23 de fevereiro de 2008

XVI - O governo virou um Robin Hood às avessas...

A notícia de que o Brasil já dispõe de reservas suficientes para o pagamento de toda a dívida externa não chegou a ser surpresa para quem acompanha o noticiário e vê a atuação do Banco Central no mercado de câmbio, intervindo frequentemente nos últimos anos, através de uma exagerada compra de dólares. O fato chega alardeado como se fosse uma grande façanha do nosso governo. Não sei se os amigos leitores tem alguma dúvida, mas eu, por exemplo, estou certa de que sei quem está pagando essa conta: nós mesmos.

A festa em torno desse fato só vem confirmar que vivemos no “paraíso do marketing”. Estamos sendo sistematicamente torpedeados por notícias positivas e otimistas tais como de que foi descoberto poço gigante de petróleo em Santos, de que o governo tem maioria da aceitação pública, que aumentou o emprego com carteira assinada, que o desemprego diminuiu, de que onze milhões de brasileiros saíram da linha de pobreza...a produção de bens aumentou, assim como o consumo.

Enfim, do ponto de vista do governo, vivemos no melhor dos mundos. Diante de tudo isso, às vezes fico me perguntando se estou vivendo na dimensão errada. Ou então, de que, por algum motivo, só eu vivo à margem desse país maravilhoso. Perdi o bonde da história. Entrei na nave espacial errada...sei lá! Todo esse otimismo está tão na contramão do que vejo e do que vivo, que fico perguntando se não é melhor eu arrumar a minha malinha (porque odeio mochilas) e me mudar pra Quatis (pra quem não conhece a região, é onde funciona o Pinel daqui).

Onze milhões de pessoas acima da linha de pobreza seria um feito considerável, se realmente pudéssemos comprovar isso. Mas cada vez que eu tenho que ir à capital – cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro – fico arranjando desculpas para adiar, porque não agüento ver tanta miséria, tanto perigo, tanta violência. São ambulantes em abundancia por todos os lados, inclusive dentro dos ônibus; camelôs tomando as ruas principais – e atualmente até as secundárias. São os malabaristas (isso com sorte, porque também podem ser os assaltantes) nos sinais de trânsito. São os mendigos, pedintes e menores abandonados pelas calçadas. Balas perdidas, sustos e corre-corre. Não dá nem pra pensar em ir matar saudades das praias, das quais eu gostava tanto...tenho medo!!!

Ir à uma favela visitar um amigo (eu sou o tipo de pessoa que pode ter amigos em qualquer lugar, inclusive numa favela) nem pensar...pode ser suicídio. No máximo me arrisco a ir visitar familiares na zona sul, e ainda sim não me sinto livre de riscos. Minha sobrinha foi assaltada ao meio dia, em plena Rua Jardim Botânico. Os familiares da zona norte, agora, só sabem de mim por telefone. Não pensem que sou uma pessoa covarde, eu me considero até bastante corajosa. Só que sobreviver à uma ida ao Rio, hoje em dia, não é questão de coragem, mas de sorte.

Bolsa-família e outros programas podem até estar funcionando em alguns lugares do país, como o nordeste, com seu povo tão necessitado. Mas é surpreendente que não tenha chegado nenhum recurso ao Rio de Janeiro, capital turística e cultural do país, cartão de visitas do Brasil. E eu, humildemente, só posso avaliar o que sinto e o que vejo. Inclusive aqui na minha cidade, de médio porte. Não vemos muitos pedintes na rua (há os de sempre) mas basta ir aos bairros mais afastados e às diversas áreas de invasão – e aliás, existem muitas – para se ver o que é a miséria ao lado da nossa porta.

Ter recursos para pagar toda a dívida externa pode ser um grande feito para fins de manchetes de jornal, mas é um dado assustador na medida em que nos dá a dimensão de quanto estamos sendo espoliados. Desde meus tempos de faculdade, lá pelo início dos anos 70, eu estudo, pesquiso, analiso, e tento entender e interpretar o meu país. Sou contemporânea das primeiras imagens do planeta via satélite, e naquela época aprendi que sob o solo do nordeste está situado o maior lençol d’água do mundo.

Se a Petrobrás faz prospecção de petróleo em águas tão profundas, nunca entendi porque toda essa tecnologia não foi usada ainda em busca de água para quem precisa. Porque se privilegiam projetos megalomaníacos, como a transposição das águas do Rio São Francisco, ou então essa última, do Mangabeira Unger, querendo levar água da região norte para o nordeste... Sempre tive noção e consciência de que somos um país rico, sempre tive certeza de que, com seriedade e boa administração, poderíamos chegar à ser uma grande potencia, e minha ambição não é do ponto de vista econômico, mas em termos de educação, saúde e aceitável qualidade de vida até para o mais pobre dos seus cidadãos. Uma Suíça tropical, digamos assim...

O sucesso anunciado agora, com tanto estardalhaço, desvenda o preço que estamos pagando, no mínimo, por um desvio de prioridades. Enquanto temos recursos para arcar com a dívida externa, a nossa dívida interna chega a 65% do PIB. O trabalhador, que dá nome ao partido que sustenta esse governo, é quem está pagando a dívida externa. Estamos arcando com o ônus de uma carga tributária monumental, de taxas de juros praticados pelos bancos que fariam vergonha ao pior dos agiotas, de péssimos serviços públicos, educação e saúde em plena decadência. Segurança zero em todos os sentidos. Eu gostaria que alguém me desse apenas um único motivo que fosse para comemorar esse “sucesso econômico”.

Bolsa-família e outros projetos populistas – e é bom atentar também para as medidas que dividem a população por raça, orientação sexual e etc..., para facilitar a manipulação – não vão resolver nossos verdadeiros problemas econômicos e sociais. O pouco caso com que vem sendo tratado o pagamento da dívida interna mostra que o governo está tirando do trabalhador para satisfazer ao famigerado “mercado”. Tirando do pobre para atender às exigências do rico. Um custo que não incorre apenas em moeda corrente, mas em vidas perdidas, em sonhos desfeitos, nas esperanças e nas oportunidades de toda uma população.

No melhor dos mundos em que vivemos, acaba de faltar luz na minha casa. Começou a chover, e como sempre...adeus energia!!! Chove lá fora, e aqui dentro está tudo escuro... acho que vou tomar um banho de chuva para esfriar a cabeça...

Célia Borges

Um comentário:

Katinha disse...

erida Célia, acredito que eu falei com a pessoa certa quando perguntei sobre o Timburibá, pois você levou a pesquisa mais a sério do que eu! Depois de ler sobre a lenda do Timburibá, eu tive certeza de que a árvore poderia representar um símbolo que represente o município de Resende. Eu estava refletindo sobre uma logomarca para um projeto sócio-cultural que elaborei junto com meu saudoso amigo Marcius Lima. Tal foi minha surpresa quando pesquisei exaustivamente na internet e não consegui encontrar nenhuma foto do Timburibá.

Suas informações são um avanço para cobrir essa lacuna na história do município e da região. A foto, inclusive, para mim é inédita! Falta agora encontrar uma dessa espécie rara em nossa terra!

Obrigada pela sua atenção!