sobreviveu? Pois foi graças ao Visconde de Mauá, Irineu Evangelista de Souza, que hoje existe o Parque Nacional do Itatiaia. Proprietário desde meados do século XIX de um conjunto de fazendas naquela serra – Central, Queijaria, Taquaral, Invernada, Mont-Serrat e Benfica – abrangendo terras do Rio de Janeiro e de Minas Gerais – ele não foi afetado pela “febre do café”, preferindo trazer os primeiros colonos europeus para a região. As terras de Mauá passaram em 1908 para o governo federal, com a finalidade de ampliação da colonização, projeto que se estendeu até por volta de 1918.

Os colonos, predominantemente alemães, mas também franceses, suíços e holandeses, foram divididos em dois núcleos coloniais, um em Itatiaia e outro em Visconde de Mauá, com o objetivo de se dedicarem à fruticultura e à criação de pequenos animais. A experiência, além de não ter dado certo, ainda foi responsável pela devastação de grandes áreas de floresta nativa, principalmente nas altitudes mais baixas.

As primeiras notícias documentadas da região do Itatiaia relatam a visita do botânico Glaziou, em companhia da princesa Isabel, em julho de 1872, e que ficou impressionado com a riqueza de sua flora e pelas formações geomorfológicas de excepcional imponência. Em 1014, o naturalista do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Campos Porto, procedendo a estudos na região, constatou a destruição progressiva das matas, o que o levou a escrever ao diretor da unidade, J.C.Willis, denunciado as condições do local e sugerindo a criação de um parque nacional.

Outros botânicos, como Alfred Ludgren, geólogos, geógrafos e biólogos, defendiam a criação do parque, mas Campos Porto foi o primeiro a apresentar uma proposta concreta, tendo sido ele, 23 anos mais tarde, o seu primeiro diretor. Algumas fontes indicam entretanto que o autor da idéia foi um engenheiro, André Rebouças, que já sonhava com o parque 60 anos antes que ele se tornasse realidade.

Depois do fracasso do projeto de colonização, providências governamentais incorporaram as terras remanescentes dos antigos núcleos coloniais ao patrimônio do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, sob a denominação de Reserva Florestal do Itatiaia, que passou em 1927 a Estação Biológica do Itatiaia. E assim permaneceu até 14 de julho de 1937, quando através do Decreto n0 1.713, o presidente Getúlio Vargas criou o Parque Nacional do Itatiaia.

A mais antiga reserva ecológica do país possui área de 12 mil hectares – que o Decreto 87.586, de 20/09/82 aumentou para 30 mil hectares, sem que isso na prática tenha se concretizado – em terras à noroeste do Rio de Janeiro e ao sul de Minas Gerais, em plena Serra da Mantiqueira, com altitudes que variam de 800 a mais de 2.700 metros. O parque, que abriga flora e fauna magníficas, destaca-se também pelo interesse geológico devido às rochas ali encontradas, que são pouco comuns no país. Rochas intrusivas cristalinas formam um vasto maciço foiático, que é o maior do mundo, superado apenas pelo de Kola, na Escandinávia. A área também é rica em bauxita quase pura.

Mas são a fauna e a flora que conquistam para o parque a sua fama mundial, abrigo de inúmeras espécies endêmicas e de outras bastante raras, muitas ameaçadas de extinção. Na área mais acessível do platô, com altitudes entre 800 e 1.100 metros, predomina a floresta úmida e densa, com arvores que atingem até 30 metros, e uma vegetação de grande beleza nas camadas inferiores, e até mesmo sobre as rochas, como liquens, musgos e cactos; begônias, bromélias, orquídeas, samambaias, lírios, brincos de princesa e gravatás. Entre as árvores, abundam várias espécies de cedros, quaresmeiras, paineiras, ipês, canelas, jacarandás e caviúnas.

Essa área sofreu várias agressões, primeiro inadvertidamente, através da colonização, que incentivava a ocupação de várias áreas, e em seguida pela ação predatória de lenhadores e carvoeiros. Mais recentemente as causas têm sido os incêndios de origem criminosa. Mas ainda guarda uma razoável parcela de mata nativa, sendo boa parte dela recuperada. Existem aí inúmeras propriedades particulares, inclusive a maioria dos hotéis, que dão suporte ao turismo local.

A segunda área apresenta altitudes de 1.100 a 1.900 metros, formada pelas escarpas do Maciço do Itatiaia, com vegetação que se caracteriza pelos bosques de pinheiros e araucárias nativas, árvores de porte mais baixo, entremeadas com vegetação arbustiva e densa, sendo o solo coberto de musgos e gramíneas. Nesse trechos encontravam-se, até recentemente, e agora mais raramente, animais de maior porte, como onças, macacos e cachorros do mato, a maioria sobrevivendo à ameaça de extinção.

Acima dos 1.900 metros encontra-se o platô superior, que tem como ponto culminante o Pico das Agulhas Negras, a 2.787 metros. A vegetação desses campos de altitude é bastante heterogênea, com ervas e arbustos de até 2 metros, ocorrendo a presença de árvores isoladas. A flora aqui apresenta mais de cem espécies endêmicas, além de 30 espécies exóticas procedentes dos Andes, do Antártico e do Astral-Andino. Os rochedos são cobertos de liquens de cores variadas, como castanho, vermelho, amarelo, cinza e até preto. Nessa área encontram-se formações rochosas de características bastante curiosas, como as Prateleiras, que produzem um efeito original, amarelo dourado. Existem também grandes formações rochosas de um cinza chumbo, como o Pico das Agulhas Negras.

A fauna do parque, que por si só já seria riquíssima, foi aumentada e diversificada na medida em que, com a devastação das áreas vizinhas, os animais foram se refugiando na mata, enriquecendo-a com espécies de todas as ordens. A maior variedade encontrada são de insetos, tendo sido catalogadas mais de 4 mil espécies de borboletas, 2.500 de besouros, mais de mil abelhas e marimbondos, 500 tipos de moscas, inclusive a maior do mundo, mais de 300 cigarras e 26 abelhas melíferas.

Mas são as aves que compõem a maior população do parque, com mais de 300 espécies, como sabiás-laranjeira, beija-flores, tucanos e maritacas, siriemas e cariemas, codornas e perdizes, sabiás, tico-ticos, gaviões e tangarás, para citar apenas as mais conhecidas, já que existem também espécies bastante raras e pouco conhecidas, que encantam o visitante de sorte, ou o estudioso paciente, com suas plumagens e cores as mais variadas, dos tons mais brandos aos mais exuberantes.

Ele abriga também 67 espécies diferentes de mamíferos – caitutu, onça-parda, cachorros do mato, macacos, tamanduás, preguiças, pacas, sagüis, jaguar e lobo guará entre outras – diversas delas ameaçadas de extinção. Existem ainda 64 tipos de anfíbios – inclusive a tartaruga de água – e 25 espécies de répteis, como a jibóia e outros tipos não peçonhentos.

Célia Borges

15 de abril de 2008

PAISAGISMO E JARDINAGEM VII – Plante na cozinha: tomate, salsa, cebolinha...


Mesmo quem não tem espaço para fazer uma horta, pode cultivar algumas espécies próprias para consumo em pequenos espaços, como um recanto da cozinha, da copa ou da área de serviço. Além da utilidade culinária, esse recurso pode ser extremamente decorativo. A única exigência é que o local escolhido receba claridade intensa ou então algumas horas de sol por dia, já que a maioria delas não resiste à sombra predominante.

Bancadas ou prateleiras sob as janelas, ou até jardineiras externas (observados os requisitos de segurança) podem ser indicados para esse tipo de cultivo, mas outros locais, desde que não muito próximos ao calor do fogão, pode ser adaptados. Uma vantagem é que podem ser plantados em vasos ou jardineiras de tamanhos pequeno ou médio, dependendo da quantidade desejada.

Algumas mudas de ervas e temperos são facilmente adquiridas no comércio, especialmente floriculturas e supermercados. Outras podem ser reproduzidas pelo aproveitamento de sobras domésticas, e ainda outras vão dar um pouco mais de trabalho pela necessidade de semear e acompanhar o crescimento. Esse é o caso do tomate, por exemplo, sendo que para interiores o tipo mais recomendável é o tomate cereja (Lycopersicon esculentum cerasiforme), devido ao seu pequeno porte. Mais doce que o tomate comum, ele também é rico em licopeno, antioxidante que combate os radicais livres e retarda o envelhecimento. Além de bonito, é ótimo para a saúde.

Planta de origem selvagem, o tomate cereja pode ser cultivado à partir de sementeiras (as sementes são encontradas em lojas especializadas), feitas em copinhos plásticos (inclusive aqueles de cafezinho) cheios de terra adubada, com cerca de três sementes por copinho. É importante observar as instruções da embalagem, além de manter a terra ligeiramente úmida, e jamais encharcada. De cada copinho deve ser escolhida a muda mais forte.

O transplante para local definitivo pode ser feito depois de 30 a 40 dias, quanto a plantinha tiver entre 10 e 12 cm, lembrando-se que, como uma trepadeira, ele precisa do apoio de estacas ou outros recursos semelhantes para se desenvolver e produzir adequadamente. As mudas devem ser plantadas a pelo menos 40cm de distancia uma da outra, ou em vasos individuais. A produção pode ser esperada em 120 dias aproximadamente. Plantado no solo, ao ar livre, o tomate é muito sujeito à pragas, mas em ambiente interno isso é mais raro, garantindo um alimento sem agrotóxicos.

Outra que exige sementeira é a Salsa (Apium pretroselinum), inseparável companheira de Cebolinha no tempero de inúmeros pratos brasileiros. Como o tomate, ela pode ser semeada em copinhos, e todo o procedimento no trato da muda deve seguir as orientações da embalagem, assim como o plantio. Plantadas em jardineiras, podem formar pequenas touceiras, intercaladas com cebolinha, o que dá um interessante feito decorativo. A reprodução da cebolinha é a mais fácil e barata que existe: basta reaproveitar as raízes que sobram do consumo, espetando-as na terra, e deixando para fora cerca de 1cm do talo remanescente. Ela brota sozinha.

Alguns tubérculos, como a beterraba, a batata-doce e o inhame podem produzir também interessantes folhagens, aproveitando-se aqueles que já passaram do ponto para o consumo, e que geralmente já apresentam brotos prontos para se desenvolverem. Basta enterra-los, com a parte mais cheia de brotos ao nível da terra, regar regularmente, e esperar a natureza. Nesses casos, entretanto, o aproveitamento da raiz para consumo não é garantido, sendo um plantio mais para efeito decorativo.

Também com intenso efeito decorativo, são indicados os vários tipos de pimenteiras, desde as de frutos vermelhos, as mais tradicionais, até aquelas que mantem a predominância do verde, as amarelas e as arrocheadas. Atualmente há grande variedade, facilmente encontradas nas floriculturas, e tanto podem ser cultivadas individualmente, como formando arranjos, em floreiras e jardineiras. Alguns tipos são mais ardidos, outros mais perfumados, é importante se informar antes da compra. Além do uso culinário, as pimenteiras são consideradas no folclore botânico como fortes neutralizadoras do “mau olhado”.

Célia Borges

12 de abril de 2008

ALDEIA GLOBAL XXVI – A invasão à UNB e a força da opinião pública

Há uma reflexão indispensável ao exercício da Cidadania nesses nossos dias de Século XXI: dentro do conceito de estado republicano e democrático, governos existem para servir ao povo, ou o povo existe para servir aos governos? O peso da cultura histórica não contribui muito para o discernimento nessa questão, pois estamos acostumados à idéia de impérios, monarquias, e autoritarismos de todos os tipos, no decorrer da maioria dos séculos que nos antecederam. Mas não podemos nos esquecer dos movimentos que nos resgataram, e que apesar de seus eventuais excessos e violência, traduziram os anseios das populações, em busca de igualdade, liberdade e fraternidade entre os homens.

Essa discussão pode ser irrelevante nos estados em que o autoritarismo ainda predomina. Mas nos chamados “estados democráticos” ela deveria ser alvo de uma reflexão diária de cada cidadão, assim como quem profere uma oração. Porque é inquestionável a vocação de governos e poderes a se entrincheirarem em privilégios que os afastam do interesse comum. O poder corrompe, distorce as prioridades, alimenta vaidades, e isola as lideranças dos verdadeiros objetivos para os quais foram criadas. E cabe ao cidadão estar atento, estabelecendo limites ao poder do estado, para não ser engolido por ele.

A recente invasão de estudantes à reitoria da Universidade de Brasília, e seu desfecho, com o afastamento do reitor, mostram bem como a reação de cidadãos – e eu me sinto extremamente orgulhosa de ser compatriota desse grupo de pessoas que conseguiram seus objetivos driblando a violência – podem fazer diferença no restabelecimento da lei e da ordem, quando elas são tão nitidamente, tão obviamente, transgredidas. Estudantes, professores e funcionários daquela universidade, não estavam motivados por quaisquer dissenções de ordem política, mas por uma rigorosa exigência de respeito e responsabilidade no trato com os bens públicos. Sejam eles materiais, como os recursos financeiros desviados de seus objetivos, sejam subjetivos, como a falta que fizeram no conjunto da educação pública no país.

Esse episódio teve o mérito, além de seus próprios resultados práticos com o afastamento do reitor, de confirmar o quanto a força da opinião pública pode ser decisiva no combate à corrupção, à impunidade e à arrogância que parecem ter tomado de assalto a maioria dos setores da administração pública. Às vésperas de pedir licença do cargo, o reitor declarava nos noticiários, pura e simplesmente “não saio”. Não se dispunha a discutir, justificar ou se desculpar pelos desmandos. Iludido por uma garantia de impunidade que não se concretizou, ele resistiu até o último minuto. E acabou saindo pela porta dos fundos.

O que se tratou, nesse caso, foi de medir forças: por um lado a arrogância autoritária de um cidadão que achava que podia tudo, que se situava acima da lei e do interesse coletivo, contra a força da opinião daqueles que discordaram desse ponto de vista e se dispuseram a lutar por suas convicções. Um a zero. O Ministério Público Federal assumiu sua responsabilidade, o reitor está temporariamente afastado, o processo instaurado, e nós, aguardando para ver o resultado. Torcendo para que o Sr. Mulholhand não volte para o cargo. Pelo menos para esse cargo de reitor da UNB. Pelo menos até que o governo encontre uma solução ao gosto do momento, como um novo cargo, para premia-lo pelos deslizes ampla e publicamente constatados.

“Não saio” é uma expressão que vem sendo repetida por outras autoridades, de mais de um dos Poderes, à título de resistência à circunstâncias que desafiam a opinião pública. Foi assim com Severino, foi assim com Renan Calheiros. Quantos foram os ministros já que caíram, depois de igual manifestação de arrogância? Perdi a conta. Lembro do Zé Dirceu. Mas são tantos os ministros, e tantos os mal-feitos, que não dá pra lembrar de todos. Ah, tem aquela senhora da Integração Racial!!! Enfim, por mais apoio que recebam do nosso presidente da República – e por mais aprovação que esse presidente receba nas pesquisas de opinião – eles acabam caindo. Por menor que seja a nossa consciência dessa força, a opinião pública, em maior ou menor escala, ainda continua fazendo diferença. Principalmente quando conta com a sintonia da imprensa.

É pena que a educação deficiente da maioria da população torne a força da “opinião pública” um poder ainda incipiente em nosso país. Mas mesmo atuando apenas em alguns poucos momentos e circunstâncias, é inquestionável a sua influência. E ela tem sido exercida em momentos cruciais da nossa história recente. Ela é o derradeiro reduto da ética e da moralidade, o “cartão vermelho” que a população dá a quem não “anda direito”. Ela é o lembrete aos poderosos, de que governos existem para servir à população e não o contrário. Afinal, “todo o poder emana do povo, e em seu nome deve ser exercido”. Não é isso que diz a nossa Constituição?

Célia Borges

ARTE, ARTISTAS E EXPOSIÇÕES III - Wendell Amorim – Reciclando a Arte

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Fome Zero
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O poeta e artista plástico Wendell Amorim revela, nas várias facetas do seu trabalho, a marca de um espírito inovador. A própria variedade de suas atividades (que inclui textos para teatro), assim como a exploração de novos materiais, formatos e conceitos em cada uma delas, mostra uma personalidade inquieta, sempre em busca de novas possibilidades. E a arte desenvolvida com materiais reciclados, onde projeta sua preocupação com o meio ambiente, é a mais recente delas...
O artista, Wendell Amorim
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Quem quiser conferir pessoalmente, poderá ver a escultura do artista sobre a Ponte Velha, que fará parte da exposição sobre o tema, promovida por Claudionor Rosa, à partir do próximo dia 16, às 19 horas, no Anexo da Câmara Municipal de Resende. Em junho ele volta ao mesmo espaço, em exposição sobre Meio Ambiente, dividindo-o com Fátima Porto; e nesse mesmo mês estará expondo individualmente na Semana do Compromisso Social com o Meio Ambiente, em Volta Redonda.
Carioca de Campo Grande, Wendell veio para Resende na adolescência. Artista plástico autodidata, está cursando o quinto período da Faculdade de Artes Visuais da Universidade de Barra Mansa. Já teve um de seus quadros premiado no XXX Salão da Primavera (Prêmio Eitel César Fernandes/MAM-Resende em 2002) e outro pela exposição Universidarte, promovida pela Universidade Estácio de Sá.A reciclagem da arte ou a arte da reciclagem? Essa é uma pergunta com muitas respostas para esse artista: Wendell Amorim vem desenvolvendo novas técnicas no Atelier Mosaicolagem, inclusive aquela que deu nome ao próprio atelier. Ele reconhece, no seu trabalho, a influência de Cézanne e Picasso, especialmente no aspecto do cubismo, e as ultrapassa, através do cubismo sintético, com a introdução de letras, palavras, números, pedaços de madeira, vidro, metal, e até objetos inteiros nas pinturas. E em suas esculturas, essa influência encontra uma expressão ainda mais livre.

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Pão de Açúcar

Tartaruga (Bienal Santos)
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Além das premiações já citadas, Wendell Amorim foi terceiro colocado no II Salão Estudantil de Humor, em 96, na categoria Caricatura, e um dos três finalistas no I Prêmio Ambev de Reciclagem, categoria Artes Plásticas, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Como poeta já participou de várias antologias regionais e publicou os livros Poeta de Boteco e AMORIMprovisado. Também foi um dos fundadores, e dirige a Ong Cultural Oito Deitado, ao lado de Jenifer Faulstich e Kátia Kirino.
Exposições individuais do artista: em 2007, Exposição Itinerante no Centro Histórico de Paraty-RJ, com mosaicos de instrumentos musicais em madeira e textura; MPB na Parede, Hotel do Ypê, Itatiaia; Festjazz na Parede, no Sesc de Barra Mansa; Conexão Cultural, na Universidade de Barra Mansa; Homem Lixo, na Casa de Cultura de Bananal. Em 2006, MPB na Parede, no Espaço Cultural da Câmara de Resende e no Resende Shopping; Semana do Meio Ambiente, Guardian do Brasil, Porto Real. Em 2005, I Encontro de Poesia e Natureza do Parque Nacional do Itatiaia, e Para não Dizer que Não Pintei Flores, no Hotel Ypê e no Espaço Sax-Resende, onde também apresentou Saxomania. Em 2004, Bossa Nova, no Espaço Sax e 2002, Copa do Mundo, Caricaturas dos Jogadores de Futebol, na Biblioteca Municipal Jandyr César Sampaio, Resende-RJ.
Também tem participado ativamente em exposições coletivas, com destaque àquelas do Museu de Arte Moderna de Resende, mas também em outras instituições culturais de Barra Mansa e Volta Redonda. Em 2007 foi curador da mostra Verde Vida, em homenagem ao artista plástico Marcius Lima; em 2005, da mostra Natureza Humana e Arte Sacra – Samuel Costa, no Espaço Sax; e em 2004, Casario Resendense, aquarelas de Alandarque Linhares, no Espaço Sax.
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À esquerda, Puri (Bienal Santos)