23 de novembro de 2012

Brasil, o país do "faz de conta"

O titulo acima não é original, e já foi estampado em livro, e em inúmeros artigos, mas o que vêm acontecendo nos nossos dias o torna muito, e cada vez mais, atual. Meu primeiro choque com a consciência desse faz de conta veio por um artigo do ex-ministro da Educação Cristovão Buarque, e no qual, numa única frase, ele sintetizou a situação da maior parte da nossa população, em relação a esse tão importante setor da nossa vida e da administração pública: “No Brasil, os professores fazem de conta que ensinam, e os alunos fazem de conta que aprendem”. Isso foi logo no início do primeiro mandato do Lula, quando esse admirável criador do “bolsa-escola” foi defenestrado, por conta de suas posições tão éticas quanto desconfortáveis para o governo. De lá pra cá, sua brilhante ideia inicial foi desdobrada em todo o tipo de oportunismo e manipulação política, com a distribuição de variados tipos de bolsa, invertendo totalmente o seu objetivo, que era privilegiar a obrigatoriedade do ensino e investir na educação. Que afinal, na equação desenvolvimentista do governo petista, acabou em último plano. E para constatar isso, é só olhar em volta. É claro que esse “faz de conta” não começou com o novo século, nem com os governos petistas, mas é desalentador observar que o que era antes uma questão de “interpretação da realidade”, acabou se transformando numa pura e simples negação da realidade, e a sua substituição por uma espécie de nova realidade dialético-virtual, ou popularmente “tapar o sol com a peneira” via satélite. Para o grande contingente de analfabetos funcionais desse país, o que a televisão anuncia, é a verdade. O rádio tem igual credibilidade. E se a autoridade declara, o povo acredita. Ou faz de conta que acredita...quando se acomoda e não questiona, o que é o comportamento da maioria. Não existe mais respeito à opinião pública, porque as nossas autoridades “decretaram” informalmente que não existe opinião pública. Afinal, se “como nunca antes na história desse país” tivemos um presidente que não lê, e que ainda declarou isso com uma espécie de orgulho, então até faz sentido que a maior autoridade do país “não sabia de nada” das falcatruas ocorridas durante seu governo. E dessa maneira, faz de conta de que nunca aconteceram. E digam o que quiserem ao contrário... porque não “estamos nem aí”. Então, e por conta desta aparentemente aceita negação da realidade, todos os absurdos passam a ser possíveis, tanto nos poderes executivo, legislativo e judiciário, quanto nas diversas instâncias da administração pública, federal, estadual e municipal. Todos os dias somos brindados com mais exemplos de desonestidade, o que deflagrou uma espécie de “licença geral” para que cada um, empresas, pessoas e imprensa, torçam a realidade em seu proveito, antecipadamente justificados, e se acreditando “isentos de culpa”, diante do clima de impunidade que nos cerca por todos os lados. Se o presidente, ou a presidente, anunciam uma medida hoje e são desmentidos pelos fatos na semana seguinte... tudo bem!!! Então as empresas concessionárias de serviços podem fazer cobranças indevidas, e esperar que os incautos não percebam, e assim ela vai aumentando seu lucro. Bancos e cartões de crédito também se arriscam a “cometer erros” sempre a custo do cliente, mas tudo bem, é só um engano, e você que passe meses tentando provar que tem razão. Empresas aéreas te deixam na mão, mas tudo bem, é assim mesmo... vivemos no Brasil, onde o cidadão, consumidor, contribuinte e eleitor, não tem direito à muita coisa. Você até pode reclamar, e se tiver um bom advogado, ter seu direito reconhecido. Mas se isso acontecer, pode se considerar uma “agulha no palheiro”. Vivemos num tal labirinto de leis que nunca são cumpridas, que fica até difícil saber onde começam e onde terminam nossos direitos. Engabelados pelas estatísticas oficiais, que fazem propaganda de uma prosperidade que não vemos, acreditamos que o país pode realizar eventos de grande projeção internacional, como uma Copa do Mundo de futebol, e as Olimpíadas, enquanto pessoas de todas as idades, mas principalmente crianças e idosos das faixas mais carentes de renda, ainda morrem na porta dos hospitais por falta de atendimento. A negação da realidade implica também num inversão de valores que nos remete às portas do caos social. Enquanto boas escolas e boas universidades poderiam nos redimir da dependência econômica, científica e cultural, seguimos na direção de um clientelismo sem volta, com bolsas de todos os tipos para matar a fome, mas sem a boa educação que ensinaria a pescar. Temos uma população enorme, cheia de jovens em busca de oportunidade, mas vamos importar mão de obra qualificada para sustentar nosso desenvolvimento industrial. A falta de educação já desponta como uma espécie de doença social hereditária, passada de pais para filhos, e justifica todo o tido de violência que podemos suportar. Um exemplo disso foi matéria veiculada hoje na TV, sendo entrevistado um jovem assaltante, de 20 anos de idade, que cometeu latrocínio contra uma senhora de mais de 70 anos. “A culpa foi dela”, diz o assaltante: “Eu não queria matar, só pedi a bolsa dela. Mas ela reagiu e eu atirei. Eu só queria roubar”... Amigo leitor, eu gostaria de fazer de conta que... sei lá!!! Ainda pudesse ser possível restabelecer a realidade, para vivermos num mundo de VERDADE!!! Célia Borges

12 de julho de 2012

DOM OTTORINO ZANON - UM ENSAIO DE HISTÓRIA

Frango, coelho, cabrito. Muita verdura e legumes...o que o colégio Dom Ottorino Zanon produziu, durante mais de duas décadas, era suficiente para alimentar seus alunos, e ainda distribuir o restante entre os demais colégios da rede municipal. Construído e fundado para ser uma escola para crianças carentes, o Dom Ottorino Zanon foi afinal uma completa instituição de ensino, com ênfase no ensino profissionalizante, e que chegou a ter uma gráfica e uma marcenaria, e até uma fábrica de vassouras, para o aprendizado de seus alunos e para conseguir os recursos para sua manutenção. O colégio foi criado pelo padre Flávio Azambuja no início dos anos 60, sensibilizado com o número de crianças órfãs e carentes da região, construído em terreno doado pelo Dr. Arnaldo Marzotto, e com apoio da comunidade local, especialmente os italianos que moravam em Penedo na época. Ele surgiu primeiro como um internato, sob o nome de Lar dos Meninos, mas posteriormente passou a semi-internato, aceitando também meninas, e como Patronato. O ensino profissionalizante foi um dos principais objetivos do colégio, de forma a dotar as crianças ali atendidas de um ofício que lhes garantisse o futuro. No amplo terreno foi iniciada a criação de pequenos animais, assim como uma horta para atender ao ensino de técnicas de agricultura e pecuária, que passaram a abastecer a cozinha do colégio. Com o aumento do número de alunos, e diante da grande área de terreno disponível, a produção também aumentou, chegando a abastecer a merenda de outras escolas, durante os anos 70 e 80, e até mesmo, depois da emancipação de Itatiaia, a rede escolar do novo município. Embora fundado, administrado e tendo professores padres e freiras, foi sempre um colégio leigo, sob o regime da secretaria municipal de educação de Resende até 1989, e após a emancipação, da secretaria municipal de educação de Itatiaia. Com a aposentadoria e falecimento dos religiosos no decorrer dos anos – inclusive do padre Azambuja, que é nome de rua em Resende – foram desmontadas, e vendidos os equipamentos da gráfica e da marcenaria. A criação de animais também foi reduzida, até acabar, restando no início dos anos 90 apenas a horta, assim como o curso de técnico agrícola. O COLÉGIO NUNCA FICOU ABANDONADO: NÓS CUIDADOS DELE O Dom Ottorino Zanon ainda tem na ativa, funcionários que ali trabalham há mais de 30 anos. Com mais de 25 anos, existem vários. É o caso da servente Maria Anália da Silva Esperança, que com 26 anos de serviço, tem o colégio como uma espécie de segunda casa. Alí estudaram seus quatro filhos, um dos quais é hoje engenheiro e trabalha na Embraer. E ali também ela aprendeu muito do que sabe hoje, como corte e costura, que estudou num dos muitos cursos que o colégio ofereceu para pessoas da comunidade, no decorrer dos anos. O curso de corte e costura servia para que as alunas fizessem os uniformes do colégio, e era mantido juntamente com os de crochet, tricot e bordado. “Muitas pessoas aprenderam uma profissão e tiveram meios de ganhar a vida graças aos cursos do colégio, porque além de atender aos estudantes, os padres sempre tiveram grande atenção para com a população. As verduras e legumes, por exemplo, eles vendiam o que sobrava para os funcionários e moradores do bairro”, conta Anália. Na época em que começou a trabalhar no Dom Ottorino, Anália diz que o colégio chegou a ter quase 2.000 alunos, que eram atendidos por onze ônibus escolares, trazendo estudantes de todos os bairros, devido aos cursos profissionalizantes: “Além do curso de técnico agrícola, que durou muitos anos, também teve o curso de formação de professores, e como era um dos poucos da região, vinha muita gente estudar aqui, até de outros municípios”, conta ela, que começou como funcionária contratada, fez concurso há 20 anos e hoje, aos 55 anos, já conta tempo para se aposentar. Maria Anália, que ainda tem dois sobrinhos estudando no Dom Ottorino, faz questão de lembrar que há funcionários mais antigos que ela, como a merendeira Cida, que já trabalha lá há 33 anos. Os professores mais antigos já estão lá tanto tempo quanto ela, cerca de 26 anos. Ela mesma quando fez concurso, teve a chance de trabalhar em outro lugar, mas preferiu ficar: “Essa escola é um caso de amor. Muita gente que chega aqui, não quer sair mais” comenta Anália, sorrindo. Ela só fica séria quando se pergunta pelas dificuldades que a escola passou há alguns anos, depois de perder os cursos profissionalizantes e ter passado mais de dez anos sem manutenção: “Não gosto de falar disso, porque não quero me meter em política. Só posso dizer que a escola não ficou abandonada, porque nós não deixamos. Vamos dizer que ficou meio adormecida. Mas nós cuidados dela nesses tempos difíceis, e é uma alegria ver que agora ela parece renascer, toda novinha e bonita”, diz ela. Maria Anália se refere às obras, que estão sendo concluídas neste mês de julho, e que reformaram completamente o colégio, do telhado ao piso. “Só tenho pena que não tenha mais os cursos profissionalizantes. Os jovens de hoje precisam muito aprender uma profissão, isso seria muito importante para não ficarem desocupados nem cair no vício”, diz ela. PORQUE UM ENSAIO DE HISTÓRIA Considero o texto acima um ensaio, porque ele é apenas um esboço de uma história muito mais ampla, e que eu gostaria muito que os leitores ajudassem a escrever. Ainda pretendo entrevistar, para jogar um pouco mais de luz sobre o assunto, outros funcionários antigos do colégio. Mas gostaria de ter contato com pessoas que tivessem estudado e trabalhado lá nos anos 60, 70 e 80, para que pudéssemos resgatar nomes, fatos e datas, e assim reconstituir uma história que, estou certa, deve ter muitos belos capítulos. Considero que a história é uma ciência dinâmica, e não aquele grupo de conhecimentos armazenados nos livros da estante. Aquilo que vivemos e fazemos, as nossas experiências pessoais, fazem parte de uma cadeia de informações que em algum momento vão se transformar em história. A nossa história individual é reflexo da nossa época, e partilha-la é uma forma de reconstituir o mosaico de conhecimentos sobre o momento em que vivemos. Assim, quem tiver a sua história dentro dessa história, seja benvindo para conta-la. Tive grande prazer em pesquisar e escrever esse pequeno ensaio de história, e tenho enorme alegria em partilha-lo com vocês. Célia Borges

16 de outubro de 2011

ALDEIA GLOBAL – O Horror Econômico, a Febre de Poder e a retomada de consciência do cidadão comum

A economia global já vem dando, há alguns anos, demonstrações de que segue como um trem fora dos trilhos... e que agora ameaça descarrilar de vez. Guiados por um conceito que toma a ganância como atitude muito natural, e refém dessa figura mítica em que se transformou o tal de “mercado financeiro”, para a qual o lucro é o único objetivo, a política e os negócios internacionais – através das pessoas que os exercem – foram tomados pela “febre de poder”, que desviou o foco das necessidades coletivas das populações, para se concentrar nos interesses corporativos de uma minoria de privilegiados...que são apenas os deles mesmos.
Assim, as manifestações populares iniciadas há poucos dias em Nova York - questionando as condições em que vem sendo gerenciada essa economia global - e que vêm se alastrando por outros países, não são exatamente uma surpresa. Aliás, sinceramente, acho que demoraram muito. Foi preciso que o nó apertasse o coração daquela que é ainda maior economia global, os Estados Unidos, para surgir uma reação à altura do problema. Num mundo em que só o dinheiro manda, fala mais alto quem ganha mais. Mas foi só os norte-americanos darem o primeiro grito, que a zoeria se espalhou... e agora as populações pelo mundo afora começam uma monumental retomada de consciência, e indo para as ruas na tentativa de dar um basta a esse estado de especulação e expropriação que nos assola, nos mais variados níveis.
O grande problema da economia global é que seus gestores, cansados de enganar “os trouxas”, também pretenderam dar uma volta na matemática, mas a ciência exata não é tão complascente como as pessoas, e chegou uma hora em que a conta não fechou mais. Parece brincadeira, mas é simples assim. Ninguém pode esperar lucrar sempre e mais, mas essa é a proposta das Bolsas de Valores. Não há como o crescimento aritmético das populações e das suas riquezas possam acompanhar uma busca de lucros em progressão geométrica. Mas o mercado financeiro se comporta como um dragão alucinado, que precisa de sempre mais. E quando falta dinheiro, maquia-se as contas, e inventa-se riquezas onde não existem... porque afinal, alguém vai pagar por isso, e não é o irresponsável que fez essa conta.
Todo esse quadro que hoje vivemos já foi – e muito bem – delineado, num livro que acompanha as minhas insônias há mais de uma década, “O Horror Econômico”, da ensaísta francesa Viviane Forrester. Publicado na França em 1996, e com edição brasileira em 1997, o texto nos mostra bem a dimensão da cegueira que já predominava no campo econômico, desde aquela época, na medida em que a remuneração do capital extrapolava condições realistas, em detrimento da remuneração do trabalho e outros investimentos não financeiros. O resultado dessa equação maldosa seria o do desemprego crônico de parcelas das populações, o que só vem se confirmando com o passar dos anos.
É lamentável que os doutos economistas, de aquém e d´além, com tanto acesso a informações, não tenham vislumbrado as conseqüências, e tentado evitá-las à tempo. Mas há o miraculoso fato de quanto os economistas são dados à sua própria prosperidade, como poderemos verificar nos currículos daqueles que foram autoridades no nosso país. Vários viraram banqueiros... essa deve ser a vocação natural de muitos economistas. Mas o fato é que não me lembro de nenhum que tenha levantado uma voz relevante, para avisar que navio muito pesado tem tendência para afundar.
E enfim, esse é que me parece o grande problema da economia global, o fator humano, e a febre de poder daqueles que detém os nossos bens – como o tal mercado financeiro – e os nossos destinos – os governantes de países e grupos de países. Como lembrar a quem anda de avião particular, transita em limusines, e vive em ambientes climatizados, que há gente com fome lá fora, que há desempregados sem ter como sustentar suas famílias, que a pobreza gera violência que afeta aos trabalhadores...eles já sabem muito bem de tudo isso, e têm a firme intenção de resolver todos esses problemas nos próximos anos... quando já tiverem realizado todos os seus próprios sonhos de consumo e de grandeza!!!!
Tenho a desagradável impressão de que, apesar de toda a “civilização” e tecnologia, nos aspectos humanos, continuamos séculos atrasados, sendo os reis e imperadores antigos, substituídos por novos déspotas econômicos, que decidem os nossos destinos ao sabor de suas ambições por mais e mais riqueza. O conceito de democracia está longe de atingir, se não a igualdade, mas pelo menos um certo equilíbrio econômico. Quem tem algum dinheiro, quer sempre mais... quem tem algum poder, não quer jamais abrir mão dele. E quem não tem poder nem dinheiro, vai reivindicar o quê e quando? Se o foco é cada vez mais poder e lucro, quando vai sobrar tempo e recursos para a ética, a igualdade, a fraternidade... tudo isso que todos os partidos, religiões e seitas pregam à exaustão, e que as corporações também prometem, sem a menor intenção de respeitá-las ou cumpri-las.
As manifestações que se multiplicam por países de todos os continentes, e mesmo descontando as motivações locais de muitas delas, confesso que me dá um certo alívio. Eu já vinha me perguntando que mundo é esse em que eu vivo, que apesar de toda a literatura de ficção, vem desembocando num 1984 atrasado, num Admirável Mundo Novo, num verdadeiro “rock-horror-show” sem Inteligência Criativa...Credo!!! Deve ser por isso que estou fazendo – e precisando muito – de terapia. O Horror Econômico, até além do que previa Viviane Forrester, está aí, batendo à nossa porta, e além de protestar, acho que nem sabemos mesmo o que é o caso de reivindicar.
Será que existe uma fórmula para combater o princípio da ganância que nos contagia, e que nos mantém prisioneiros da arrogância de quem tem mais dinheiro ou poder? Será que o erro está só nos outros, nos poderosos, ou também somos cúmplices, quando e se fazemos parte dessa corrente do lucro a qualquer preço? No momento em que temos a chance do “botar o nosso bloco na rua” para engrossar o coro em defesa de uma democracia verdadeira, que seja também uma democracia econômica, é tempo de também reconsiderarmos nossas próprias posições, e avaliar até que ponto estamos prontos para essa nova realidade, de retomar a consciência dos nossos papéis como cidadãos, e nos decidirmos a intervir na realidade.
No Brasil, além das motivações internacionais, temos razões demais para protestar. Em nenhum outro país se paga tanto imposto, em nenhum outro os juros são tão altos, pagamos caro para combater a miséria, mas ainda assim as filas nos hospitais são intermináveis, o atendimento na área de saúde é pra lá de lamentável...populações continuam habitando em áreas de risco, e morrendo às centenas à cada ano...a educação está sempre abaixo da crítica, não temos mão de obra adequada para um crescimento em expectativa...e a corrupção leva embora grande parte dos recursos que poderiam ser investidos em tudo...ainda vivemos na idade dos feudos eleitorais... São tantos os nossos problemas, que é difícil até decidir por onde começar.
A “febre do poder” é uma doença para a qual não se descobriu a cura, nem se desenvolveu nenhuma vacina. Ela se manifesta na forma da arrogância daqueles que chegam à uma situação privilegiada, e assim se acham superiores a todos e à tudo. Acomete sobretudo autoridades, como presidentes, senadores, deputados, juízes... e até categorias menos cotadas, como os reles vereadores.... até a pseudo-autoridades, como carguinhos em comissão, de gente que não sabe mandar nem em si mesmo...
Célia Borges

26 de maio de 2011

BIODINÁMICA - Workshop com Ebba Boysesen e novas turmas em Resende




A psicoterapeuta norueguesa Ebba Boyesen, filha de Gerda Boyesen e cofundadora da Psicologia Biodinâmica, encontra-se em São Paulo para realizar workshop sobre o tema nos dois próximos fins de semana, 28 e 29 de maio, e 4 e 5 de junho. Radicada em Londres, e responsável pela formação de psicoterapeutas nessa abordagem desde 1971, Ebba aprofundou a raiz reichiana da Psicologia Biodinâmica, e mostrará os desdobramentos de seu percurso nesse campo.
O primeiro encontro, nesse próximo fim de semana, terá o tema “Análise Segmentar e o Mapa Corporal Emocional, onde partindo da visão reichiana relativa à disposição segmentar da couraça muscular do caráter, ela desenvolve uma proposta inovadora de Vegetoterapia, na qual propõe uma nova divisão dos segmentos e inclui o toque como parte do processo. Tem como objetivo restabelecer o fluxo energético e a autorregulação do organismo. Neste trabalho articula o pensamento de Wilhelm Reich, Gerda Boyesen (sua mãe), Frederico Navarro e Stanley Keleman.
No seguinte, 4 e 5 de junho, o tema será a Psicoenergética, onde, om base na Orgonomia de Wilhelm Reich, Ebba aborda a angústia do prazer, o desbloqueio do reflexo orgástico e aspectos do manejo da agressão frustrada, no sentido de canalizá-la para uma ação criativa. O local é Rua Fidalga 521, Vila Madalena, SP.

NOVAS TURMAS EM RESENDE
Com as atividades iniciadas em meados de março passado, o Grupo de Movimento Biodinâmico, em Resende já está rendendo frutos, e novas turmas já começam a ser formadas. O trabalho é coordenado pela psicóloga Líliam Motta, em formação na especialidade pelo Instituto Brasileiro de Biodinâmica.
Os interessados podem obter maiores informações, e inscrever-se, com a própria Liliam Motta, pelo telefone (024) 9251-8442. Ela esclarece que a atividade utiliza várias técnicas de psicoterapias corporais, aliando a dança ao teatro, eutonia, fisioterapia e ioga, entre outras.

13 de março de 2011

ALDEIA GLOBAL - Malu Santa Rita (02/10/1946 – 10/03/2011)

Uma das minhas melhores amigas partiu. E o melhor que posso fazer no momento é escrever sobre ela, enquanto me lembro dos bons momentos que partilhamos nesse nosso encontro tão transitório que é a vida. Tinhamos muito em comum, e também muitas diferenças. O que mais me lembro é do quanto nos divertíamos uma com a outra, o quanto ríamos por conta de um senso de humor que acreditávamos ser peculiar das mulheres librianas... e por tantas outras afinidades que nos faziam ser “irmãzinhas”, “bruxinhas”, e assim partilhar tanto alegrias, quanto tristezas e preocupações. E me lembrar de quantas vezes oferecemos os ombros, uma à outra, e de quanto levamos à sério e honramos aquele que é o mais puro e nobre dos relacionamentos, a amizade.
Poderia escrever um livro sobre as experiências que partilhamos entre 1985, quando nos conhecemos, até 1995, quando por conta de ter ido morar no Rio, passamos a permanecer menos próximas. Nossos em encontros eventuais sempre foram a celebração do prazer dessa amizade, e mesmo quando não concordávamos em alguma coisa, sempre lidamos com essas diferenças com a delicadeza típica das librianas, essa espécie de linguagem mágica que transformou nossos momentos de convivência, quando não de alegria e prazer, pelo menos de saudáveis desafios. Com infinita saudade, segue o que me lembro sobre ela:
Dinâmica, empreendedora, voluntariosa. É assim que a maioria das pessoas que a conheceram, vai se lembrar da empresária Malu Santa Rita, falecida nesta quinta-feira, 10 de março de 2011. Proprietária do Hotel da Cachoeira, construído e fundado por ela em 1976, foi também uma das principais idealizadoras da Associação de Hoteleiros e Similares do Penedo, criada no início da década de 1980, e que ela presidiu por mais de dez anos. Sob sua liderança, até meados dos anos 90, o turismo em Penedo ganhou projeção nacional, com a divulgação da Colônia Finlandesa e a criação do Festival de Trutas, entre outras iniciativas. Para garantir esse espaço, ela fez parte das diretorias de diversas entidades estaduais e nacionais ligadas ao turismo, como TurisRio e ABIH, levando o nome de Penedo à feiras, congressos e exposições turísticas em todo o país.
Maria Lúcia Nogueira Santa Rita, nasceu na cidade de Santos-SP, no dia 2 de outubro, há 64 anos. Comunicação, arte e moda foram seus interesses, até que veio à Penedo como turista, no início da década de 70, e hospedada no Hotel Daniela, ficou tão encantada com o lugar que em pouco tempo adquiriu o terreno vizinho àquele hotel, construindo o seu próprio, o Hotel Cachoeira, que está completando 36 anos. Casada na época com o jornalista Chico Santa Rita, com fácil acesso aos meios de comunicação, Malu viu em Penedo um filão turístico com grandes possibilidades de sucesso, e que valia à pena explorar. Mas sua visão empresarial lhe mostrava que era preciso trabalhar em conjunto, e assim ela passou a se mobilizar pela criação de uma entidade representativa, a Associação dos Hoteleiros e Similares do Penedo, que veio dar um aspecto formal às diversas ações visando o crescimento turístico local.
Naquela época, início dos anos 80, havia uma peculiaridade em Penedo, que era de serem mulheres a maioria do empresariado - tanto nos hotéis, quanto em restaurantes e lojas de artesanato - o que resultou numa diretoria da associação quase exclusivamente feminina. Unidas em torno de diversos projetos, sempre presentes às reuniões, esse grupo ficou conhecido como o “matriarcado do Penedo”, e que conciliando fortes laços de amizade com as necessidades das suas atividades profissionais, conseguiram promover eventos, e criar momentos inesquecíveis, na história cultural e social desse recanto encantador.
Após a emancipação de Itatiaia, em 1989, Malu Santa Rita teve papel relevante na organização do setor no novo município, empenhando-se pela criação do Conselho Municipal de Turismo, do qual fez parte. Amiga pessoal do prefeito Luis Carlos de Aquino, e uma das idealizadoras do Parque Temático Casa do Papai Noel, trabalhou incansavelmente pela desapropriação do terreno, que acabou tendo que ser comprado por um grupo, e pela implantação do empreendimento, do qual acabou se afastando, juntamente com um grupo de sócios originais, para dedicar-se prioritariamente ao seu próprio negócio. Além do hotel, ela administrava nessa época também um novo empreendimento, a agencia de turismo CachoeiraTour. E estudava e trabalhava para especializar-se em turismo de negócios, visando a atender às novas empresas que chegavam à região.
Seus esforços em busca do sucesso do Penedo, e sua maneira de ser, voluntariosa, nem sempre foram bem compreendidos, e após uma seqüencia de decepções pessoais e profissionais, Malu radicou-se em São José dos Campos, SP, há cerca de cinco anos. Há pouco mais de um ano foi diagnosticada como portadora de um hepatocarcinoma (câncer de fígado) tendo se submetido à quimioterapia, além de outros tratamentos. Apesar da doença, mantinha-se corajosa e só aparentando-a pela excessiva magreza. Decidida e independente, nos últimos dias optou por fazer uma dieta hídrica, na tentativa de reduzir um inchaço na barriga, e também a ocorrência de enjôo e vômitos. Seu quadro, entretanto, piorou, tendo sido hospitalizada no dia 7, e preferindo voltar para casa, e no dia 8, quando ficou inconsciente, situação que não se reverteu até seu falecimento, nesse dia 10 de março.
A última visita de Malu à Penedo foi no feriado de 12 de outubro de ano passado, sendo que depois dessa data não conseguiu mais suportar a viagem. Antes ela vinha regularmente, e mesmo de São Paulo ela se mantinha na administração do hotel, que vinha tentando vender. Seu último contato com o hotel foi no dia 6 de março, quando resolveu questões administrativas com seus assessores. Destemida como sempre, e disposta a enfrentar a doença, no dia 4 de março ainda foi ao supermercado com a empregada. Nos contatos com os amigos, sempre se mostrava disposta, e falando dos seus próximos compromissos. A mulher bela e inteligente que conhecemos, partiu altiva e corajosa, como sempre.
Célia Borges