18 de fevereiro de 2008

XIV - A Justiça é um serviço caro, pelo qual poucos podem pagar

Está escrito na Declaração Universal dos Direitos do Homem, assim como na Constituição Brasileira, que todos somos iguais perante a lei. Não sou sonhadora ao ponto de acreditar que esse conceito é levado ao pé da letra em algum lugar desse nosso planeta. Mas sou bem informada o bastante para saber que em muitos países, essa é a regra, e que os eventuais deslizes são exceções. Nos paises do chamado “primeiro mundo”, pode-se observar que há a consciência, tanto das autoridades quanto da população, de que a existência de um Poder Judiciário isento e confiável é a garantia de ordem, liberdade e justiça social.

No Brasil de hoje, entretanto, acho que não é exagero afirmar que vivemos na contramão desse conceito. Reconheço que esse HOJE não começou agora: o fato é que nos habituamos, depois de décadas de autoritarismo, corrupção, oligarquias e dinastias políticas, desmantelamento do sistema de ensino e outras mazelas, a acreditar que o nosso Judiciário, simplesmente, não funciona. E a nos conformar com isso.

Há décadas os tribunais estão abarrotados de processos. Há décadas que o número de juizes é considerado insuficiente pra dar conta de tanto trabalho. Há décadas que se cria dificuldades para vender facilidades (o que não acontece só no Judiciário). Há muito tempo também que a impunidade garantida por essa situação – que já passou de caótica – vem sendo incentivo para a delinquência, a corrupção e a desonestidade generalizada, principalmente entre os que se alçam à qualquer nível poder.

Só o que vem piorando é que, se antes (num passado nem tão distante assim) as “falcatruas” eram feitas discretamente, hoje elas se realizam com descaramento e arrogância. E os criminosos – porque roubo, corrupção, abuso de autoridade, ainda continuam a ser crimes, até disposição em contrário – nós olham pelas telas da TV e nas fotos de jornal, com aquele ar de deboche e de pouco caso, de quem está seguro que tudo aquilo de que são acusados “não vai dar em nada”.

Enquanto as prisões estão abarrotadas dos “pés de chinelo” que não tem como pagar um bom advogado – e muitos estão lá com as penas já cumpridas, ou até mesmo sendo óbviamente inocentes – os piores criminosos continuam do lado de fora, pagando pelo melhor da elite dos causídicos, comprando sentenças e consciências, e rindo da nossa cara, como quem diz: “Vocês só estão reclamando porque não tiveram a oportunidade de roubar também...”

O caos no nosso sistema judiciário é um componente com grande peso no chamado “Risco Brasil”, porque empresas e investidores estrangeiros sabem que têm que calcular nos seus custos as verbas da corrupção. Nessa salada de informações onde se confunde governo com país, somos – não sei até que ponto injustamente – identificados ou confundidos internacionalmente como um povo desonesto, oportunista e amoral. Somos o país para o qual, segundo os filmes norte-americanos, seus bandidos fogem, na expectativa de nunca serem apanhados.

Mas por quê será que o nosso Judiciário virou essa bagunça? A quem interessa o desmantelamento e a falta de credibilidade da Justiça? Acredito que a principal responsabilidade seja dos próprios juizes. Se o Judiciário fosse composto, predominantemente, de pessoas sérias, os próprios juizes deveriam se envergonhar de colecionar tantos privilégios. Na medida em que se garantem direitos que são negados aos demais cidadãos eles se fecham numa elite, cujos interesses estão cada vez mais distanciados e dissociados do interesse da população em geral. Passam a ver os problemas e as pessoas sob uma ótica arbitrária, onde a idéia do que é interesse público e interesse pessoal passam a ser confundidas, do ponto de vista das prioridades.

Eu me pergunto, por exemplo, porque juizes podem ter períodos de férias e recessos lhes dando tantos dias sem trabalhar? Não será por isso que os tribunais ficam abarrotados? Os tribunais e os juizes contam com farta assessoria...por que elas não lhes facilitam o trabalho, agilizando a solução de processos? Talvez porque a maioria desses funcionários sejam parentes e apadrinhados sem qualquer competência para as tarefas que deveriam executar...Por quê juizes e desembargadores podem “engavetar” um processo durante anos, sem que ninguém lhes cobre produtividade e agilidade? Por que as autoridades do Judiciário se encastelam na ilusão de ótica e na vaidade, achando que são cidadãos acima da própria lei, podendo fazer o que mais lhes convier, em detrimento dos direitos e interesses da maioria dos cidadãos.

Se não fosse assim, por que é que processos envolvendo autoridades e pessoas famosas (quando é do interesse delas), podem ter solução em poucos meses, enquanto o cidadão comum tem que esperar 10, 15, 20 anos por um julgamento? Por que é que notórios traficantes, criminosos do colarinho branco e outros privilegiados conseguem “habeas-corpus” e são libertados com tanta facilidade, enquanto inocentes apodrecem atrás das grades? Por que é que governos municipais, estaduais e federais deixam de cumprir sentenças, atrasam em décadas o pagamento de suas dívidas, e o Judiciário sequer se manifesta em defesa da própria autoridade?

A corrente de impunidade que nos assola é produto da cumplicidade entre os três poderes, onde pessoas que deveriam estar representando a população se preocupam apenas em garantir seus próprios (e cada vez maiores) privilégios, a prosperidade de seus familiares e a permanência, tanto quanto, possível no poder. Confiantes na ignorância e na pouca escolaridade da maior parte dos cidadãos, e na nossa omissão diante da impunidade, eles parecem acreditar que “vão se dar bem” para sempre...

Eu não vou sair por aí dando tiros em juizes, mas também não vou ser covarde e me curvar ou calar diante da INJUSTIÇA que nos assola. Sou cidadã consciente, e quero dizer, alto e bom som, que não concordo nem aceito esse nosso sistema judiciário como ele se apresenta. Juizes não deveriam ser indicados por governos, mas eleitos por cidadãos, levando em conta sua competência. Sentenças deveriam ser sempre disponíveis para o conhecimento público. Réus em processos não deveriam ter direito a serem candidatos a cargos eletivos, nem do Executivo, nem do Legislativo. Juizes condenados por corrupção não deveriam ser aposentados com todos os direitos, mas afastados sumariamente sem qualquer remuneração.

É longa a lista de providencias para deter a impunidade, mas é urgente que se acabe com essa balela de “fórum privilegiado” pra qualquer tipo de pessoa, seja autoridade, tenha diploma de curso superior ou qualquer outra desculpa esfarrapada. Criminoso é criminoso, e ponto final. Que todos cumpram suas sentenças no sistema penitenciário disponível (e se isso acontecer, até as condições de sobrevivência nas cadeias é capaz de melhorar).

Estamos sendo, há muito tempo, omissos e tolerantes, até quando a INJUSTIÇA e a IMPUNIDADE não baterem à nossa porta. Mas não custa acordar mais cedo, antes que isso aconteça. No mínimo, se você não tiver dinheiro bastante para pagar um bom advogado, quando menos esperar pode se transformar de reclamante em réu. Não dá pra continuar dormindo com a ilusão de que somos todos iguais perante a lei. Porque isso, simplesmente, não é verdade.

Célia Borges

17 de fevereiro de 2008

XIII - Gosto não se discute...mas às vezes mata!!!

Gosto não se discute, já dizia a minha avó. Mas, desde que ela me disse isso, muito tempo já passou, e muita coisa já mudou nessa nossa aldeia global. Gosto não se discute, porque como se dizia, o que seria do azul se todos gostassem do amarelo...A afinidade de gostos pode aproximar as pessoas, fundamentar boas amizades, tanto quanto a diferença de gostos pode separa-las. Num mundo civilizado, seria o caso de “apenas” se discutir as diferenças, porque a discussão faz parte do aprendizado, do intercâmbio, da evolução do pensamento e do engenho humanos. Mas nesse nosso mundo caótico, e aparentemente enlouquecido, diferenças de gosto podem ser fatais.

Acho que se procurasse bem, encontraria muitos exemplos pra ilustrar esse comentário, mas ele é resultado de apenas um episódio, que li numa notícia de jornal: um cidadão, enfurecido com a altura do som e a qualidade da música (funk) tocada no carro de outro cidadão estacionado diante de sua loja, depois de tentativas de negociação e reclamações, apelou para a violência, abatendo o outro a tiros. Uma solução radical, tão ao gosto dos nossos dias...

Fico imaginando no que resultaria uma pesquisa de opinião sobre o fato, para se julgar quem dos dois tinha razão, se a vítima da tortura mental causada pelo som insuportável em altura e conteúdo, ou se a vítima dos tiros, afinal, vítima da sua própria falta de educação. Eu sou contra a violência sob qualquer pretexto, acredito que uma forma de violência não justifica a outra. Mas não posso deixar de reconhecer que houve uma violência causando outra.

Um colunista que comentou o fato, atribuiu parte da responsabilidade à tecnologia, sob o argumento de que “há algumas décadas, ninguém teria como infernizar a vida do outro” com um som invasivo e perturbador. Não dá pra negar que a tecnologia nos dotou de novas armas e recursos, que tanto podem ser usadas pra construir quanto pra destruir (quero evitar aquela história do bem e do mal, porque até isso, hoje em dia, é muito relativo). Como os computadores. Como os telefones celulares. Como os aparelhos de som cada vez mais potentes...

É muito provável que cada um de nós, alguma vez, já tenha sido vítima do mau uso de alguma tecnologia – pra não falar do puro e simples mau comportamento humano – sem nem por isso pensar em matar alguém. É licito imaginar que primeiro chamaríamos a polícia. Na falta de solução, apelaríamos para a Justiça. No máximo, “sairíamos no tapa” com o nosso detrator.

Mas o mundo real não vem funcionando exatamente assim, e o normal é que todas as instâncias citadas acima não dêem resultado. O trabalhador que paga seus impostos, que se esforça por ser um cidadão à altura das exigências sociais, pode se cansar de ser desrespeitado, em níveis municipais, estaduais e federais., E principalmente pessoais. E vai explodir suas frustrações e revolta em cima de quem está mais à mão. O outro cidadão ferrado, e mais mau educado, que explode sua revolta pondo o som aos berros no seu carro, pra todo mundo ver que “eu estou aqui”.

O gosto, ou a diferença de gostos, não é motivo pra tanta violência, mas pode ser um bom pretexto. O motivo pra violência, nesse e em tantos outros casos, é mais a falta de educação, a falta de cultura, de auto-estima, de consciência de cidadania – e acho que tudo isso faz parte da mesma “dieta saudável” que anda faltando no cardápio da maioria da população. Se um cidadão bem educado gosta de funk, ele vai ouvir sua música sem incomodar os vizinhos. Ele pode gostar do que quiser, mas não vai precisar transformar o seu gosto numa arma. Me pergunto se alguém já terá levado uns tabefes por conta de ouvir Bach, Beethoven, Mozart, Vivaldi, em alto e bom som...

Aceito que, na Aldeia Global, não será mais politicamente correto falar em bom gosto ou mau gosto. Cada um tem o direito de ter o gosto que quiser...Tive um amigo de colégio, muito espirituoso, que costumava dizer que “pra quem gosta de jiló, morcego é beija-flor”. A indústria e o comércio estão aí pra oferecer todas as possibilidades em matéria de equipamentos e generos musicais. Mas será que quem nunca teve acesso a outras possibilidades, terá alternativa senão gostar de funk? Quem nunca teve boa escola tem outra alternativa a não ser a de ser um analfabeto funcional? Quem nunca assistiu uma peça de teatro, nunca teve acesso ou foi influenciado a ler um bom livro, quem nunca viu outros programas de TV que não a pobreza cultural que 90% da programação oferece? Qual é a opção dessa pessoa? O que se pode esperar dela?

Mesmo correndo o risco de nadar contra a corrente, de não ser politicamente correta, me dou ao luxo de ainda viver de acordo com padrões de bem e mal, de bom e ruim. Se não vejamos: a violência é boa pra alguém? a ignorância é boa pra alguém? a grosseria? o desrespeito aos limites entre o seu direito e o do outro? a injustiça? a ganância dos poderosos? crianças abandonadas? Por mais tolerantes que tenhamos nos tornado, é uma irresponsabilidade não termos critérios. É assustador que estejamos perdendo a noção do que é licito, normal, aceitável, do que não é.

Me chamaram recentemente de tirana cultural – eu preferiria déspota cultural, porque me lembra os Déspotas Esclarecidos, e me consola do despotismo da ignorância sob o qual vivemos – porque impliquei com o tal de BBB. Prefiro ler um livro, por pior que seja (e aí eu tenho a opção de deixar de lado) do que perder meu tempo com esse tipo de programa. Sou tirana porque entre Beethoven e Frank Sinatra, eu fico com os dois, mas entre um deles e a Xuxa, não dá nem pra pensar, né...Sou tirana cultural porque acho que as escolas tinham o dever de ser melhores, e oferecerem a quem estuda, melhores oportunidades (ante a opção por exemplo, de ser uma grávida adolescente, a quem chamam de “cachorra”).

Em matéria de música, prefiro quase qualquer coisa do que funk – e afinal, temos tantas opções...Em matéria de vida, prefiro não agredir ninguém, seja com um som alto, com palavras ásperas, e menos ainda com uma bala de revólver (será que isso ainda existe?). Mas sigo exercendo meu despotismo cultural, porque preciso acreditar que as pessoas não precisam matar ou morrer, apenas porque gostam de coisas diferentes.

Célia Borges

16 de fevereiro de 2008

XII - Preconceito Racial e outros preconceitos

O crescimento, observado nos últimos anos, de ações protecionistas a favor de determinados grupos étnicos e categorias sociais na política brasileira, vêm gerando mais distorções do que resultados positivos. Um exemplo disso é a política de cotas para ingresso no ensino superior, baseada em critérios subjetivos que, por isso mesmo, não encontram comprovação de ordem prática. Um caso gritante foi o dos irmãos gêmeos, sendo um deles aceito e outro recusado no tal “processo seletivo”, que se baseia apenas na opinião pessoal de alguns burocratas, sobre quem seja ou não afro-descendente.

Se a política de cotas fosse mesmo uma atitude séria, ela teria que se basear em exames genéticos. Mas se houvesse exame genético, a própria política de cotas perderia sua razão de ser. Porque todos nós estamos cansados de saber que a população brasileira é rica, bela, maravilhosamente miscigenada. É isso que nos caracteriza diante do resto do mundo, é o que nos faz diferentes de outras populações. É o que sempre representou pra mim motivo de orgulho do meu país.

Como aluna de escolas públicas até o segundo grau, me acostumei desde cedo a conviver com pessoas das mais variadas origens étnicas, e “noves fora” as brincadeiras infanto-juvenis e o hábito do brasileiro de por apelido nos demais, não me lembro de qualquer manifestação de preconceito ou discriminação racial ou social. Em casa, no ambiente familiar então, isso seria impossível, porque além de vivermos num meio pródigo em diferenças raciais, minha mãe, como afro-descendente, não permitiria isso jamais. D. Ana era chamada de “sarará” e achava a maior graça nisso.

Sempre tive amigos, professores, vizinhos negros, mulatos e “sararás” (que pra quem não sabe, é o negro meio louro). E também orientais, árabes e europeus recém chegados ao país. Mas por educação e cultura da minha época e do meu lugar, isso era uma questão absolutamente irrelevante. Disputávamos boas notas, namorados, a vitória nos jogos e brincadeiras, em total igualdade de condições. E se vi alguém ser discriminado por alguma coisa, fui justamente eu, porque muitas vezes fugia da algazarra e da folia pra me “atracar” com um livro, motivo pelo qual era considerada uma “molóide”. Até, e principalmente, pela minha família afro-descendente.

Sei que a minha história é apenas uma experiência pessoal. Reconheço que o preconceito racial existe, e muitas vezes tomei conhecimento de atitudes tais, sempre tendo me revoltado contra elas. Preconceitos existem, não apenas como manifestações de discriminação racial, mas como atitudes inerentes ao comportamento humano, que tende a rejeitar tudo o que diferente de “si mesmo”. Mas são produtos mais da falta de educação e de cultura, do que da diferença da cor da pele. Porque quem recebeu uma boa educação (e não estou falando de escolaridade, por favor!!!) e tem referencias culturais sólidas, não vai perder seu tempo discriminando quem não é “igual”.

Se vamos falar de preconceitos, podemos fazer uma longa lista: além dos brancos que discriminam negros, e de negros que discriminam brancos, existem também os exemplos dos jovens que discriminam os velhos (e vice-versa), de magros que discriminam os gordos (e vice-versa), de ricos que discriminam pobres (bem, aí fica difícil o vice-versa, mas enfim...). Se você tem muito dinheiro, mas se veste com simplicidade, não está livre de ser discriminado por uma vendedora de butique. “Sarados” discriminam os barrigudinhos de cerveja. Fanáticos de todas as espécies, discriminam que não crê na mesma coisa que eles. Políticos oportunistas discriminam aqueles que levam à serio a “causa pública”. Mas não há como fazer leis que “regulem” todos esses preconceitos.

Talvez eu mesma esteja sendo preconceituosa com essa tal de “ação afirmativa” das comunidades negras. Se for o caso, até peço desculpas. Mas me pergunto porque é que, os próprios negros, que se sentem tão discriminados, não pensaram em incluir nessa “ação afirmativa” os nossos irmãos indígenas. Nossos habitantes originais estão se extinguindo, vítimas de um genocídio que afeta justamente e prioritariamente as crianças. Para eles, não se defende política de cotas, nem para o atendimento nos hospitais, nem ao nível da simples sobrevivência.

A nossa constituição diz que “todos os cidadãos brasileiros têm direitos iguais”. Eu, pessoalmente, me rebelo contra qualquer tipo de privilégio. Se fosse negra de pele, teria vergonha de me aproveitar desse tal sistema de cotas, para qualquer finalidade. Conheço, e respeito, muitos negros que pensam como eu. Nasci pobre e humilde, lutei em igualdade de condições pra chegar onde cheguei. Fui bolsista em cursos de inglês e de francês, assim como na universidade. O produto de tudo isso influi positivamente na minha auto-estima.

Aliás, auto-estima é o que acho que falta para esse pessoal que precisa de privilégios. Se os negros são tão orgulhosos da sua condição, não deviam se esmerar em esticar o cabelo e pinta-los de louro. Não precisariam se esforçar em parecer brancos, e em agir como os brancos da pior espécie, que são aqueles mais preconceituosos. Deviam se orgulhar de si mesmos como são: tão inteligentes e capazes quanto qualquer outro cidadão, de qualquer etnia.

Já fui discriminada, e vítima de preconceitos, em várias ocasiões. Recentemente fui convidada pra fazer uma palestra sobre literatura negra, e na oportunidade, pra justificar meu interesse pelo assunto, declarei, alto e bom som, que sou afro-descendente, apesar da minha “aparecia desbotada”. O resultado disso foi um silêncio sepulcral. Passei a ser vitima de preconceitos, não apenas de alguns brancos, mas de muitos negros presentes, que desde então, me isolaram. Pessoas que se sentem no direito mais de julgar do que tentar compreender.

Sem vergonha nem orgulho, gosto de ser o que sou. A cor da minha pele e o sangue que me corre nas veias são circunstanciais. Sou apenas uma cidadã brasileira, consciente de seus direitos e deveres, pronta pra lutar por um país mais justo. O que me mobiliza é ser uma pessoa cada vez melhor. E tanto quanto possível, isenta de preconceitos...

Célia Borges

XI - Os caramujos africanos e o parasitismo humano

As chuvas começaram, e com elas, surgem, mais numerosos e persistentes do que nunca, os tais caramujos gigantes, ou africanos, que nos últimos anos vêm invadindo o Brasil afora. Nos centros urbanos eles passam meio despercebidos, mas em regiões como a nossa, ainda com vocação rural, eles encontram ambiente perfeito pra se multiplicar. E fazer o seu estrago. Que não é pouco...e em grande parte é invisível.

Tenho vocação pra budista, filosofia em que maltratar ou matar animais é covardia, mas no caso desses aí temos que deixar nossos bons propósitos de lado. O caramujo africano é uma espécie “invasora exótica”, algo assim como uma “barbeiragem” ambiental de gente incompetente, do tipo que hoje, segundo o site do IBAMA na internet, “é a segunda maior causa de perda de biodiversidade no planeta”.

Além de devorar plantas com apetite voraz, o antipático ainda compete com outros moluscos do ambiente que invade, podendo leva-los à extinção, transmite várias doenças, inclusive duas de difícil diagnóstico, que são a angiostrongilíase meningoencefálica e a angiostrongilíase abdominal, que sem tratamento, podem ser fatais.

A praga, como o nome diz, veio da África. Algum engraçadinho achou que podia ganhar dinheiro com ela, como substituto do “escargot”. Isso aconteceu no Paraná, e na década de 80. O projeto (será que não pesquisaram antes? E quem deu licença pra isso?) não deu certo...Os bichos, abandonados, saíram pelo mundo. Mas não seria o caso de se perguntar por quê é que, nesse tempo todo, não se fez nada para controla-los?

Bem, com certeza fizeram vários congressos, encontros, reuniões...esse é o problema do nosso Meio Ambiente: muito projeto, muita burocracia, muitos recursos pra viagens, carros de luxo, escritórios confortáveis. E não sobra nada pra se plantar uma única árvore. Alguém me responda, por favor, quando é que se ouviu falar, pela última vez, em projeto de reflorestamento? Em recuperação de matas (não no papel, mas objetivamente)? O clima está mudando, os rios estão secando. Mas qual foi o órgão, federal, estadual ou municipal, que terá trabalhado na recuperação de nascentes e leitos este ano? Eu não conheço, e leio jornal todo dia.

Enquanto tento controlar os caramujos do meu quintal, fazendo as contas de quanto vou ter que gastar de sal pra impedir que eles destruam meu canteiro de ervas medicinais e invadam novamente a minha cisterna, fico pensando em quanta gente tem aí, ocupando cargos onde teriam, por obrigação, ter evitado que isso chegasse a esse ponto. Há algumas semanas um grande jornal publicou matéria sob o título: “Elite de 74 mil servidores tem diversas mordomias e ganha cinco vezes mais que a dos EUA”.

Deve ter gente desse time na área de Saúde – pois o problema do caramujo é uma questão de Saúde Pública – e na do Meio Ambiente. Se eles ganham bem, tudo bem!!! Mas estão fazendo o quê? Esse é o problema do empreguismo no Brasil: colocar nos lugares mais cruciais, gente que não entende nada do assunto. Já que não dá pra escapar da politicagem, do nepotismo, pelo menos podiam fazer isso melhor, colocar gente apadrinhada, mas que gostasse do que teria que fazer. Mas o loteamento político é feito no atacado, não há tempo para esses sutilezas.

O problema é que esse parasitismo humano, produto da politicagem, está nos levando sempre, e cada vez mais, a andar pra trás. Não sou de julgar ninguém, e falar mal de quem ganha mais do que eu pode parecer inveja, o que não é o caso. Mas digamos que, em algum lugar desse cipoal burocrático, tenha alguém que, se tivesse sido colocado no lugar certo, poderia até, e há muito tempo, ter acabado com os benditos caramujos.

Tenho pena dos talentos desperdiçados em cargos errados. Tenho pena de gente tão inteligente e pungente, que definha seus conhecimentos e entusiasmo, não fazendo nada, não tendo competência, pesando no bolso de contribuinte, em troca de um salário seguro, mas eventualmente até menor do que o que poderia ganhar, se estivesse lutando e trabalhando no que gosta. E tenho pena de cada um de nós, que tem, com o suor da cada dia, pagar essa conta.

A falta de compromisso com a competência, a falta de responsabilidade para com o Meio Ambiente, as ambições políticas desenfreadas, tudo isso desfila pelos meus olhos, na forma de caramujos gigantes africanos. São pobres animais, afinal...parasitas que não tem culpa de estarem onde estão. E que, por mais nocivos que sejam, não chegam nem aos pés de muitos parasitas que se deslocam, rápidamente, em duas pernas, andam de carro importado, viajam de avião...

Célia Borges

25 de janeiro de 2008

X - Me contem uma boa piada, por favor!!!

Ando precisando dar umas boas risadas. Aliás, risadas não, o que eu preciso mesmo é de uma boa gargalhada, daquelas retumbantes...uma daquelas que massageia as vísceras e desopila o fígado. Por favor, não me poupem da graça e bom humor de vocês, porque ando muito necessitada dessa injeção de ânimo. Até porque acredito que rir é o melhor remédio. Pra tudo...
A passagem de ano, e o início de um novo, geralmente nos influi no sentido pensar em uma vida nova, novas chances, novos sonhos, novas oportunidades...sei lá, a gente sempre espera alguma coisa nova...ou eu pelo menos costumo ser assim. Janeiro sempre tem sido pra mim o mês de tomar novas decisões, de assumir novos sentimentos, de me reabastecer de um novo gás, pra alimentar meus sonhos.
Apesar de todos os problemas que perduram ano após ano, janeiro sempre foi pra mim o mês da esperança. No ano passado, por exemplo, foi quando abracei o Paisagismo com força total, e comecei a desenvolver meu primeiro trabalho. Um trabalho amador, mas enfim, nem por isso irrelevante. Ao contrário, os resultados dessa experiência contribuíram muito pra retomada da minha auto-estima, tão abalada por falta de trabalho na minha profissão de jornalista.
Esse ano de 2008, entretanto, me dá a desagradável sensação de ter começado ao contrario, de ter começado pelo fim. Com exceção da agradável reunião de aniversário da Nice Pinheiro no Uau, Su, no dia 11 – quando tive oportunidade de rever amigos e conhecer gente super interessante, principalmente da área do jornalismo, da qual sinto tanta saudades – por mais que eu revolva a minha memória, não me lembro de mais nada que tenha sido realmente gratificante...nem no sentido do novo, nem do antigo.
Senão, vejamos: mal refeitos dos festejos do reveillon, recebemos pela testa a notícia de que nosso presidente, mais uma vez, desmentia pelo gesto aquilo que garantira pela palavra, de que odeia pacotes e de que não promoveria um. Não preciso entrar em detalhes do pacote que veio, porque quem se dá ao trabalho de ler essa coluna, com certeza sabe do que se trata. Segundo um leitor de jornal, na sessão de cartas, devemos perdoar nosso presidente, a tal MP não é um pacote, é uma embrulhada...Até que valeu uma risada...
No mais, além das enchentes típicas do verão, que afetam principalmente as populações mais pobres, sem que as autoridades tomem medidas efetivas pra evita-las; dos incêndios em hospitais, deixando pacientes em estado gravíssimo ao relento (e qual foi a personalidade pública que esteve lá...); da ameaça de epidemia de dengue, que não apenas não foi debelada, como volta a cada ano mais resistente (vítima de dengue é como vítima de assalto, a gente sempre conhece alguém que já passou por isso...); enfim, pra coroar tudo isso, agora temos também um janeiro de febre-amarela. E um ministro que nega tudo, enquanto a doença se espalha e não tem vacina pra todo mundo.
Não vou nem entrar no capítulo das decepções pessoais, porque se fosse enumera-las, o meu pobre leitor ia acabar chorando comigo, ao invés de se concentrar em me alegrar um pouco, que é do que ando precisando mais...Em compensação também recebi memoráveis demonstrações de amizade, o que acaba nos dando força pra superar tudo. Se meus amigos não me contaram ainda a piada que preciso pra dar a tal boa gargalhada, pelo menos me cumularam com grande compreensão, carinho e solidariedade, massageando meu coração.
Por outro lado, meu computador, tipo assim meu ´alter-ego´ informático, vem me atribulando ao extremo, e isso desde o ano passado. Além das amebas e bactérias da vida pessoal, não paro de sofrer por conta dos tais vírus virtuais. Tive que reinstalar o Windows, oportunidade em que perdi uma grande quantidade do meu trabalho desenvolvido nos últimos meses, desde crônicas inéditas, até uma boa parte do texto do que seria meu próximo livro, e um monte de pesquisas com o mesmo fim...foi tudo deletado de repente, num simples click de tecla...é mole....
Fico pensando se isso não é apenas uma impressão minha...que o mundo é lindo, todo mundo está feliz...só eu é que consegui conjugar meu mapa astral, com um inferno atrasado e outro adiantado, tudo culminando no mesmo momento...sei lá...até pode ser...só consigo constatar, porque a interrogação sumiu do meu teclado...será que só me resta ler jornal diário com suas tragédias, ou me refugio nas páginas de humor...
Tenho tido algum consolo na leitura de gente interessante que anda escrevendo por aí. Descobri há alguns meses, lendo a Folha numa assinatura promocional, o cronista José Simão, que se intitula o Esculhambador-Geral da República, no país da Piada Pronta, que é exatamente onde vivemos. Não vou transcrever o texto dele, porque não tenho recursos pra pagar os direitos autorais, mas apenas á título de recomendação de leitura, vou repassar alguns exemplos desse humor escrachado, mas muuuuuuuuuuito engraçado:
- Em igreja evangélica, tudo é ex. ex-gay, ex-presidiário, ex-travesti, ex-viciado.
- O mesmo mosquito pica pra dengue e pra febre amarela: é mosquito total flex.
- Esta vai ser a próxima declaração do ministro Temporão: brasileiro é hipocondríaco, não pode ver uma fila que vai entrando...
- Curriculo do mosquito: pico pra dengue, pico pra febre amarela, sei cantar o Hino Nacional e quero entrar pro ´Big Brother´...
Não vou exagerar, porque não estou aqui pra me entender com o sr. Copyright, é só uma pequena dica de leitura engraçada, que eu sei que ando precisando, quem sabe vocês também, né...Estou pesquisando tudo o que é engraçado na minha pequena biblioteca. Acho que vou me atracar com os volumes do Folclore Político, do saudoso Sebastião Nery, quando mais não seja pra comparar as piadas do passado (anos 50 a 80), tão ingênuas, diante da barra pesada que se vê hoje.
Ando dolorida, no fígado, no baço, nos rins, no coração. Meio como se tivesse levado uma surra. Pode ser apenas teimosia e idiotice de pessoa que vai envelhecendo, mas não consigo encarar, sem criticar, esse estado de coisas...a nossa política transformada num simples balcão de compra e venda (de consciências, inclusive); conviver com pessoas que desaprenderam a dizer ´obrigado´ e ´por favor´; com pessoas que aparecem sem avisar, e que quando avisam, não aparecem...
Sou defensora do riso e da alegria. Gosto de ser assim, e de partilhar isso com os que me cercam – inclusive com meus gatos. Não quero, eu me recuso a entrar no clube dos pessimistas. E é por isso que peço a ajuda de vocês: uma piadinha, por favor!!!!!
Célia Borges