29 de abril de 2008

PAISAGISMO E JARDINAGEM IX – Homenagem à Margaret Mee, a Dama das Orquídeas


O trabalho de jornalista nos leva, frequentemente, à situações surpreendentes e inesperadas. Algumas dessas circunstâncias conseguem mudar nossa vida, nossa visão do mundo, nossas áreas de interesse. Para mim, um desses momentos mágicos aconteceu quando tive a sorte e o privilégio de conhecer Margaret Mee. Essa mulher extraordinária, de pouco mais de um metro e meio de altura, conseguiu despertar o meu interesse pela botânica, a minha paixão pelas orquídeas, e como um desdobramento natural, minha dedicação à jardinagem e ao paisagismo.

Nosso primeiro encontro ocorreu em 1973, pouco depois de eu ter completado 22 anos. Apesar de três anos de militância na imprensa, e de já ter meu registro profissional, me considerava ainda uma principiante. Minhas áreas de atuação era, prioritariamente, esporte, educação e cultura. Sempre fui encantada com plantas e flores, mas não sabia nada à respeito, a não ser lembrar dos esforços da minha avó Mariquinha, nos canteiros de sua casa. Parti para a entrevista completamente insegura.

A motivação para a matéria era a exposição de seus trabalhos, inaugurada no dia 3 de outubro, e que ficou três semanas na Moorland Gallery, em Cork Stret, Londres. Os cerca de 30 desenhos expostos eram fruto de suas viagens à Amazonia realizadas desde 1968, sendo que alguns já haviam sido publicados pela Tryon Gallery, também de Londres, no livro “Flowers of the Brazilian Forrest”. Fiquei surpresa ao descobrir que ela já preparava um novo livro sobre o assunto. Poucas pessoas no país, naquela época, conheciam seu trabalho.

Margaret Mee era uma exploradora britânica – e botânica – da Amazônia, que já naquela época havia descoberto oito espécies desconhecidas de plantas silvestres. Aos 64 anos, já havia feito sete viagens de canoa pelo interior daquela região, coletando plantas. Ardente conservacionista, ela se preocupava em preservar as raízes das plantas coletas, para garantir nova brotação.

Depois registrava a planta em aquarelas, reproduzindo todos os seus detalhes, oferecendo em seguida os exemplares ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que em sua homenagem deu o nome de Aechmea Meeana a uma bromeliácia da família dos abacaxis, descoberta por ela em 1971, nas terras pantanosas da Amazônia.

Nascida em Chesham, no condado de Buckingham, Inglaterra meridional, estudou em Londres na St. Martin’s School of Art, na Central Schol of Art anda Design e na Camberwell Scholl of Art, onde foi aluna de Victor Passmore, famoso artista britânico. Em 1952 veio para o Brasil em companhia do marido, o artista Greville Mee, e deu aulas de arte durante cinco anos na escola britânica de São Paulo. Fez, nesse período, inúmeras exposições entre São Paulo e Rio de Janeiro, e também nos Estados Unidos, no Smithsonian Institute of Washington.

Nessa primeira entrevista, que deveria ter durado uma ou duas horas, mas se prolongou até as tantas da noite, aprendi muitas coisas com ela. E ouvi histórias emocionantes, de como ela já havia escapado inúmeras vezes de onças, tarântulas e piranhas, no meio da mata, e em companhia apenas de um guia.

Uma das que mais me impressionou, e que nunca mais esqueci, foi do momento em que, precisando retornar ao ponto de contato, antes da cheia do rio, encontrou uma enorme cobra enrolada em sua rede de dormir, equipamento imprescindível na seqüência da viagem, e precisou que esperar que a cobra espontaneamente deixasse o lugar, embora correndo o risco de ficar isolada em situação de extremo risco. Levava sempre um revolver como medida de segurança, mas se orgulhava de nunca ter precisado usa-lo.

Ela me cativou em todos os sentidos, e nos anos seguintes procurei estar sempre atenta e sintonizada com seu trabalho. Tivemos mais uma entrevista, em anos seguintes, na volta de mais uma das suas viagens. Apesar da baixa estatura, da aparência frágil, e tendo como agravante uma certa dificuldade de locomoção em conseqüência de uma cirurgia na bacia, Mrs. Mee fez ainda muitas viagens à Amazônia nos anos seguintes, produzindo uma obra memorável.

Amiga de Burle Marx, se esmerava em dividir com ele seus achados. No momento em que a conheci, preparava-se para a oitava viagem à Amazônia, em junho de 1974, onde explorou o rio Nhamundá, em busca de espécies raras de orquídeas e clusias. Realizou ainda muitas, depois disso, deixando um patrimônio artístico e botânico admirável, que pode ser conhecido através dos seus diversos livros publicados e da instituição que leva seu nome, Fundação Margaret Mee. Também existem duas comunidades no Orkut em sua homenagem, uma criada por mim, Eu Amo Margart Mee, e outra por um grande amigo, Pajeh Índio do Bem, sob o título A Dama das Orquídeas.

Célia Borges

28 de abril de 2008

ATENÇÃO – Notícia importante para quem é credor de dívidas do governo estadual (Precatórios)

A Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio de Janeiro, vai promover, no próximo dia 9 de maio, em sua sede – Av. Mal. Câmara, 150 – 90 andar – o evento “Precatórios Judiciais – Solução Já”. O encontro está sendo organizado pela Comissão de Defesa dos Credores Públicos, e contará com a presença do Ministro Luiz Fux, do Superior Tribunal de Justiça além de diversos outros juristas, e representantes do governo estadual.

É importante a presença do maior número possível de pessoas, para demonstrar publicamente a indignação diante do descaso dos governantes que lidam com a questão e permanecem inadimplentes com seus credores, em muitos casos por mais de 20 anos.

Só no estado do Rio de Janeiro existem aproximadamente 50 mil pessoas, entre os que tiveram propriedades desapropriadas, aposentados e pensionistas lesados em seus direitos, professores, policiais e outras categorias profissionais que em algum momento deixaram de receber valores que lhes eram garantidos por lei. Pessoas que, embora tenham ganho seus processos na Justiça, continuam sendo lesadas ou desrespeitadas, já que o poder público não cumpre suas obrigações.

Não é possível mais ficar de braços cruzados, precisamos buscar nossos direitos, e esse evento será um marco para o registro da importância que a causa tem para a sociedade. A presença do maior número de pessoas possível poderá resultar numa manifestação popular, paralela ao evento, onde teremos oportunidade de expor faixas, cartazes e “bater panela” para mostrar que não estamos mais dispostos a ficar omissos e continuar prejudicados nessa questão.

Célia Borges

27 de abril de 2008

Em memória de Élio Gouvea

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Ele era um homem pequeno, a pele morena ainda mais acentuada pela vida ao ar livre, dono de um olhar inquisitivo, que parecia estar sempre querendo ver além, através de coisas e pessoas. O biólogo Élio Gouvêa era também extremamente bem educado, o que não quer dizer que fosse sempre simpático: uma pontinha de mau humor, e uma certa impaciência com tudo o que achava “perda de tempo” não impediam, entretanto, que quem o conhecesse melhor, acabasse admirando-o, e descobrindo que por trás da expressão sisuda havia um homem culto, entusiasmado, encantador.
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Élio Gouvea foi um incansável pesquisador e defensor do meio-ambiente
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Durante os mais de cinqüenta anos em que viveu em Itatiaia, a maior parte do tempo como funcionário do Parque Nacional, realizou uma grande quantidade de trabalhos de relevante contribuição científica, foi um ativo professor, orientou e incentivou pesquisas, além de ter sido um incansável líder na luta pela proteção do meio ambiente e em defesa da ecologia.
Élio Gouvêa nasceu em Santa Leopoldina-ES, em 25 de setembro de 1924, e viveu no Rio de Janeiro entre 1940 e 1943, quando concluiu o curso de horticultura na Escola Wenceslau Belo. Voltou por pouco tempo à terra natal, onde trabalhou com o pai, Mário Gouvêa, na fazenda em Sapucaieira. No ano seguinte foi indicado pela direção da Escola Wenceslau Belo para trabalhar no Parque Nacional do Itatiaia, assim como outros colegas de curso, que possuíam formação técnica em assuntos agronômicos, desenhos e projetos de construções rurais, paisagismo e estudos topográficos.
No dia 15 de junho de 1944 ele desembarcou na estação ferroviária de Campo Belo: um jovem cheio de esperanças, e tomado pela surpresa diante do cenário de inesperada beleza. Sua vinda decorria da necessidade do administrador do parque na época, Dr. Wanderbilt Duarte de Barros, de preencher o quadro de pessoal auxiliar, para atender um programa de trabalho, que iniciou a bem sucedida trajetória administrativa desse grande técnico no Parque Nacional. Contratado do mesmo dia, na função de auxiliar de agrônomo, exerceu o cargo até 1960. Nesse período realizou levantamentos topográficos, desenhos e projetos de estradas, abrigos, residências, jardins e etc.
Devido ao seu interesse e dedicação, foi indicado para fazer um curso intensivo de Museologia, no Museu Nacional do Rio de Janeiro, e outro de Ecologia, na Escola de Agronomia, que na época (1946 -1947) funcionava na Urca. O objetivo desse treinamento era a criação de um museu no parque, que mais tarde se materializou no Museu da Fauna e da Flora, importante referência científica e atração turística do parque durante várias décadas.
No regresso, após esses cursos, Élio Gouvêa passou a responder interinamente pela direção do Parque, devido ao afastamento do diretor Wandebilt Duarte de Barros, por motivo de férias. Nesta oportunidade ficou também responsável por acompanhar a naturalista e especialista em anuros, Dra. Berta Lutz, que em companhia de seu irmão, o médico Dr. Gualter Lutz, veio para estudar a região dentro da sua especialidade.
A vinda dessa naturalista para Itatiaia foi muito importante para Élio Gouvêa, pois com ela deu seus primeiros passos na atividade científica. Aos poucos, por sua influência, começou a enxergar e a ouvir os anuros, tendo sido incentivado à percebê-los inspirado no carinho e atenção que a Dra. Berta tinha por eles. Nas quatro viagens que ela fez à região – 1947, 1950, 1951 e 1957 – foram identificadas novas espécies, assim como realizadas coletas de espécies raras de altitude, cujo levantamento reuniu mais de 60 espécies geográficas, sendo consideradas de uma fauna excepcional.
Em dezembro de 1949 foi iniciada a organização do Museu da Fauna e da Flora, com o levantamento da fauna de vertebrados, após convênios assinados com o Serviço Florestal do Ministério da Agricultura e com o Departamento de Zoologia da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, tendo participado ativamente dessa inciativa. Essa época marca o início, também, de uma trajetória profissional de Élio Gouvêa, voltada para a conservação do Meio Ambiente, com sua especialização cada vez mais inclinada para a Ecologia.
A experiência prática exigia cada vez mais conhecimentos teóricos, e assim, com quase cinqüenta anos, empreendeu sua graduação em ciências biológicas, pela Sobeu, tendo se formado em 1976. Fez vários cursos antes e depois, como pós-graduação em Recursos Naturais da OEA, pós-graduação em Metodologia do Ensino Superior pelo Cecope-Sobeu, além de estágios no Instituto Oswaldo Cruz e Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Em seu currículo estão ainda cursos como Biogreografia do Itatiaia, Observação e Anilhamento de Aves, além de uma infinidades de congressos, seminários e simpósios relacionados com o Parque Nacional do Itatiaia.
Participou também de inúmeras atividades de intercâmbio científico entre o Parque Nacional e entidades como o Museu Nacional, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Fundação Oswaldo Cruz, Serviço de Defesa Vegetal do Ministério da Agricultura-RJ, Serviço Florestal-RJ, Instituto de Botânica-SP, Serviço Florestal de Cantareira-SP, Instituto Butantã, Instituto de Ecologia e Experimentação Agrícola-SP, Instituto Biológico-SP, Departamento de Zoologia-SP, Parque da Água Branca-SP, Museu do Café de Ribeirão Preto-SP e Horto Navarro de Andrade, da Água Branca-SP.
Após 20 anos de dedicação, afastou-se do Parque Nacional em 1964, por motivo de saúde, retornando em 1970 por solicitação do presidente do IBDF, para reformular o acervo de exposição do Museu da Fauna e da Flora. Em março de 1976 foi classificado para a função de auxiliar de assuntos culturais do Parque. Participou como instrutor e coordenador da Operação Mauá, no parque; do V Curso de Anilhamento de Aves em 1982; requisitado pelo IBDF, integrou a equipe de levantamento florestal de essências nativas em Minas Gerais; admitido como professor de Zoologia da Sobeu, lecionou de 1980 a 1991, tendo respondido pelo Departamento de Zoologia dessa universidade, onde foi também professor pesquisador.
Como defensor do meio ambiente, criou, em 15 de junho de 1987, no cinqüentenário, e presidiu por muitos anos, a Apropani – Associação Pró-Parque Nacional do Itatiaia, tendo anteriormente dirigido também do Mover – Movimento Ecológico de Resende. No dia 10 de junho de 1996 assumiu a cadeira 14 da Academia Itatiaiense de História, que tem como “patronesse” a Dra. Berta Lutz, vindo a falecer em 19 de julho de 1999. As fontes desse texto foram o discurso de cerimônia de sua posse na Acidhis, por sua filha caçula Edinamara Gouvêa, e a primeira Revista da Acidhis, de 2005.

25 de abril de 2008

ITATIAIA HISTÓRICA – Contribuições científicas e visitantes ilustres na área do Parque Nacional


A pesquisa que se segue não é de minha autoria. Apenas tive a oportunidade de trabalhar nela como revisora e redatora, tendo sido responsável pela síntese e adaptação do texto, além da atualização dos dados. Foi escrita pelo biólogo Élio Gouvêa, falecido em 1996, e só me atrevo a publicá-la nesse espaço em sua homenagem, e para que esse trabalho não corra o risco de ficar esquecido. Rogo aos eventuais pesquisadores do texto que dêem crédito ao seu legítimo autor.

“Antes de fazer qualquer comentário sobre a existência do Parque Nacional do Itatiaia, é necessário reportar-me a fatos históricos e científicos que deram origem à criação da primeira unidade de conservação do Brasil. O movimento de elevado nível científico-cultural dos viajantes naturalistas que passaram por aqui teve início há 186 anos, e levou a região do Itatiaia a ser conhecida mundialmente.

As viagens desses estudiosos ao Brasil se deram graças à abertura dos portos, em 1808. Muito antes da criação do parque, em 1937, especialistas botânicos, zoólogos e geólogos, descobriram no maciço do Itatiaia, mais especificamente no planalto, que havia algo novo e surpreendente para todos: o revestimento florístico era inteiramente desconhecido para a ciência, rico em endemismos; uma fauna também bastante rica, e adaptada ao rigor das condições climáticas do altiplano. E o aspecto topográfico rochoso foi por muitas décadas assunto polêmico sobre suas origens, atribuídas primeiramente ao peri-glacial, depois vulcânica, e finalmente, de magma intrusivo.

Tais informações se propagaram rapidamente, trazendo para esta região não apenas naturalistas pesquisadores, mas sobretudo pessoas ilustres, que puderam avaliar de perto o que lhes fora comentado e descrito pelos viajantes. O aspecto cênico da região foi amplamente apreciado, desde a topografia acidentada até a exuberância da flora, da fauna e das águas límpidas e encaichoeiradas, que justificam sua condição impar como região turística.

Inúmeros naturalistas visitaram Itatiaia em missão científica. Podemos dividi-los em quatro períodos: de 1822 a 1899, com doze cientistas; de 1899 a 1930, com outros 21; de 1930 a 1960, num total de 48; e finalmente, desde 1960 a 1992 quando encerramos esse levantamento, outros 11. Das 92 referências biográficas, apenas 22 eram do Brasil, e os demais, de estrangeiros.

O primeiro visitante a pesquisar Itatiaia foi o botânico Auguste Saint-Hilaire (1822), seguido de outros botânicos como Frederic Sellow (1830), e Auguste François Marie Glaziou (1872), primeiro a escalar as Agulhas Negras em companhia da Princesa Isabel. O quarto naturalista botânico foi H. Wawra Ritter von Fernsee (1879), viajando em companhia dos príncipes de Sachsen-Corburg.

Em meados de 1872 passaram pelo vale do rio Paraíba do Sul, rumo à São Paulo, dois naturalistas importantes, Spix e Von Martius, em missão zôo-botânica, sendo responsáveis pela classificação de centenas de animais e plantas brasileiras. Desta viagem pelo Brasil foi editada uma coleção de 23 volumes da “Flora Brasiliensis”, ilustrada com centenas de gravuras e desenhos, com detalhes das plantas estudadas. Na ocasião de sua passagem pela região foram identificados apenas remanescentes arbóreos da flora atlântica.

As referências mais significativas ocorreram à partir de 1894, com Ernesto Ule, sub-diretor do Museu Nacional, e do botânico sueco Pér Karl Hialmar Dusén (1902/1903) cujos resultados encontram-se arquivados no Museu Nacional e no Arkiv for Botanik (volume 8, n0 7 e volume 9, n0 5) da Real Academia da Suécia, e mais tarde publicado no boletim n0 4 do Parque Nacional do Itatiaia, sob o título “Contribuições para a flora do Itatiaia”.

À partir de 1913 diversos pesquisadores botânicos brasileiros também contribuíram, sendo eles Firmino de Tamandaré Toledo Jr. (1913), Alberto J. de Sampaio (1927), Paulo Campos Porto (1914/1938), G. F. Edmundo Pereira e Eduardo Cunha Melo (1951) e muitos outros. Este último, agrônomo, desenvolveu o “Estudo dendrológico de essências florestais do Parque Nacional do Itatiaia e os caracteres anatômicos de seus lenhos”, publicado no boletim n0 2 do Parque Nacional.

No entanto a obra científica mais importante sobre a flora de região foi escrita por Alexandre Curt Brade (1913/1954) sob o título “A Flora do Parque Nacional do Itatiaia”, boletim n0 5 (1956), descrevendo inúmeras espécies novas, relacionando mais de uma centena de plantas endêmicas e identificando outras tantas consideradas exóticas, procedentes dos Andes peruanos, Austrália e Europa.

As primeiras coleções do herbário registradas no acervo do parque datam de 1913, para as quais, além de Brade, contribuíram também Paulo Ochioni, Graziela Barroso, F. S. Viana e ainda os professores Alberto Castellanos, da Argentina, H.F. Martins e J.P.P. Carauta, resultando de suas colaborações o trabalho publicado no Boletim n0 8 (1956) sobre as pteridófitas da região. À partir de 1943, com a vinda do Dr. Wanderbilt Duarte de Barros para a direção do parque, reiniciaram-se as coletas botânicas, sendo construídos os móveis de exposição e arquivo do antigo Museu da Fauna e da Flora, recentemente desativado pelo governo federal.

Na fauna regional figuram inúmeras referências zoológicas, entre vertebrados e invertebrados, onde os primeiros registros foram da avifauna e anuros, coletados por Carlos Moreira e Ernest Hemmendorff (1901/1903), seguidos pelo zoólogo Alípio de Miranda Ribeiro (1904), relacionando 43 espécies de aves, estudando e classificando anuros, répteis e pequenos mamíferos, além das duas únicas espécies de peixes da região, e cujos trabalhos encontram-se no Arquivo do Museu Nacional (1905).

O Museu Paulista estudou a avifauna dos campos do Itatiaia, enviando vários ornitólogos à partir de 1906. Em 1907 Charles E. Hellmayer publicou considerações sobre algumas novas espécies descobertas. Entre 1921 e 1922 o Museu Nacional volta a estudar a região, trazendo Pedro Pinto Peixoto Velho, cujo relatório de viagem foi publicado no Arquivo do Museu Nacional (1923).

Entre os pesquisadores que estudaram a avifauna do Itatiaia, o ornitólogo norte-americano Ernest G. Holt, que aqui esteve entre 1921 e 1922, foi o cientista de maior significado, elevando a lista de aves para 150 formas geográficas. Deste trabalho tem-se notícia apenas bibliográfica, tendo sido publicado no Boletim do Museu Americano de História Natural, sob o título “Ornitholgical Survey of the Serra do Itatiaia – Brazil”. Suas referências foram citadas por Olivério Pinto, no Boletim n0 3, “Aves do Itatiaia” (1954).

Dando continuidade ao estudo dos vertebrados, visitou Itatiaia a naturalista Berta Lutz, especialista em anuros e pesquisadora do Museu Nacional. Procedeu-se então o estudo dos anfíbios, identificando 64 espécies, e descrevendo novas formas dos gêneros Hyla, Hylodes, Holoaden, Crossodactylus e Megaelosia. Boa parte desse material encontrava-se no acervo cientifico do parque, recentemente desativado e distribuído entre outras instituições, e o Museu Nacional. (Obs: outras espécies de anuros foram descritas por Élio Gouvêa, autor desse texto, sozinho e em parceria com o professor Eugênio Izekson, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro).

Em função da criação do Museu da Fauna e da Flora vieram novos pesquisadores, publicando trabalhos como “Mamíferos do Parque Nacional do Itatiaia”, de Fernando Dias Ávila-Pires e Élio Gouvêa, no Instituto Oswaldo Cruz; o zoólogo Rudolf Barth (1958/1960) produziu dois trabalhos, o primeiro sobre “A Fauna do Parque Nacional do Itatiaia” e o segundo sobre “Órgãos odoríferos dos Lepidópteros”, boletim n0 7 (1960).

A fauna insecta foi minuciosamente estudada por vários especialistas. Entretanto foram José Francisco Zikan e seu filho Walter Zikan (1923/1954) os que mais contribuíram para o levantamento biológico e sistemático da insectofauna regional, produzindo uma das mais famosas coleções do extinto museu. Entre os trabalhos por eles desenvolvidos, o mais importante é o estudo sobre vespas, registrado no Boletim n0 1, “O gênero Mischocytarrus Sassure (Hymenosptera Vespidae), com a descrição de 82 espécies novas (1949).

Sua coleção particular somou mais de 30 mil espécimes, e foi adquirida pelo governo federal, ficando depositada no Instituto Oswaldo Cruz (RJ). O diretor do parque, Dr. Wanderbilt Duarte de Barros, procurou novos pesquisadores, como os entomologistas Person e L. Travassos (1945), com o objetivo de aumentar as coleções, pois não podia mais contar com Zikan, que veio a falecer em São Paulo.

A geologia também foi estudada, sendo feitas as primeiras notas por J.F. da Silva (1876), porém as principais referências geológicas pertencem a A. Von Lasaulx (1885). Outros estudos foram realizados: A.B. Paes Leme (1923) e O. Maull (1930). Porém foi Alberto Lamego quem divulgou um estudo completo do Itatiaia.

Outros geólogos continuaram com as pesquisas: E. de Martonne (1943), M. S. Pinto (1938), J. D. da Silveira (1942), F. Ruellan (1943), R. Ribeiro Filho (1948), Heinz Ebert (1960), D. Teixeira (1961) e finalmente Evaristo Ribeiro Filho e Faustino Penalva (1960 a 1964), que divulgaram excelente trabalho: “Geologia e Petrologia dos Maciços Alcalinos do Itatiaia e Passa-Quatro” e “Geologia e Tectônica da região do Itatiaia” (1967), cuja tese outorgou-lhes os títulos de doutores em geologia”. (Élio Gouvêa)

Célia Borges

Os cem anos dos núcleos coloniais de Itatiaia e Visconde de Mauá

A criação dos Núcleos Coloniais de Itatiaia e de Visconde de Mauá, que promoveu a vinda do maior grupo de imigrantes europeus para a região, está completando cem anos. O primeiro passo foi dado em 30 de abril de 1908, quando o governo do Estado do Rio de Janeiro, representando a União, propôs ao Comendador Henrique Irineu de Souza – filho e herdeiro do Visconde de Mauá – a compra do conjunto de fazendas de sua propriedade no maciço de Itatiaia.
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O negócio foi fechado rapidamente, e no dia 4 de junho do mesmo ano, lavrada a escritura de compra pelo governo federal de 48 mil hectares, englobando sete fazendas e suas benfeitorias, ao preço de 130 contos de réis. E, finalmente, em dezembro de 1908, chegaram os primeiros grupos de colonos, formados principalmente por famílias alemãs. Divididos entre os dois Núcleos, adquirem os lotes vendidos pelo governo federal, que entretanto se compromete a assumir toda a responsabilidade sobre o empreendimento, o que foi mantido apenas até 1916.
O objetivo dos Núcleos Coloniais era a produção de frutas européias, de cereais, tubérculos e a criação de gado de clima temperado, além de pequenos animais. A área dos dois núcleos foi dividida em lotes rurais de 25 hectares, custando de 10 a 20 mil réis o hectare, e lotes urbanos, próximos às sedes, de 3.000m2, a preços de 10 a 40 mil réis por metro quadrado. Quem teve recursos para pagar à vista recebeu seu título de propriedade, mas nas vendas à prazo os colonos recebiam apenas um título provisório. O prazo dado para o início do pagamento das prestações foi até 1911.
Outros grupos de imigrantes europeus foram chegando nos anos seguintes, formados principalmente por alemães, franceses, belgas e italianos, ocupando os lotes ainda disponíveis. Em 1912, por exemplo, chegaram ao Núcleo de Itatiaia doze famílias de colonos holandeses. Nessa época, as despesas da União com a implantação dos núcleos, incluindo a aquisição de terras, construção de casas e estradas, foi avaliada em 307 contos de réis.
O apoio do governo federal cessou em 1916, quando através do decreto 12.083, de 31 de maio, o Núcleo Colonial de Itatiaia foi emancipado, o que já estava previsto, e que significava autonomia para os colonos. Desde então, os lotes que não satisfaziam aos seus proprietários, ou que ainda não tinham sido quitados, puderam ser vendidos. Muitos foram adquiridos por mineiros residentes em áreas vizinhas, para a produção de leite, especialmente na região de Visconde de Mauá. Passaram a ser considerados como “colonos nacionais”.
Essa época marcou também o despertar da vocação turística da região, quando as famílias de origem européia passaram a receber turistas em suas próprias casas. Nos anos seguintes surgiram as primeiras pousadas. Em 1924 Josef Simon comprou o lote 90 do Núcleo de Itatiaia, onde mais tarde construiria o Hotel Simon. Roberto Donati adquire o lote 128, onde em 1931 inauguraria o Hotel Repouso Itatiaia, hoje Hotel Donati. Em Mauá, os Bühler também passaram a se dedicar ao turismo.
A criação do Parque Nacional do Itatiaia, em 14 de junho de 1937, não causou maiores problemas aos colonos, já que o decreto 1.713 dessa data não incorporava os lotes do Núcleo Colonial pertencentes a particulares. Foram incorporados apenas os lotes do Ministério da Agricultura, pertencentes à União e que não tinham sido vendidos aos colonos, além da área da Estação Biológica, num total de 11.943 hectares.
A convivência pacífica entre o núcleo colonial e o Parque, entretanto, começou a ser ameaçada 45 anos mais tarde, em 1982, quando o decreto 87.586, de 20 de setembro, sancionado pelo então presidente João Figueiredo, ampliou os limites da reserva para cerca de 30.000 hectares, incluindo lotes do antigo núcleo pertencentes a particulares, sem definir entretanto que seriam desapropriados, e sem justificativa técnica para incluí-los.
Os descendentes dos colonos do núcleo de Itatiaia, e demais residentes que adquiriram os lotes deles, vêm empreendendo desde então uma incansável batalha judicial em busca de uma solução negociada para o problema. Eles argumentam que, ao contrário de ameaçar a natureza, contribuíram muito para a preservação dessas áreas, que haviam sido anteriormente destinadas à campos e pastagens, e que com a mudança das atividades planejadas, acabaram se transformando em florestas secundárias.
A Associação dos Amigos de Itatiaia – AAI – vem há quase dois anos tentando organizar a festa do centenário do Núcleo Colonial, mas a comemoração foi um tanto comprometida, não apenas pela situação de insegurança em que se encontram atualmente, quanto pelas dificuldades em conciliar projetos e opiniões. Criada em 4 de abril de 1951, a AAI é sociedade civil sem fins lucrativos, que tem como objetivo principal preservar a flora, fauna, águas e belezas naturais da região.
Segundo sua diretoria, a AAI sempre procurou cooperar com a administração do Parque e demais autoridades, contribuindo para promover o turismo, e ao mesmo tempo atuar na prevenção de desmatamentos, depredações, incêndios, caça clandestina, poluição do meio ambiente e perturbação da ordem local. A associação cuida também da divulgação da história e das belezas da região.
Ela promove reuniões culturais, conferências e exposições de arte, assim como planeja a publicação de um livro sobre a história do Núcleo, em fase de pesquisas. As fontes usadas como base para esse texto são o livro de Itamar Bopp, Cem Anos da Cidade, e informações prestadas pela diretora da AAI, Maria Teresa de Mehr. A foto de abertura é o navio Cap Verde, que trouxe os primeiros imigrantes, extraída do livro Nossa História, de Antonio Carlos Costa.

24 de abril de 2008

ALDEIA GLOBAL XXVIII – Crianças e idosos: porque é tão fácil abusar dos mais fracos?

O recente e chocante episódio do assassinato da menina Isabela Nardoni nos coloca cara a cara com a triste constatação da índole violenta do ser humano. Prefiro acreditar que ela não é inerente a todos nós, até porque eu, pessoalmente, tenho horror a qualquer tipo de violência. “Mea culpa” se cometi eventualmente alguma violência escrita ou verbal, porque é difícil atravessar a vida sem nenhum pecado, mas estou certa de não ter passado disso. Pude, entretanto, por essa mesma experiência de vida, observar a violência sob seus mais variados aspectos e requintes.

A profissão de jornalista nos expõe a uma carga intensa e variada de informações, muitas das quais, inclusive, nem são publicadas, num desfile de horrores que frequentemente leva o cidadão a desembocar num cinismo sem remédio, no alcoolismo, na úlcera gástrica ou no psiquiatra. Embora, é claro, muita gente sobreviva à profissão sem maiores traumas...

Um caso como esse, da menina Isabela, que provoca grande comoção popular, além do choque pelo fato em si, também proporciona uma oportunidade para se refletir sobre que mundo é esse, em que procuramos sobreviver, criar filhos, construir uma cidadania. Que mundo é esse, em que uma vida vale tão pouco? Em que a sobrevivência, a integridade, a dignidade de uma pessoa são tratadas como um mero e inoportuno detalhe? Em que direitos garantidos a alguns sejam negados à maioria?

Não tenho, infelizmente, a menor dúvida, de que vivemos num mundo cruel e covarde. Ao contrário do homem primitivo, não se trata entre nós de uma luta pela sobrevivência. Ou pode até se tratar, dependendo da perspectiva de quem comete a violência, mas não do ponto de vista da sociedade. Quem mata uma criança covardemente está lutando para sobreviver a que? E quem maltrata e tortura? E quem abandona e rejeita uma pessoa indefesa, criança ou velho?

A situação de permissividade e omissão em que vivemos é um incentivo à violência, porque quem comete o crime, o abuso ou a fraude, está se sentindo garantido na perspectiva de impunidade. A ação eficiente da Justiça é uma espécie de loteria às avessas, mas o criminoso pode sempre contar com o estado de normalidade, que é aquele baseado na morosidade, na inoperância, e até mesmo na irrelevância de um Judiciário, que está longe de “dar conta do recado”.

Uma educação que valorizasse o conhecimento técnico sem esquecer o peso da cultura e da perspectiva humanista do ensino, poderia contribuir para neutralizar ou minimizar essa índole violenta. Mas são tantos os exemplos de pessoas com boa escolaridade que cometem crimes atrozes e hediondos, que é o caso de que considerar que o temor do castigo ainda é o maior “freio” social para a criminalidade. E, infelizmente, esse freio anda em falta.

Além da impunidade geral, ainda temos que enfrentar o incentivo à violência que se verifica através dos desafios à legalidade, no comportamento das autoridades de todos os poderes, quando burlam, fraudam, mentem descaradamente, e assim justificam para o cidadão comum que façam o mesmo. Se os poderosos podem desrespeitar e afrontar as leis, e descumprir decisões judiciais sem o menor temor de serem por isso responsabilizados, por que qualquer pessoa não pode agir igual?

As leis, e o desempenho do Judiciário, nos garantem muito pouca Justiça. É fácil, principalmente, descarregar a agressividade pelas dificuldades do dia a dia, naqueles que têm pouca ou nenhuma chance de defesa. Nas crianças e nos idosos de preferência. E se assim não fosse, não haveriam tantos casos escabrosos de violência contra eles, como nos mostram aquilo que é divulgado pela imprensa. E o que é pior, naquilo que a imprensa nem divulga, nos inúmeros casos que se perdem do noticiário, diante da “banalidade” da violência.

É tão cruel e covarde esganar uma criança de cinco anos e atira-la de uma janela, encarcerar e torturar um adolescente, quanto atirar em alguém pelas costas por vingança, ou negar os direitos de um cidadão idoso retirando-lhe os meios para a sobrevivência. Esses são apenas alguns tipos de violência que nos subjugam, mesmo quando ainda não somos diretamente vítimas.

Quando a violência anda solta pelo mundo, o caso de ela bater à nossa porta é apenas uma questão de tempo. Pedir Justiça pela morte de Isabela Nardoni, como parte da população tem se esmerado em fazer nos últimos dias, é muito pouco. É preciso lutar por Justiça como um todo. É preciso exigir Justiça para todos. A omissão e o comodismo são, no fundo, uma forma de cumplicidade. E se você espera o crime, a injustiça ou a impunidade baterem à sua porta, para só então reclamar, não se esqueça que aí pode ser tarde demais.

Célia Borges

21 de abril de 2008

ITATIAIA HISTÓRICA – A história do turismo em Itatiaia (segunda parte)


A região turística de Itatiaia é dividida em três centros principais, o Parque Nacional, Penedo e a região de Visconde de Mauá, esta última integrada por Maromba e Maringá. Mas possui outros pontos de concentração hoteleira e atrações turísticas, como a estrada do Parque, a área da Fazenda da Serra e o centro do município, além de hotéis dispersos por outros bairros. No total, o município dispõe de cerca de 140 meios de hospedagem, entre hotéis, pousadas, colônias de férias e áreas de camping, segundo dados da Secretaria Municipal de Turismo, conseguindo oferecer as mais variadas opções de lazer.

Parque Nacional – O Parque Nacional do Itatiaia, onde o visitante pode usufruir do contato direto com a natureza dentro de uma área de preservação ambiental, abriga alguns dos hotéis mais antigos do município. Nos anos 20 alí já funcionava uma hospedaria famosa, a Pensão Walter, ponto de irradiação de inúmeras histórias ligadas à colonização da região. No final da década já funcionava também o Hotel Donati, o mais antigo entre os ainda existentes. E no início dos anos 30 surge o Hotel Simon, inicialmente funcionando como pousada, com o nome de Sítio Mosela, e à partir de 1938, já bastante ampliado, com o nome pelo qual é conhecido até hoje.

Fundador do Hotel Simon, o alemão Josef Simon chegou ao Brasil em 1922, com apenas 19 anos, tendo sido em seguida contratado pelo Mosteiro de São Bento para executar a poda das fruteiras em sua fazenda na região do Penedo. No ano seguinte, aproveitando um período de férias, resolveu subir a montanha, e chegando à sede da Reserva Florestal – criada em 1917 – foi-lhe servido um cafezinho pela filha do administrador, Augusto Miranda Lyra. Tudo indica que foi um caso de amor à primeira vista, pois no mesmo ano, com os recursos que lhe restavam de uma herança recebida em seu país, ele comprou um dos lotes que o governo oferecia, nos limites da reserva, e que conseguiu quitar integralmente em 1924.

Em 1927, com a casa original do Sítio Mosela já construída, ele se casou com Lyra. Tiveram os filhos José Carlos, nascido em 1928; Roberto Nelson em 1929; Norma em 1939, Haroldo em 1931 e Augusto em 1943. Em 1930 o casal já recebia hóspedes em sua casa; em 1932 Simon construiu uma cabana com 4 apartamentos e mais uma pequena casa de quarto e sala, onde passaram a receber os hospedes, muitos recomendados pelo sogro Augusto Miranda, que naquele ano havia sido transferido para a administração do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Outras ampliações foram feitas nos anos seguintes, e em 1938 Simon assumiu a condição de hotel.

Muito empreendedor, Josef Simon promoveu melhorias, como a produção da própria energia elétrica, usinada à partir de 1951 com recursos locais, e que até hoje atende parte da demanda do hotel. Naquela época o Hotel Simon dispunha de 12 unidades de hospedagem, número que foi ampliado até 1976, quando chegou a 60 unidades. Além de trabalhar na propriedade, e de prestar serviços aos vizinhos nos cuidados com as plantações, Josef Simon dedicava boa parte de seu tempo a uma paixão, que o transformou num respeitado botânico amador, as orquídeas. O orquidário do Hotel Simon, hoje bastante limitado, já foi famoso por abrigar mais de 1.200 exemplares, uma das melhores coleções da região, atração para estudiosos e curiosos.

Outros hotéis surgiram posteriormente na área do Parque Nacional, como o Cabanas de Itatiaia, o Hotel do Ypê, Aldeia da Serra, Chalés Terra Nova, Pousada dos Tucanos, Hotel Vista Linda, Pousada Esmeralda, Hotel Alsene e Pousada dos Lobos, e outros além dos seus limites, como o Hotel Conora, e uma infinidade de pousadas. Assim como outros hotéis no centro do município e em outros bairros, alguns sobreviveram, outros fecharam e foram reabertos com novos nomes, motivo pelo qual é sempre importante consultar os guias turísticos atualizados, no caso de se precisar escolher um local para se hospedar.

Penedo – A tradição hoteleira do Penedo foi iniciada com os finlandeses, no início dos anos 30, quando os primeiros colonizadores, enfrentando dificuldades financeiras para quitar a compra das terras da Fazenda Penedo, e ao mesmo tempo manter os investimentos necessários para o desenvolvimento da colônia, resolveram aceitar hóspedes na casa grande da fazenda, empreendimento administrado pelo casal Aura e Erkki Lalla, que já tinham alguma experiência no setor desde a Finlândia. Os hospedes, satisfeitos com a comida e a limpeza, costumavam voltar periódicamente, e com o passar dos anos, outros finlandeses passaram a receber hóspedes, em cômodos extras construidos em suas casas. Até hoje alguns hotéis e pousadas de Penedo são de propriedade de descendentes de finlandeses, assim como restaurantes e lojas de artesanato.

A casa mais antiga construída pelos finlandeses no Penedo, e que pertenceu à família de Toivo Suni – pai da falecida historiadora Eva Hildén – embora não tenha sido usada como hospedaria pela família, é hoje sede de um dos mais pitorescos hotéis do lugar, o Vivenda Penedo. Os Suni receberam hospedes, como outros finlandeses, na segunda casa que construíram, já que a Vila de Verão, como era chamada por eles, teve que ser vendida. Depois de passar por vários proprietários, ela foi vendida para a família Xavier na década de 50, e á partir dos anos 60 passou a ser ocupada pelo casal Maria Cecília e Carlos Otávio Xavier.

Utilizada incialmente apenas como casa de campo, e depois como residência, o local foi acrescido de diversos terrenos à sua volta, o que aumentou consideravelmente a sua área, e passou a abrigar uma colônia de férias na década de 70, recebendo estudantes de colégios do Rio e de São Paulo. O sucesso da iniciativa, e a exigência dos pais dos estudantes, que também queriam se hospedar perto dos filhos, foi levando a sucessivas ampliações nas áreas externas, até que no início dos anos 80, para adaptar-se às exigências dos órgãos de turismo, foi transformada em hotel.

As paredes da casa original, assim como sua fachada, portas, janelas, teto e uma antiga escada feita artesanalmente, foram preservadas nas obras de ampliação feitas pelos novos proprietários, que conservaram também algumas ruínas na parte externa, como uma velha sauna. Preocupados em manter vivo o que consideram “o espírito finlandês” no Penedo, eles mantêm na propriedade 80% de mata, em grande parte reconstituída durante a ocupação, assim como procuraram manter muitas das arvores e traçados dos jardins originais existentes em torno da construção principal e dos chalés posteriormente construídos.

Alguns outros hotéis e pousadas do Penedo funcionam em construções antigas, entre os cerca de 60 que existem atualmente, desde o hotel quatro estrelas até as pousadas mais populares, e que, ao lado do grande número de restaurantes, ateliers de arte e lojas de artesanato, encantam o turista pela variedade de opções. Outras atrações são os tradicionais bailes de fim de semana no Clube Finlândia, e o parque temático e shopping Casa do Papai Noel, que reproduz uma vila finlandesa com suas construções típicas, evocando o Natal, mas com a vantagem de funcionar o ano todo.

Maromba e Maringá – A área turística de Itatiaia na região serrana de Visconde de Mauá é relativamente recente, já que os hotéis mais antigos, remanescentes da colonização européia, especialmente dos alemães, como os Büttner e os Bühler, situam-se na parte pertencente à Resende. Seu crescimento data da década de 60, quando aquela região se notabilizou como ponto de encontro do movimento “hippie”, e que deixou como herança uma estreita identidade com as culturas e terapias alternativas, ficando conhecida como um lugar ideal para quem procura paz e tranqüilidade.

Nem por isso, entretanto, ela é menos densamente povoada, contando com mais de cinqüenta hotéis e pousadas, sem contar os restaurantes, lojinhas de artesanato e outros negócios ligados à atividade turística. Ali também é possível encontrar opções de lazer para todos os gostos e orçamentos, pois vão desde os hotéis de luxo às áreas de camping, que existem em grande quantidade.

Situada nas cercanias do Parque Nacional do Itatiaia, ela se caracteriza por uma natureza exuberante, e pela existência de um grande número de cachoeiras, cascatas e pequenas quedas d’água, que contribuem para oferecer ao visitante uma seqüência aparentemente infinita de paisagens deslumbrantes. Além de Maromba e Maringá, essa área turística inclui também dois locais mais distantes e primitivos, o Vale do Pavão, onde existem seis pousadas, e Santa Clara, conhecida por ter uma das mais belas cachoeiras da região, onde existem outras quatro pousadas.

Célia Borges

20 de abril de 2008

ARTE, ARTISTAS E EXPOSIÇÕES - Um ano sem Marcius Lima

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Um jovem e promissor artista partiu precocemente. Mas deixou, além de uma obra admirável, uma lição de vida, a de um artista preocupado com a função social da arte, e também como uma linguagem relevante na defesa do meio ambiente. Marcius Lima faleceu em 15 de abril de 2007, vítima de um acidente ocasionado pela explosão de uma sauna, ocorrido em janeiro de 2007. Deixou três filhos, o trabalho na Marcenaria do CRAS Itapuca, várias obras com material retirado da natureza, e uma série de projetos a serem implementados através de parcerias com o setor privado.
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Suas obras são apreciadas pelo equilíbrio e contraste de cores, formas e sombras, que harmonizam ambientes e valorizam os espaços. Por isso, possui obras em diversos hotéis e pousadas da região. Já ganhou o Prêmio do Salão da Primavera do MAM de Resende em 2004, mas não tinha pretenções conceituais com seu trabalho artístico, apenas queria levantar a bandeira da preservação ambiental e da cultura.
Revelou-se um grande escultor, pintor, e divulgador da arte de Resende, sempre presente em exposições coletivas, individuais e eventos do município. Além disso, sempre teve preocupação com a questão social, onde direcionou seu trabalho na Prefeitura, ensinando mulheres, jovens e homens em situação de desemprego um ofício para geração de renda.
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Seis meses antes de falecer, junto com Kátia Kirino, ele idealizou o projeto Arte Floresta em Juruá, na Amazônia, onde conseguiu parceria com o IBAMA e desenvolveu Oficinas de Arte com a Comunidade de Juruá, com uma perspectiva ambientalista, pois partia do princípio de que da natureza nada se perde, mas tudo se transforma em arte. O projeto foi um sucesso que culminou com uma escultura de 2 metros de altura que retrata uma lenda da região: o Honorato - Cobra Grande.
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Como foi funcionário da Secretaria de Desenvolvimento Social de Resende, a mesma prestou-lhe homenagem póstuma inaugurando no local onde trabalhava o "Galpão de Artes e Ofícios Marcius Lima", em meados de setembro de 2007, com uma exposição de suas obras feitas através de instalações de arte, concebidas pelo artista plástico e amigo Wendell Amorim e Kátia Kirino.
A exposição mostrou obras inéditas, inacabadas e adquiridas que raramente poderão ser vistas novamente, pois o acervo ficou para a família, que gentilmente cedeu as obras. Mas a exposição foi visitada por centenas de alunos da rede municipal de ensino, que receberam a lição de vida deixada por Marcius Lima. Não tive a sorte de conhecê-lo pessoalmente, e agradeço aos seus amigos que contribuíram para estas informações e imagens.

ITATIAIA HISTÓRICA – A história do turismo em Itatiaia (primeira parte)


O clima ameno e a natureza exuberante, juntamente com uma localização estratégica – às margens da Via Dutra, entre os dois principais centros urbanos do país, Rio de Janeiro e São Paulo – fazem do município de Itatiaia um local privilegiado para o turismo. Essa vocação já vinha se revelando desde o final do século XIX, com o aparecimento dos primeiros hotéis-fazenda da região, sendo que o mais antigo é o Villa Forte, em Engenheiro Passos, fundado em 1893.

O clima, frequentemente denominado alpino, em referência aos Alpes, cadeia de montanhas da Europa, exerceu grande atração desde àquela época, sendo considerado extremamente saudável, e inclusive indicado para recuperação de pessoas convalescentes e debilitadas.

A existência de algumas belas sedes de fazenda, remanescentes da prosperidade do ciclo do café, e após o declínio verificado em conseqüência da abolição da escravatura em 1888, e do esgotamento das terras, transformou este tipo de hotelaria em interessante opção de atividade econômica e recurso para a manutenção dessas propriedades.

O Hotel Fazenda da Serra, que foi propriedade de Tito Lívio, cuja esposa, D. Benedita, era conhecida como a “rainha do café”, e o Hotel Fazenda Santa Mônica, são alguns dos exemplos de antigas sedes de fazenda transformadas em hotéis, além de outros como o Hotel do Morrinho, que funcionou na Fazenda Belos Prados, mas que posteriormente mudaram de atividade ou foram desativados.

No início do século XX a reputação de Itatiaia como local turístico continuou crescendo, enquanto surgiam inúmeras pensões, tanto na área da reserva florestal, onde hoje se encontra o Parque Nacional do Itatiaia, quanto na região de Visconde de Mauá. A maioria desses locais de hospedagem eram mantidos por estrangeiros, que começaram a se estabelecer na região à partir de 1890, atraídos pelo clima alpino onde era mais fácil se adaptarem pela semelhança ao clima de seus paises de origem, e também para os que foram trazidos para a formação dos “núcleos coloniais” de Itatiaia e Mauá, à partir de 1908. Alemães, suíços, italianos, espanhóis e famílias de outras nacionalidades contribuíram para dar ao cenário um ar ainda mais europeu, além de emprestar-lhe pitoresca diversidade cultural.

À partir da década de 20 a hotelaria começou a se diversificar para além dos hotéis-fazenda e das pensões, com o aparecimento de hotéis, hospedarias e pousadas, sendo que desde então se multiplicaram, alguns tendo vida longa, e muitos outros, duração efêmera. Na área do Parque Nacional, que só seria criado em 1937, surgiam os hotéis Donati e Simon.

No centro de Itatiaia vão aparecer o Hotel Tyll, o Jahu e o Central. Em Mauá, as famílias Buhler e Büttner também iniciavam seus negócios no setor. No final dos anos 20 os finlandeses chegam à Penedo, dando início a uma colonização que, alguns anos mais tarde, iria fechar este círculo, pois também lá, como opção econômica a um projeto agrícola que não foi bem sucedido, a hotelaria e o turismo foram as atividades que predominaram.

A fama de Itatiaia como um verdadeiro paraíso para o turismo, desde então, não parou de crescer, e fora o período da II Guerra Mundial, quando muitos colonos foram presos e perseguidos, como foi o caso de Josef Simon, fundador do Hotel Simon, o crescimento da hotelaria foi indiscutível.

A criação do Parque Nacional do Itatiaia, e sua imagem como um dos últimos remanescentes da mata nativa da Serra da Mantiqueira – com a riqueza e exuberância de suas fauna e flora – vieram criar uma circunstância decisiva para que o município se transformasse em um dos mais importantes centros turísticos do Estado do Rio de Janeiro, o que pode ser fácilmente confirmado pela existência de mais de uma centena de estabelecimentos de hospedagem, dos mais variados tipos (além de inúmeros restaurantes e lojas de artesanato), para atender a todos os gostos e exigências.

Célia Borges

PAISAGISMO E JARDINAGEM VIII – Plantas floridas para jardins internos: violetas africanas e outras


O uso de espécies floridas em jardins internos e na decoração de interiores, empresta ao ambiente um aspecto alegre e luminoso. E entre as preferidas para essa finalidade encontram-se as violetas africanas, devido à grande variedade das cores, tamanhos e formatos de suas flores, e também das folhas. Apesar do seu porte reduzido, é planta de grande efeito, e até mesmo um pequeno vaso florido no centro de uma mesa, pode fazer uma grande diferença no efeito visual do seu espaço.

Lindas, e razoavelmente resistentes, elas são contudo de uma espécie bastante caprichosa, tanto na hora do plantio quanto com as condições necessárias para seu pleno desenvolvimento e floração. Originárias da África, como o próprio nome diz, elas exigem intensa luminosidade, mas não se prestam para cultivo ao ar livre, porque não suportam a água da chuva em suas folhas, nem insolação direta.

O primeiro cuidado no cultivo das violetas africanas é a escolha dos vasos: os de argila ou de barro são os mais adequados, pois proporcionam a evaporação da água através da porosidade da cerâmica. Os vasos plásticos mantêm o solo úmido por mais tempo, o que pode provocar o apodrecimento da raiz e das folhas.

Para compensar essa tendência, é indicado usar nesse caso, uma mistura de solo que seja grossa e porosa, o que pode ser obtido acrescentando-se 1/3 de areia de rio (nunca salgada) para 1/3 de terra de jardim e 1/3 de terra vegetal ou adubada. Também é possível encontrar no comércio fórmulas já prontas, com turfa, vermiculita ou carvão vegetal na mistura.

É importante, na hora do plantio, prover o vaso de um eficiente sistema de drenagem, evitando que a água empoce. O vaso ou recipiente deve ter um furo no fundo, e sobre ele colocado um caco de cerâmica, completando-se o fundo do vaso com pedriscos ou mais alguns cacos de cerâmica. Outra recomendação é o uso de vasos pequenos e de apenas uma planta em cada vaso.

Depois do plantio, a escolha do local adequado é fundamental. As violetas africanas preferem um clima quente (temperatura entre 22 e 24 graus) mas não suportam nem o calor excessivo, nem frio demais (abaixo de 13 graus), o que recomenda que, no inverso, sejam transferidas se possível para um local mais quente. Boa ventilação e a maior luminosidade possível completam as condições para que seu cultivo seja um sucesso.

A questão da luminosidade é o grande desafio para manter as violetas africanas floridas, pois se por um lado não suportam a exposição ao sol direto, vão florir tanto quanto for maior a claridade a elas oferecida. A proximidade de janelas, as varandas fechadas com vidros, ou locais com telhas transparentes são boas soluções para abriga-las. Luminosidade insuficiente pode produzir uma boa folhagem, mas sem flores. Nesse caso, ir mudando sua planta de lugar até achar aquele em que ela se dá bem (mesmo que sejam alguns centímetros da cada vez) pode dar resultados. Eu, pessoalmente, já experimentei essa solução, com algum sucesso.

Mas, uma das vantagens das violetas africanas em jardins internos é que elas também se adaptam bem à luz artificial, de forma que isso pode compensar a insuficiência de luz natural. É bom observar que as plantas de cores mais escuras necessitam mais de luz que as verde-claro ou variegadas (folhas pintadas). Elas reagem bem tanto à lâmpadas florescentes, há uma distância de 20 cm, ou, para que emitem mais calor, distâncias maiores, entre 20 e 30 cm. Em geral necessitam de 10 a 12 horas de luz artificial (se essa for exclusiva ou predominante) mas em épocas mais quentes esse período pode ser reduzido para oito horas.

Outra peculiaridade dessa plantinha de flores delicadas - cujas cores vão do branco puro a vários tons de vermelho, passando pelos róseos, lilases e roxos, com bordas mais claras e mais escuras - é a extraordinária facilidade de reprodução: geralmente basta uma folhinha retirada de uma planta, e enfiada pela metade do caule em um vaso, para que se obtenha uma nova planta. Quando está saudável, ela também costuma produzir mudinhas ao lado daquela já plantada, e é aconselhável nessa situação promover a divisão por touceiras e replantar as várias partes, para que ela não fique sufocada pelo excesso de raízes e folhas.

Além das violetas africanas, existem outros gêneros da mesma família, das gesneriáceas, que oferecem igualmente efeito ornamental. As gloxínias são as mais conhecidas, com flores em forma de sino, e em cores bastante variadas, com folhas grandes e aveludadas. Suas condições de cultivo são bastante semelhantes às da violeta africana, com a diferença de que se propagam por bulbos. A columéia, ideal para cultivo em jardineiras e vasos suspensos, e as epísceas, que tem nas flores coloridas seu maior atrativo, são outros tipos disponíveis da mesma espécie.

Célia Borges

18 de abril de 2008

ITATIAIA HISTÓRICA – Parque Nacional: um guia para o turista


Uma das principais atrações turísticas do Parque Nacional do Itatiaia, infelizmente, perdeu-se há pouco tempo: o Museu da Fauna e da Flora, que se situava em prédio de curiosa arquitetura, com três pavilhões em forma de U, construído em 1942, e que começou a ser desativado há cerca de dois anos. Seu acervo, que foi dividido entre várias instituições, como o Jardim Botânico do Rio de Janeiro e a Fundação Osvaldo Cruz, era constituído por material para exposições e coleções para estudo, possuindo 2.328 espécies de plantas, 186 frutos, 400 tipos de animais (répteis, aves e mamíferos) e 2.354 artrópodes (insetos e aracnídeos), todos esses para exposição.

A coleção destinada a estudos dispunha de 1.108 animais preparados e cerca de 11.200 artrópodes, que atraiam cientistas e estudantes do mundo inteiro. Todo esse material, segundo promessa dos atuais administradores, deverá ser transformado em material gráfico e áudio-visual, para garantir as finalidades de pesquisa, o que ainda está em fase de projeto. Restou pelo menos um interessante relógio de sol, situado ao lado da sede do parque, construído na Inglaterra em 1925, e um dos poucos do país que ainda funciona regulado pelas estações do ano e pela incidência da luz solar sobre seu mecanismo.

Mas se o trabalho do homem tem sido provisório, o mesmo não se pode dizer da natureza, que garante muitos outros atrativos, como as cachoeiras que vão se formando pelo leito do rio Campo Belo, desde a fronteira com Minas Gerais, no alto da Serra da Mantiqueira, e atravessando todo o parque. São cachoeiras dos mais variados tipos, sendo a mais conhecida o Véu da Noiva, formada por uma queda abrupta de mais de 30 metros de altura, cujo efeito visual é o de um grande véu branco. A água respinga em torno, criando um ambiente úmido, propício à exuberante flora da qual é cercada.

Igualmente bela é a cachoeira Itaporani, com três quedas d’água e uma piscina natural de 10 metros de diâmetro. Ela é cercada por mata ainda primitiva, onde ipês amarelos e rosa, além de gramíneas floridas, entre outras espécies, atraem borboletas das mais variadas cores.

Outras cachoeiras são a Poranga – 10 metros de queda e uma piscina natural de 30 metros de diâmetro e 10 de profundidade; Piturendaba e Pitu de Baixo – duas quedas em seqüência, com três metros de altura e respectivamente 20 e 30 metros de diâmetro; Cascata e Lago da Maromba – cinco metros de queda em dois níveis, cercadas de um lago oval, com abundante vegetação; o Lago Azul, atravessado por uma ponte, da qual pode-se observar uma seqüência de pequenas cachoeiras e piscinas naturais, muito procuradas para mergulho.

Dentro do parque, mas no vale do rio Bonito, que desce a serra paralelamente ao Campo Belo, também encontram-se recantos interessantes, como a Cachoeira do Rio Bonito, com queda de seis metros, uma piscina natural e vegetação luxuriante. Na Serra do Palmital é possível visitar a base dos três morros conhecidos como Três Picos, que vistos pelo lado do Penedo levam o nome de Pedra da Índia, por lembrar o perfil de uma mulher deitada.

O PICO E A RODOVIA DAS FLORES – Para chegar ao Pico das Agulhas Negras, assim como às áreas mais altas do parque, é preciso ir até Engenheiro Passos, e aí entrando à direita na BR-354, Rio-Caxambu, segundo 26 km até a Garganta do Registro, limite entre o Rio e Minas, entra-se novamente à direita para a Rodovia das Flores, considerada uma das mais altas do país, com altitudes superiores a 2.200 metros.

Depois de mais 14 km, chega-se à guarita do parque, que á acesso ao planalto superior do Maciço do Itatiaia. Impressionante, é o mínimo que se pode dizer da paisagem, tendo as Agulhas Negras à esquerda e as Prateleiras estendendo-se à direita. Mais dois quilômetros e chega-se ao Abrigo Rebouças, situado à 2.350 metros, e que serve como ponto de referência para turistas e pesquisadores.

O Abrigo Rebouças é constituído por três construções de pedra, sendo dois dormitórios (masculino e feminino) com capacidade para 24 pessoas, e a terceira para banheiros e tanques. Menos de um quilometro adiante encontra-se a Cachoeira das Flores – três quedas d’água com cerca de 8 metros de altura e espelho d’água de 60 metros quadrados. Seu acesso é difícil, pois o rio passa, nesse ponto, a 100 metros baixo da estrada. Ainda nas proximidades do abrigo pode-se visitar a nascente do Campo Belo, que fica à esquerda, após percorrer-se uma trilha de um km rio acima. Ele nasce junto a uma grande formação rochosa, como um pequeno fio d’água, que chega a congelar no inverno. Seu volume vai aumentando à medida que vai recebendo seus afluentes, até ficar mais caudaloso na área mais baixa do parque.

Seguindo-se à direita, chega-se à Serra das Prateleiras, uma seqüência de formações rochosas cujo ponto mais alto é a Pedra do Gigante. Outras formações recebem nomes curiosos, como a Pedra da Tartaruga, a Pedra da Maçã e a Pedra Sentada (que lembra duas pernas sentadas numa cadeira). E coroando a paisagem do parque, à esquerda do abrigo, encontra-se o Pico das Agulhas Negras. Ele é o ponto culminante do estado do Rio de Janeiro, a 2.787 metros acima do nível do mar, e o sétimo do país.

O Parque Nacional do Itatiaia, embora seja federal, e portanto fora da área de jurisdição do município, dá sua relevante contribuição à economia de Itatiaia, não só pelos inúmeros estabelecimentos comerciais que se localizam em sua área geográfica e adjacências – como hotéis, pousadas, restaurantes e lojinhas de artesanato – como por ser seu principal ponto de atração turística.

Célia Borges

ARTE, ARTISTAS E EXPOSIÇÕES V - Eila: tapeceira finlandesa com inspiração tropical


As tapeçarias de Eila são uma importante referência artística de Penedo. Mesmo sem contar atualmente com o grande público que já teve nas décadas de 60 e 70, e que levaram seus trabalhos a um grande número de prédios públicos, empresas e residências, galerias de arte e museus, ela mantém, com mais de 90 anos, uma legião de admiradores. A exuberância de seus desenhos e a intensidade de suas cores fazem dela quase uma unanimidade: é difícil visitar sua galeria e sair de lá sem se apaixonar por algum dos trabalhos expostos.

Nascida em Tampere, na Finlândia, Eila Ampula veio para o Brasil em 1916, com 13 anos, no grupo pioneiro de Toivo Uuskallio, que fundou a colônia do Penedo. As visões do novo país, cujo intenso colorido contrastava tanto com os tons cinzentos da paisagem escandinava, causaram forte impressão na adolescente, que não sabia, entretanto, como manifesta-la.

O casamento e os anos difíceis que os colonos finlandeses tiveram que enfrentar nos anos 30 e 40 não deram a ela muitas oportunidades de expressar sua sensibilidade artística. Só por volta dos anos 50 é que Eila, evocando a alegria que encontrava nos desenhos da infância, começou a pintar à óleo, incentivada pelos amigos.

Em poucos anos seu trabalho ganhou prestígio, de forma que à partir de 1958 ela passou a dedicar-se integralmente à pintura, realizando algumas exposições individuais. Inquieta, e em busca de materiais diferentes, chegou a usar placas de concreto, sobre as quais aplicava relevos de cimento, concluindo com a aplicação de tinta. Mas sentia que ainda não tinha encontrado o caminho.

Foi nos anos 60 que, buscando novamente inspiração na infância, redescobriu o tear manual usado pelos finlandeses na confecção de agasalhos de inverno. Em 1964 encomendou seu primeiro tear e iniciou suas experiências. Estudando materiais e aperfeiçoando a técnica, a artista foi encontrando ao mesmo tempo uma afinidade cada vez maior com temas brasileiros, embora sua galeria revele trabalhos com motivos os mais variados. Mas são a selva, com seus bichos e plantas, os índios, os pescadores, caboclos e todos os tipos que se enquadrem numa perspectiva de colorido intenso, os preferidos da artista e do publico.

A originalidade e a beleza das tapeçarias de Eila tiveram reconhecimento quase imediato, e já em 65 ela fazia uma exposição dos primeiros trabalhos na Casa da Suíça, no Rio. No ano seguinte foram quatro exposições, duas coletivas – no Ibeu e no Salão de Artes Religiosas de Londrina, Paraná, onde recebeu menção especial – e duas individuais – na Usis, em Salvador, e na Igreja dos Marinheiros Escandinavos, no Rio.

Em 1967 o número de exposições sobre para cinco, sendo quatro individuais – na Embaixada Americana no Rio, na Universidade do Ceará, na Galeria Domus e outra em Vitória – e uma coletiva, no Museu de Arte Moderna de Salvador. Nessas andanças pelo país, ela foi recolhendo novas impressões sobre os tipos e paisagens brasileiras, e assim enriquecendo seu acervo de temas.

E quanto mais mergulhava na exploração dos motivos tropicais, maior o sucesso de suas tapeçarias, testemunhado pela quantidade delas que se encontram em prédios públicos e empresas, nas revistas de decoração e residências famosas, e até nos cenários das novelas de TV. As exposições também continuaram em alta, com mais três em 68, no MAM-Rio (em comemoração aos 50 anos de independência da Finlândia), na Galeria Montmartre Jorge, também no Rio, e na Wenner Gren Center, em Estocolmo, na Suécia, sua primeira internacional.

Em 69 fez apenas uma individual na Galeria Portal, em São Paulo, mas esse relativo descanso foi compensado por nada menos que seis exposições em 1970, das quais cinco individuais, em Resende, Rio (2), São Paulo e Ceará, e uma coletiva no pavilhão do Brasil da Expo-70, em Osaka, no Japão. De tão forte identificação com o Brasil são suas imagens, que em 71 foi convidada a participar da exposição itinerante Brasil Convida, sob o patrocínio do Itamaraty e da Varig por diversos países.

Nos vinte anos seguintes, até o início da década de 90, Eila manteve intensa atividade, com exposições pelo Brasil, principalmente no Rio, São Paulo, Brasília, Bahia, Ceará, Minas e Paraná. No exterior expôs mais três vezes, na Finlândia (em 76 e 82) e no Springsville Museum of Art, em Utah, EUA (1979). Na década de 80, como reflexo de sua inteligência inquieta, passou a idealizar suas novas obras através de um computador. Nos últimos dois anos, depois de completar 90, Eila vem reduzindo sua atividade, e as visitas à sua galeria devem ser agendadas através das agencias turísticas de Penedo.

Célia Borges

ITATIAIA HISTÓRICA – Parque Nacional, a mais antiga unidade de conservação do país


Muita gente se surpreende até hoje, ao ver tão grande área da Mata Atlântica preservada, no meio de tanta terra devastada pela monocultura cafeeira. Afinal, como é que a mata de Itatiaia sobreviveu? Pois foi graças ao Visconde de Mauá, Irineu Evangelista de Souza, que hoje existe o Parque Nacional do Itatiaia. Proprietário desde meados do século XIX de um conjunto de fazendas naquela serra – Central, Queijaria, Taquaral, Invernada, Mont-Serrat e Benfica – abrangendo terras do Rio de Janeiro e de Minas Gerais – ele não foi afetado pela “febre do café”, preferindo trazer os primeiros colonos europeus para a região. As terras de Mauá passaram em 1908 para o governo federal, com a finalidade de ampliação da colonização, projeto que se estendeu até por volta de 1918.

Os colonos, predominantemente alemães, mas também franceses, suíços e holandeses, foram divididos em dois núcleos coloniais, um em Itatiaia e outro em Visconde de Mauá, com o objetivo de se dedicarem à fruticultura e à criação de pequenos animais. A experiência, além de não ter dado certo, ainda foi responsável pela devastação de grandes áreas de floresta nativa, principalmente nas altitudes mais baixas.

As primeiras notícias documentadas da região do Itatiaia relatam a visita do botânico Glaziou, em companhia da princesa Isabel, em julho de 1872, e que ficou impressionado com a riqueza de sua flora e pelas formações geomorfológicas de excepcional imponência. Em 1014, o naturalista do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Campos Porto, procedendo a estudos na região, constatou a destruição progressiva das matas, o que o levou a escrever ao diretor da unidade, J.C.Willis, denunciado as condições do local e sugerindo a criação de um parque nacional.

Outros botânicos, como Alfred Ludgren, geólogos, geógrafos e biólogos, defendiam a criação do parque, mas Campos Porto foi o primeiro a apresentar uma proposta concreta, tendo sido ele, 23 anos mais tarde, o seu primeiro diretor. Algumas fontes indicam entretanto que o autor da idéia foi um engenheiro, André Rebouças, que já sonhava com o parque 60 anos antes que ele se tornasse realidade.

Depois do fracasso do projeto de colonização, providências governamentais incorporaram as terras remanescentes dos antigos núcleos coloniais ao patrimônio do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, sob a denominação de Reserva Florestal do Itatiaia, que passou em 1927 a Estação Biológica do Itatiaia. E assim permaneceu até 14 de julho de 1937, quando através do Decreto n0 1.713, o presidente Getúlio Vargas criou o Parque Nacional do Itatiaia.

A mais antiga reserva ecológica do país possui área de 12 mil hectares – que o Decreto 87.586, de 20/09/82 aumentou para 30 mil hectares, sem que isso na prática tenha se concretizado – em terras à noroeste do Rio de Janeiro e ao sul de Minas Gerais, em plena Serra da Mantiqueira, com altitudes que variam de 800 a mais de 2.700 metros. O parque, que abriga flora e fauna magníficas, destaca-se também pelo interesse geológico devido às rochas ali encontradas, que são pouco comuns no país. Rochas intrusivas cristalinas formam um vasto maciço foiático, que é o maior do mundo, superado apenas pelo de Kola, na Escandinávia. A área também é rica em bauxita quase pura.

Mas são a fauna e a flora que conquistam para o parque a sua fama mundial, abrigo de inúmeras espécies endêmicas e de outras bastante raras, muitas ameaçadas de extinção. Na área mais acessível do platô, com altitudes entre 800 e 1.100 metros, predomina a floresta úmida e densa, com arvores que atingem até 30 metros, e uma vegetação de grande beleza nas camadas inferiores, e até mesmo sobre as rochas, como liquens, musgos e cactos; begônias, bromélias, orquídeas, samambaias, lírios, brincos de princesa e gravatás. Entre as árvores, abundam várias espécies de cedros, quaresmeiras, paineiras, ipês, canelas, jacarandás e caviúnas.

Essa área sofreu várias agressões, primeiro inadvertidamente, através da colonização, que incentivava a ocupação de várias áreas, e em seguida pela ação predatória de lenhadores e carvoeiros. Mais recentemente as causas têm sido os incêndios de origem criminosa. Mas ainda guarda uma razoável parcela de mata nativa, sendo boa parte dela recuperada. Existem aí inúmeras propriedades particulares, inclusive a maioria dos hotéis, que dão suporte ao turismo local.

A segunda área apresenta altitudes de 1.100 a 1.900 metros, formada pelas escarpas do Maciço do Itatiaia, com vegetação que se caracteriza pelos bosques de pinheiros e araucárias nativas, árvores de porte mais baixo, entremeadas com vegetação arbustiva e densa, sendo o solo coberto de musgos e gramíneas. Nesse trechos encontravam-se, até recentemente, e agora mais raramente, animais de maior porte, como onças, macacos e cachorros do mato, a maioria sobrevivendo à ameaça de extinção.

Acima dos 1.900 metros encontra-se o platô superior, que tem como ponto culminante o Pico das Agulhas Negras, a 2.787 metros. A vegetação desses campos de altitude é bastante heterogênea, com ervas e arbustos de até 2 metros, ocorrendo a presença de árvores isoladas. A flora aqui apresenta mais de cem espécies endêmicas, além de 30 espécies exóticas procedentes dos Andes, do Antártico e do Astral-Andino. Os rochedos são cobertos de liquens de cores variadas, como castanho, vermelho, amarelo, cinza e até preto. Nessa área encontram-se formações rochosas de características bastante curiosas, como as Prateleiras, que produzem um efeito original, amarelo dourado. Existem também grandes formações rochosas de um cinza chumbo, como o Pico das Agulhas Negras.

A fauna do parque, que por si só já seria riquíssima, foi aumentada e diversificada na medida em que, com a devastação das áreas vizinhas, os animais foram se refugiando na mata, enriquecendo-a com espécies de todas as ordens. A maior variedade encontrada são de insetos, tendo sido catalogadas mais de 4 mil espécies de borboletas, 2.500 de besouros, mais de mil abelhas e marimbondos, 500 tipos de moscas, inclusive a maior do mundo, mais de 300 cigarras e 26 abelhas melíferas.

Mas são as aves que compõem a maior população do parque, com mais de 300 espécies, como sabiás-laranjeira, beija-flores, tucanos e maritacas, siriemas e cariemas, codornas e perdizes, sabiás, tico-ticos, gaviões e tangarás, para citar apenas as mais conhecidas, já que existem também espécies bastante raras e pouco conhecidas, que encantam o visitante de sorte, ou o estudioso paciente, com suas plumagens e cores as mais variadas, dos tons mais brandos aos mais exuberantes.

Ele abriga também 67 espécies diferentes de mamíferos – caitutu, onça-parda, cachorros do mato, macacos, tamanduás, preguiças, pacas, sagüis, jaguar e lobo guará entre outras – diversas delas ameaçadas de extinção. Existem ainda 64 tipos de anfíbios – inclusive a tartaruga de água – e 25 espécies de répteis, como a jibóia e outros tipos não peçonhentos.

Célia Borges

15 de abril de 2008

PAISAGISMO E JARDINAGEM VII – Plante na cozinha: tomate, salsa, cebolinha...


Mesmo quem não tem espaço para fazer uma horta, pode cultivar algumas espécies próprias para consumo em pequenos espaços, como um recanto da cozinha, da copa ou da área de serviço. Além da utilidade culinária, esse recurso pode ser extremamente decorativo. A única exigência é que o local escolhido receba claridade intensa ou então algumas horas de sol por dia, já que a maioria delas não resiste à sombra predominante.

Bancadas ou prateleiras sob as janelas, ou até jardineiras externas (observados os requisitos de segurança) podem ser indicados para esse tipo de cultivo, mas outros locais, desde que não muito próximos ao calor do fogão, pode ser adaptados. Uma vantagem é que podem ser plantados em vasos ou jardineiras de tamanhos pequeno ou médio, dependendo da quantidade desejada.

Algumas mudas de ervas e temperos são facilmente adquiridas no comércio, especialmente floriculturas e supermercados. Outras podem ser reproduzidas pelo aproveitamento de sobras domésticas, e ainda outras vão dar um pouco mais de trabalho pela necessidade de semear e acompanhar o crescimento. Esse é o caso do tomate, por exemplo, sendo que para interiores o tipo mais recomendável é o tomate cereja (Lycopersicon esculentum cerasiforme), devido ao seu pequeno porte. Mais doce que o tomate comum, ele também é rico em licopeno, antioxidante que combate os radicais livres e retarda o envelhecimento. Além de bonito, é ótimo para a saúde.

Planta de origem selvagem, o tomate cereja pode ser cultivado à partir de sementeiras (as sementes são encontradas em lojas especializadas), feitas em copinhos plásticos (inclusive aqueles de cafezinho) cheios de terra adubada, com cerca de três sementes por copinho. É importante observar as instruções da embalagem, além de manter a terra ligeiramente úmida, e jamais encharcada. De cada copinho deve ser escolhida a muda mais forte.

O transplante para local definitivo pode ser feito depois de 30 a 40 dias, quanto a plantinha tiver entre 10 e 12 cm, lembrando-se que, como uma trepadeira, ele precisa do apoio de estacas ou outros recursos semelhantes para se desenvolver e produzir adequadamente. As mudas devem ser plantadas a pelo menos 40cm de distancia uma da outra, ou em vasos individuais. A produção pode ser esperada em 120 dias aproximadamente. Plantado no solo, ao ar livre, o tomate é muito sujeito à pragas, mas em ambiente interno isso é mais raro, garantindo um alimento sem agrotóxicos.

Outra que exige sementeira é a Salsa (Apium pretroselinum), inseparável companheira de Cebolinha no tempero de inúmeros pratos brasileiros. Como o tomate, ela pode ser semeada em copinhos, e todo o procedimento no trato da muda deve seguir as orientações da embalagem, assim como o plantio. Plantadas em jardineiras, podem formar pequenas touceiras, intercaladas com cebolinha, o que dá um interessante feito decorativo. A reprodução da cebolinha é a mais fácil e barata que existe: basta reaproveitar as raízes que sobram do consumo, espetando-as na terra, e deixando para fora cerca de 1cm do talo remanescente. Ela brota sozinha.

Alguns tubérculos, como a beterraba, a batata-doce e o inhame podem produzir também interessantes folhagens, aproveitando-se aqueles que já passaram do ponto para o consumo, e que geralmente já apresentam brotos prontos para se desenvolverem. Basta enterra-los, com a parte mais cheia de brotos ao nível da terra, regar regularmente, e esperar a natureza. Nesses casos, entretanto, o aproveitamento da raiz para consumo não é garantido, sendo um plantio mais para efeito decorativo.

Também com intenso efeito decorativo, são indicados os vários tipos de pimenteiras, desde as de frutos vermelhos, as mais tradicionais, até aquelas que mantem a predominância do verde, as amarelas e as arrocheadas. Atualmente há grande variedade, facilmente encontradas nas floriculturas, e tanto podem ser cultivadas individualmente, como formando arranjos, em floreiras e jardineiras. Alguns tipos são mais ardidos, outros mais perfumados, é importante se informar antes da compra. Além do uso culinário, as pimenteiras são consideradas no folclore botânico como fortes neutralizadoras do “mau olhado”.

Célia Borges

12 de abril de 2008

ALDEIA GLOBAL XXVI – A invasão à UNB e a força da opinião pública

Há uma reflexão indispensável ao exercício da Cidadania nesses nossos dias de Século XXI: dentro do conceito de estado republicano e democrático, governos existem para servir ao povo, ou o povo existe para servir aos governos? O peso da cultura histórica não contribui muito para o discernimento nessa questão, pois estamos acostumados à idéia de impérios, monarquias, e autoritarismos de todos os tipos, no decorrer da maioria dos séculos que nos antecederam. Mas não podemos nos esquecer dos movimentos que nos resgataram, e que apesar de seus eventuais excessos e violência, traduziram os anseios das populações, em busca de igualdade, liberdade e fraternidade entre os homens.

Essa discussão pode ser irrelevante nos estados em que o autoritarismo ainda predomina. Mas nos chamados “estados democráticos” ela deveria ser alvo de uma reflexão diária de cada cidadão, assim como quem profere uma oração. Porque é inquestionável a vocação de governos e poderes a se entrincheirarem em privilégios que os afastam do interesse comum. O poder corrompe, distorce as prioridades, alimenta vaidades, e isola as lideranças dos verdadeiros objetivos para os quais foram criadas. E cabe ao cidadão estar atento, estabelecendo limites ao poder do estado, para não ser engolido por ele.

A recente invasão de estudantes à reitoria da Universidade de Brasília, e seu desfecho, com o afastamento do reitor, mostram bem como a reação de cidadãos – e eu me sinto extremamente orgulhosa de ser compatriota desse grupo de pessoas que conseguiram seus objetivos driblando a violência – podem fazer diferença no restabelecimento da lei e da ordem, quando elas são tão nitidamente, tão obviamente, transgredidas. Estudantes, professores e funcionários daquela universidade, não estavam motivados por quaisquer dissenções de ordem política, mas por uma rigorosa exigência de respeito e responsabilidade no trato com os bens públicos. Sejam eles materiais, como os recursos financeiros desviados de seus objetivos, sejam subjetivos, como a falta que fizeram no conjunto da educação pública no país.

Esse episódio teve o mérito, além de seus próprios resultados práticos com o afastamento do reitor, de confirmar o quanto a força da opinião pública pode ser decisiva no combate à corrupção, à impunidade e à arrogância que parecem ter tomado de assalto a maioria dos setores da administração pública. Às vésperas de pedir licença do cargo, o reitor declarava nos noticiários, pura e simplesmente “não saio”. Não se dispunha a discutir, justificar ou se desculpar pelos desmandos. Iludido por uma garantia de impunidade que não se concretizou, ele resistiu até o último minuto. E acabou saindo pela porta dos fundos.

O que se tratou, nesse caso, foi de medir forças: por um lado a arrogância autoritária de um cidadão que achava que podia tudo, que se situava acima da lei e do interesse coletivo, contra a força da opinião daqueles que discordaram desse ponto de vista e se dispuseram a lutar por suas convicções. Um a zero. O Ministério Público Federal assumiu sua responsabilidade, o reitor está temporariamente afastado, o processo instaurado, e nós, aguardando para ver o resultado. Torcendo para que o Sr. Mulholhand não volte para o cargo. Pelo menos para esse cargo de reitor da UNB. Pelo menos até que o governo encontre uma solução ao gosto do momento, como um novo cargo, para premia-lo pelos deslizes ampla e publicamente constatados.

“Não saio” é uma expressão que vem sendo repetida por outras autoridades, de mais de um dos Poderes, à título de resistência à circunstâncias que desafiam a opinião pública. Foi assim com Severino, foi assim com Renan Calheiros. Quantos foram os ministros já que caíram, depois de igual manifestação de arrogância? Perdi a conta. Lembro do Zé Dirceu. Mas são tantos os ministros, e tantos os mal-feitos, que não dá pra lembrar de todos. Ah, tem aquela senhora da Integração Racial!!! Enfim, por mais apoio que recebam do nosso presidente da República – e por mais aprovação que esse presidente receba nas pesquisas de opinião – eles acabam caindo. Por menor que seja a nossa consciência dessa força, a opinião pública, em maior ou menor escala, ainda continua fazendo diferença. Principalmente quando conta com a sintonia da imprensa.

É pena que a educação deficiente da maioria da população torne a força da “opinião pública” um poder ainda incipiente em nosso país. Mas mesmo atuando apenas em alguns poucos momentos e circunstâncias, é inquestionável a sua influência. E ela tem sido exercida em momentos cruciais da nossa história recente. Ela é o derradeiro reduto da ética e da moralidade, o “cartão vermelho” que a população dá a quem não “anda direito”. Ela é o lembrete aos poderosos, de que governos existem para servir à população e não o contrário. Afinal, “todo o poder emana do povo, e em seu nome deve ser exercido”. Não é isso que diz a nossa Constituição?

Célia Borges