10 de janeiro de 2008

IX - Voyerismo e promiscuidade: retratos de pobreza cultural

Quando tudo já parece mais ou menos ruim, sempre surge alguma coisa pra piorar. Não me levem à mal, sou uma otimista nata. E ainda que pareça o contrário, sou adepta da diplomacia e das soluções negociadas. Só que há muitas coisas que estão além dessa possibilidade, e no caso, ao que refiro é esse tenebroso programa televisivo chamado Big Brother Brasil. Enquanto a gente procura um fio de esperança pra nossa educação e cultura, eis que nos invade de todos os lados esse péssimo exemplo de “voyerismo” e promiscuidade, esse programinha ridículo, que apesar disso e infelizmente, consome alguns milhões de reais de uma população já culturalmente tão pobre, num desfile dos piores exemplos de comportamento humano.
Eu, pessoalmente, não perco um segundo da minha vida vendo esse lixo. Mas a força do consumismo e dos interesses desumanamente “econômicos”, não dá pra evitar que tudo o que acontece na tal da casa, invada a nossa privacidade com informações sobre o assunto, que nos são impostas de todos os lados. Abro o jornal e está lá o tal do BBB. Ligo a TV distraidamente, e lá está a coisa de novo. Meu provedor é Globo.com, e quando entro da internet, a primeira coisa que encontro é um monte de bobagens sobre aquele bando de “fulaninhas” e “sicraninhos” que, não tendo outra oportunidade de se destacar, sacrificam suas vidas no altar do exibicionismo.
Que eles façam isso, tudo bem, é problema deles. Que cada um faça da sua vida o que quiser. Mas não consigo ficar imune ao constrangimento que me causa ver tantas pessoas com quem convivo e admiro, perdendo tempo em discussões sobre quem é o tal que vai pro paredão, quem deve ou não ser eliminado, e até gastando seus limitados recursos pra votar nesse ou naquele com quem simpatiza ou antipatiza, sem se dar conta de que tudo o que acontece ali é mera encenação, porque não acredito que alguém consiga ser autêntico diante dessa falta de privacidade.
Se fossem somados os recursos gastos por uma pessoa, em telefonemas durante os meses do tal programa, com certeza daria pra comprar pelo menos um livro. Pra ir duas vezes ao cinema. Uma vez e meia ao teatro. Sei lá...tem tanta coisa melhor pra fazer do que ficar vendo jovens bonitos e sarados, se esfregando, brigando, “fofocando”, traindo, chantageando, e na minha modesta opinião, literalmente se prostituindo, em busca de uma solução fácil pra “se dar bem na vida”.
Enquanto um bando de medíocres ganha horas e horas de fama e de atenção, há toda uma multidão de gente valorosa, estudiosa, batalhadora, que vive literalmente à mingua de um mínimo de ajuda pra realizar ideais muito mais altos. Quantos atletas nossos ganham medalhas, chegando ao pódio sem esperança de patrocínio para os seus esforços. Quantos estudiosos e jovens cientistas têm que trabalhar à noite ou em subempregos para sustentar suas pesquisas. Quantos pesquisadores das mais variadas áreas de atuação, relevantes para o nosso desenvolvimento tecnológico, lutam pra desenvolver as teses nas quais acreditam, e sem um mínimo de recursos. Quantos artistas isolados, quantos talentos desperdiçados e perdidos...
Não vou culpar aqui essa turminha de jovens sarados que precisa se exibir pra ser dar bem, como disse antes, mas é lamentável que empresas que mobilizam tantos recursos que poderiam ser melhor aplicados, só se preocupem no faturamento fácil, no enriquecimento imediato, na briga por maior audiência à qualquer custo. O importante é a quantidade, não a qualidade. Importantes são os índices que garantem o preço alto da publicidade, e não os bons exemplos pra toda uma juventude carente de bons projetos e ideais. Como cantou o saudoso Cazuza, “transformem o país inteiro num puteiro, porque assim se ganha mais dinheiro”...
Quem quiser ligar a TV pra assistir a esse espetáculo de promiscuidade, que se divirta, se é que isso é possível. Ainda fico perplexa de lembrar que foram os holandeses, povo tão civilizado e desenvolvido, berço de alguns dos maiores artistas da história da humanidade, quem inventou esse descalabro. Mas lá o tal programinha sempre teve audiência pífia. Nada que se compare nem chegue perto do sucesso que alcança a cópia brasileira. Também não se compara ao baixo nível que alcançou aqui.
Essa coisa de gostar de bisbilhotar a vida alheia é coisa de gente sem auto-estima, que não tem mais o que fazer. Quem tem “vida própria” com certeza vai preferir partilhar a sua alegria de viver com quem está próximo de si, com quem merece sua atenção, sua família, a pessoa a quem ama. Mesmo os solitários, vão encontrar por aí coisa muito mais interessante pra ver, do que a falsa vida íntima de gente que não se respeita.
Eu, pessoalmente, fiz o meu protesto na forma de cancelar a minha assinatura de O Globo, que mantinha há mais de 30 anos. Não vejo BBB, na hora desse programa prefiro ler um livro, ou em último caso, ver outro programa de TV. Vou resistir à essa onda de “voyerismo”, torcendo pra que qualquer dia nossos poderosos meios de comunicação acordem, e dêem oportunidade a quem merece.

Célia Borges

Um comentário:

SOMA disse...

Oi Célia!
Já havia lido seu interessante artigo e agora declaro que a amiga foi uma das primeiras pessoas, nesta nova versão do degradante programa,a revelar justa e democrática indignação quanto a baixaria como instrumento na mídia.Abraços Soma