5 de abril de 2008

ITATIAIA HISTÓRICA – Ville Virkilla, um artista finlandês em Penedo


Alguns dos traços mais marcantes deixados pela colonização finlandesa em Penedo dizem respeito aos aspectos cultural e artístico. Do ponto de vista cultural as manifestações são as mais variadas, como a culinária, a sauna, a música e a dança folclóricas. Quanto à arte, pode-se dizer que, se não houve quantidade, é indiscutível a qualidade. A tapeceira Eila e o pintor Toivo Suni são um bom exemplo disso. Menos conhecido, mas não menos brilhante, o escultor Ville Virkilla produziu uma incontável coleção de trabalhos em madeira, e perpetuou seu talento na escultura símbolo de Penedo, Aves de Arribação, situada na principal praça desse recanto turístico.

Ville faleceu na Finlândia há cerca de dez anos, mas deixou descendentes em Penedo, como a filha Annie Virkilla, que criou e dirige o Centro Cultural Penedo, e Virve, que mantêm a casa onde os pais moraram no Brasil. E apesar da produção intensa, seus trabalhos são hoje raridade no país, sendo que a maioria dos exemplares conhecidos são de propriedade das próprias filhas. Na Finlândia, onde passou os últimos anos de sua vida, entretanto, tem uma considerável quantidade de obras preservadas e admiradas.

Em entrevista concedida em novembro de 95 à Revista Regional, Annie revelou um pouco da personalidade do pai: “Ele nunca teve, ou eu nunca percebi nele enquanto morou no Brasil, exatamente uma ambição artística. Ele esculpia com a mesma naturalidade com que andava, comia, respirava e amava. E se, enquanto estivesse esculpindo, aparecesse alguém e dissesse “mas que lindo!!!”, ele concluía o trabalho e dava de presente para a pessoa”, contava ela, concluindo: “Se tivesse ficado no Brasil seria um pobre artista falido”.

Nascido em Kotka, na Finlândia, desde cedo Ville Virkilla manifestava um talento que só se revelou plenamente na maturidade: com um canivete, divertia-se esculpindo barquinhos em madeira, com os quais enriquecia o acervo de brinquedos da garotada – irmãos e amigos com os quais convivia.

O entalhe e a escultura ficaram relegados à condição de hobbies na adolescência. Soldado na Segunda Guerra, Ville foi ferido. Submetido à convalescência em Helsinque, aproveitou o período de limitada atividade física para estudar Belas Artes naquela cidade. As circunstâncias, entretanto, impediram que ele mantivesse a dedicação à arte.

Preocupado em garantir o sustento da família que começara a formar, através do casamento com Vaike, que já esperava a primeira filha, ele aceitou uma proposta de trabalho no Brasil, em 1950, estabelecendo-se com uma fábrica de móveis em São Paulo. souberam da existência da colônia de Penedo, e em 51 programaram uma visita. Do encontro com os compatriotas, surgiram grandes e sólidas amizades.

Os Virkilla começaram a freqüentar Penedo nos fins de semana e nas férias, hospedes quase sempre do pintor Suni. Em 1965 resolveram construir sua própria casa, onde passaram a permanecer por períodos cada vez maiores, com os filhos Marianne (Annie), Inga, Virve e Jussy.

O talento artístico do empresário Ville não passou despercebido em São Paulo. Mesmo produzindo de uma forma simples e despretenciosa, seus trabalhos mereceram espaço e reconhecimento: em 1957, menção honrosa do Museu de Arte Moderna de São Paulo; em 58, exposições no Museu de Belas Artes e no Clube Escandinávia; em 59, medalha de bronze no MAM-SP e em 62, exposição na Galeria Domus.

A convivência com Penedo, onde encontrou identidade entre artistas e boêmios, foi um estímulo à sua criatividade. Tocando sanfona com Toivo Suni – que respondia no violino – e ambos em conjunto com qualquer outro músico que quisesse aderir, independente do instrumento, nacionalidade ou idade, era presença constante nas noitadas musicais que se realizavam em plena rua. Na platéia, finlandeses e brasileiros, velhos, jovens e crianças, confraternizavam na paisagem simples, sob o céu do Penedo.

A filha Annie lembra alguns detalhes desse tempo: “Quando eu queria falar com meu pai, saia atrás das lasquinhas de madeira que ele ia deixando pelo caminho, desde o portão de casa até o lugar onde ele parasse para conversar”. As lasquinhas eram sobras de pedaços de madeiras nativas, como o cedro, o jacarandá e o pinho-de-riga, que ele transformava em personagens brasileiros e universais: o homem do campo, o pescador, a lavadeira com a trouxa de roupas na cabeça, o artesão, o músico, o bêbado, o lutador de capoeira, e tantas outras figuras típicas, que a sensibilidade e a destreza de Ville traduziam em arte.

A consagração do artista só se deu em 1071, quando em viagem à Finlândia para rever a família, levou na bagagem um conjunto dos seus trabalhos. Um irmão, também escultor naquele país, convidou-o para dividir com ele uma exposição na Galeria Becksbacka, em Helsinque. Recortes de jornais finladeses da época refletem o impacto e o sucesso da mostra, com os críticos destacando o movimento e a vivacidade que o artista emprestou, principalmente, aos tipos brasileiros.

O reconhecimento obtido nesta e em outras exposições – Estocolmo e Tampere em 72, e diversas galerias de Helsinque em 73, 74, 75 e 76 – valeram sua admissão como membro da Associação Internacional de Artes Plásticas da Unesco, com direito inclusive a uma pensão vitalícia, para garantir a continuidade de seu trabalho. Em 75 Ville voltou a viver na Finlândia com Vaike, mas durante anos ele fazia visita regulares à Penedo, inclusive em 1979, quando veio inaugurar a escultura Aves de Arribação, verdadeiro cartão postal do lugar. O trabalho em bronze, cujo pedestal domina a Praça Finlândia, representa a colonização finlandesa em Penedo.

Na Europa as nobres madeiras brasileiras foram substituídas pelo pinho branco, resultado da consciência ecológica e da disponibilidade do material. Com ela produziu admiráveis painéis em alto relevo, das cidades que conheceu, como São Francisco, nos Estados Unidos, onde expôs em 1983, e que enriquecem hoje o acervo de um artista que exercitou seu talento com a humildade de quem recebeu um dom de Deus.

Célia Borges

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